Com o sucesso da série Reacher, a Amazon resolveu explorar as
possibilidades de produções derivadas começando com Neagley: Detetive Particular, que acompanha a personagem Frances
Neagley, colega de exército de Reacher, em seu trabalho como investigadora
privada. Pela natureza do trabalho dela ser um pouco diferente das aventuras de
“mendigo justiceiro” do Reacher pensei que a série fosse adotar uma estrutura
de “caso da semana” em que a protagonista atenderia clientes diferentes a cada
episódio similar à série O Rastreador, mas
a série adota uma estrutura similar à de Reachercom uma investigação contínua durante toda a temporada, talvez para não
mexer muito em uma fórmula que vem dando certo.
Seita sinistra
A trama coloca Neagley (Maria
Sten) para investigar a morte de um amigo de infância que se jogou na frente de
um trem. A polícia trata o caso como suicídio ou como acidente, já que o morto
tinha muitas drogas psicotrópicas no corpo. Neagley, no entanto, desconfia
dessa versão e resolve investigar os últimos dias do amigo, descobrindo que ele
estava há meses dentro de uma seita que vivia em uma fazenda remota controlada
por Lawrence Cole (Damon Harriman). Ao tentar investigar a seita, ela é alvo de
um ataque na estrada, mas sobrevive, confirmando o palpite de que a seita
esconde algo. Agora ela e o policial Riley (Greyston Holt) precisam resolver o
caso.
A arte é um produto de seu tempo.
Quando olhamos para um filme feito décadas atrás, por mais que gostemos dele,
provavelmente veremos elementos que mostrem o quanto essa produção é datada e
reflete certos pontos de vista que não bem aceitos como na época em que foram
realizados. O horror slasher,
principalmente aquele feito nas décadas de 70 e 80, com histórias voltadas para
personagens adolescentes e muitas vezes situados em acampamentos de férias ou
cabanas isoladas, não é exceção a essa regra. Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte se propõe a refletir
sobre o slasher apontando os seus
problemas, mas também tentando entender o fascínio que esses filmes exercem
ainda hoje.
Indústria cíclica
A narrativa é protagonizada por
Kris (Hannah Einbinder) uma jovem diretora independente contratada para
produzir um reboot da franquia de
terror Acampamento Miasma. Os executivos do estúdio esperam que ela, uma diretora
preocupada com representatividade, crie uma nova história de origem para o
assassino Little Death (Jack Haven), colocando-o como uma figura trágica e
afastando as acusações de transfobia da franquia original. Kris busca a atriz
Billy Presley (Gillian Anderson) que atuou no filme original e evitou as
continuações, mas o estúdio se opõe a trazer uma atriz sexagenária e não tão
famosa como protagonista do reboot.
A premissa aponta tendências
contemporâneas de Hollywood que recorre a cineastas independentes para tentar
revitalizar franquias cansadas sob a justificativa de renovar o olhar, mas o
que eles querem é apenas usar o nome dessas pessoas para dar algum verniz de
algo mais artístico, mais preocupado com posicionamentos políticos ou sociais,
sem de fato querer transformar nada. No mundo real diretoras como Chloe Zhao ou
Nia DaCosta são cooptadas para grandes franquias como a Marvel (em Eternose As Marvels) justamente para esse fim.
Isso é visível na cena em que
Kris conversa via Zoom com os executivos e produtores, com a preocupação deles
sendo apenas a de “limpar” os preconceitos da franquia sem mexer no resto. A
própria Kris diz isso em uma conversa com Billy, afirmando ter sido contratada
apenas por ser uma jovem e promissora diretora envolvida com questões LGBT para
dar a impressão de que os produtores se preocupam com sensibilidades
contemporâneas enquanto vendem a mesma coisa.
Passado problemático
O filme comenta mais
especificamente sobre as representações feitas pelos filmes slasher e certa tradição conservadora e
de reforçar preconceitos que esses filmes tem. Não é exatamente novidade, a
franquia Pânicojá falava um pouco
sobre como esses filmes punem com mortes sangrentas condutas como fazer sexo ou
usar drogas, além de mirarem em minorias.
Aqui, porém, o foco é em alguns
tipos de representação. Filmes como Acampamento
Sinistro (1983) traziam pessoas trans como assassinos desequilibrados como
se ser trans fosse algo aberrante e um atestado de instabilidade mental ou
conduta dissimulada. Quando Kris e Billy assistem ao Acampamento Miasma
original, elas comentam como a origem de Little Death é tratada em termos
puramente preconceituosos. As cenas de morte também seguem a cartilha da
punição, o assassino mata pessoas que transam ou que usam drogas.
As mortes são filmadas de maneira
propositalmente tosca e exagerada, com chafarizes de sangue jorrando a cada
golpe do assassino e uma física nada realista, como o momento em que Little
Death empala um adolescente com sua lança e depois bate o corpo dele em um
mastro, fazendo sua vítima explodir em mil pedaços. É algo feito não para
aterrorizar ou chocar como esses filmes originalmente faziam, mas para
satirizar o exagero dessas produções e modo virulento que essas mortes
refletiam certos preconceitos e visões conservadoras. O segmento em que Billy e
Kris assistem aos filmes antigos, no entanto, dão a sensação de que o filme se
detém neles mais do que deveria.
Paradoxos do coração
Embora tenha críticas à franquia,
Kris também exibe uma apreciação por esses filmes e tenta entender o que move
sua conexão com eles. Em suas interações com Billy, que florescem em um affair, ela pondera sobre a natureza
erótica desses filmes, da nudez, do tesão adolescente, da excitação de transar
no mato e também na tensão de correr pela vida enquanto perseguida por um
assassino, de estar em meio a uma crise dessas lutando para sobreviver e
extrair prazer disso. As falas da personagem encontram eco nas falas de Billy
sobre perder a virgindade e como ela teve o melhor orgasmo da vida ao imaginar
Little Death se aproximando.
São ideias que me remetem ao
livro A Filosofia do Horror de Noel
Carroll que analisa o porquê de consumirmos histórias de horror. O teórico
analisa como o medo e a repulsa são emoções que guiam o horror, que o prazer do
gênero vem da curiosidade com o anômalo, com o monstruoso e ter essa
curiosidade saciada. A grosso modo, queremos saber como é lidar com algo assim
imponderável, assustador, e o horror permite experimentar essas emoções sem
estarmos realmente em perigo.
A relação com o anômalo, com o
monstruoso que Kris pensa em fazer no seu filme, no entanto, não é o da
rejeição ao anômalo, ao tabu, como era no passado. Isso perpassa tanto no modo
como ela pensa no assassino Little Death como em outros tabus do slasher, em especial o sexo. O prazer, o
orgasmo, o voyeurismo não deveriam ser objetos de punição. Morte e sexo
caminhariam lado a lado em fornecer prazer e catarse. Isso fica evidente
durante o clímax no qual Kris começa a ser perseguida por Little Death e a
criatura começa a matar as pessoas que ela conhece e que passou o resto do
filme julgando silenciosamente, como sua agente ou os executivos de estúdio,
enquanto a montagem corta para imagens de Kris e Billy fazendo sexo enquanto
Little Death se aproxima delas. Há uma catarse em ver os desafetos da personagem
serem mortos enquanto que a proximidade com a morte parece tornar o sexo mais
intenso, como se a lembrança da mortalidade tornasse mais importante nossos
momentos de prazer.
O filme aborda a metalinguagem da
narrativa com um surrealismo similar ao que a diretora Jane Schoenbrun fez em
seu filme anterior, Eu Vi o Brilho da TV(2024).
As fronteiras entre a realidade e o universo subjetivo de Kris são borradas,
durante boa parte do filme não sabemos até que ponto ela está de fato sendo
observada por Little Death ou se é tudo imaginação dela. A fotografia adota uma
iluminação estourada e alterações na paleta de cores para comunicar esses
momentos de descolamento da realidade. A dimensão paralela na qual Little Death
observa nosso mundo, com paredes rosas e enrugadas, lembra um cérebro. É como
se a criatura fosse o nosso subconsciente, os desejos reprimidos de pulsão de
morte e de vida, de matar que detestamos ou como sentimos culpa pelos nossos
prazeres sexuais. Nesse sentido, a trama não apenas critica os preconceitos
carregados por esse tipo de história, mas defende suas qualidades, advogando
que esses filmes tem implicitamente uma dimensão transgressora, de apontar
tabus e prazeres considerados proibidos, defendendo que o gênero precisa
abraçar isso se quiser continuar relevante. O filme pondera que o sexo não
deveria ser punido, mas celebrado.
Eu tenho uma relação de altos e baixos
com o diretor Alejandro Iñarritu. Se por um lado aprecio e energia e a
encenação cuidadosa de produções como Birdman(2015), por outro me incomodo com seus arroubos de autoindulgência que
resultam em produções como Bardo(2023)
que se acham mais espertas do que realmente são. Esse Digger me chamou atenção por tirar Tom Cruise de sua zona de
conforto. Por anos o astro esteve preso em filmes de ação (como Missão Impossível e Jack Reacher) em que repetia a
mesma persona e Digger era uma chance de fazer algo diferente e explorar o
potencial que o ator demonstrara em produções como Magnólia (1999), Colateral (2004)
ou até mesmo em Trovão Tropical (2008).
Senhores do caos
A narrativa é focada em Digger
Rockwell (Tom Cruise) magnata do petróleo que recebe de seus funcionários a
notícia que suas operações na Groelândia causaram a separação de uma geleira
que periga destruir a Europa. Digger notifica o caquético presidente Compson
(John Goodman), mas entre fazer a coisa certa e agarrar uma oportunidade de
maiores lucros, Digger opta por continuar ganhando dinheiro.
Filmes hollywoodianos de dança
normalmente seguem uma estrutura bem similar. Há um grupo de dança, uma
competição ou disputa por uma vaga, uma rivalidade e um interesse amoroso.
Estruturalmente Conforme a Música segue
bem esse formato, mas tenta se diferenciar com ritmos musicais indianos e
números de dança que evocam Bollywood, apelido dado à indústria cinematográfica
da Índia.
Ritmo previsível
A narrativa acompanha duas amigas
que acabaram de entrar na faculdade, Maya (Maitreyi Ramakrishnan, de Eu Nunca...) e Anjali (Priyanka Kedia).
Buscando se enturmar, elas buscam as comunidades de descendentes de indianos
como elas e decidem por entrar para o grupo de dança indiana capitaneado pelo
bonitão Ronak (Ankur Rathee), por quem Anjali logo se encanta. As duas se
destacam no grupo e na hora de escolher a protagonista feminina para o número
da próxima competição há um empate entre Maya e Anjali. Sem contar para o
grupo, Ronak decide desempatar em prol de Anjali por gostar mais dela e ter
problemas com as sugestões criativas de Maya. O grupo ainda precisa pensar em
uma coreografia criativa para tentar derrubar o grupo que vem sendo campeão há
anos liderado por Selena (Neha Anushka).
Triângulos amorosos, bem como
conflitos de classe e etnia são uma constante no cinema. A produção marroquina Por Detrás das Palmeiras mistura drama e
suspense para narrar uma história sobre abismos que separam as pessoas, como
eles podem ser intransponíveis e uma crença do contrário resultar em tragédia.
Relações de poder
A narrativa se passa em
Marrakesh, capital do Marrocos. Mehdi (Driss Ramdi) trabalha com o pai em seu
negócio de construção e está prestando serviço para uma família de franceses
quando conhece Marie (Sara Giraudau), a filha dos donos da propriedade. Marie
parece se interessar por ele, mas Mehdi namora a muçulmana Salma (Nadia
Kounda). Salma se recusa a fazer sexo com Mehdi, dizendo que só podem fazer
isso depois que se casarem. Como Marie demonstra interesse nele, Mehdi vai para
cama com ela. O protagonista tenta terminar o relacionamento com Salma, dizendo
que não consegue mais esperar para terem intimidade, então Salma decide transar
com ele mesmo não estando casados. Ainda assim, Mehdi deixa Salma de lado e
continua a passar tempo com Marie apreciando seu estilo de vida de classe alta
e a possibilidade dela conseguir um emprego para ele na prestigiosa empresa de
um amigo da família. As coisas se complicam quando Salma o procura e diz que
está grávida dele.
Filmar a realidade é estar aberto
para imprevistos e mudar os planos conforme a realidade filmada se transforma e
impacta as vidas dos sujeitos documentados. É isso que acontece em Cartum, cuja premissa inicial era
acompanhar a vida de cinco pessoas do Sudão de diferentes idades e origens para
acompanhar suas vidas e o que pensavam do país. Um golpe militar seguido de uma
guerra civil muda os planos do documentário, já que tanto a equipe quanto os
personagens são deslocados de seus territórios. Fora do Sudão, os realizadores
e personagens comentam sobre como sobreviveram e o que ainda esperam do futuro.
Mediando memórias
O filme gira em torno de cinco
personagens. Os garotos Lokain e Wilson, que vivem de coletar material
reciclável, o servidor público Madji, a vendedora de chá Khadmalla e o ativista
político Jawad. Usando chroma-key, o
filme tenta fazer os sujeitos recriarem suas experiências antes e durante a
guerra, recorrendo também a imagens captadas pelo documentário antes de guerra
eclodir e que são comentadas pelos participantes.
Um bom final muitas vezes nos faz
perdoar algumas falhas do filme pelo impacto que causa ou pelo modo como
recontextualiza muito do que vimos. De certa forma é isso que acontece com Diya, produção de Chade que em muitos
momentos parece não conseguir entregar o que promete, mas redime parte de seus
problemas com sua reviravolta final.
Lei de talião
A narrativa se passa em Jamena,
capital de Chade, país da África central, e é centrada no motorista Dane (Ferdinand
Mbaissané). Um dia Dane acidentalmente atropela uma criança, prestando socorro
e se dispondo a pagar as despesas médicas da criança. Quando o garoto vem a
óbito, Dane é preso por homicídio culposo. A família do menino morto, porém,
evoca a Diya, um código de conduta do local que exige retribuição pelo sangue
derramado, cobrando de Dane cinco milhões de francos como reparação pela morte
do garoto. Se ele conseguir, o crime é considerado reparado e não vai a
julgamento. Com a perspectiva de evitar a cadeia e não se afastar da esposa
grávida ou do filho que está prestes a nascer, Dane inicia uma corrida contra o
tempo para juntar o dinheiro no prazo dado de duas semanas.
O filme analisa os costumes
locais e os problemas em ter uma sociedade na qual a retribuição é cobrada de
maneira implacável. Dane tem que pagar essa dívida de sangue, mas perde seu
emprego e quaisquer outros meios para conseguir dinheiro por conta própria.
Mesmo o auxilio de sua vila, que tenta levantar o dinheiro mais por senso de
dever do que por simpatia ao protagonista, já que muitos falam que ele não se
importa muito com a comunidade, não é suficiente para dar conta do valor pedido
e Dane vai agindo cada vez mais à margem da sociedade de modo a levantar a
quantia.
Como é comum em narrativas sobre
culturas distantes da nossa, há um certo grau de opacidade no modo como o filme
retrata esses costumes e nem tudo será completamente entendido por uma
audiência brasileira por conta disso. Na audiência informal em que o delegado
de polícia apresenta a proposta da Diya para Dane, ele menciona os povos aos
quais a família de Dane e a família da criança morta pertenciam e como,
normalmente, aquela questão seria resolvida por líderes ou anciões desses
povos. São elementos que não são devidamente explicados provavelmente porque a
produção foi mais pensada para uma audiência local, não sendo didática ao
apresentar o funcionamento daquela sociedade embora não chegue a prejudicar o
entendimento dos elementos principais da narrativa.
Coletividade e individualidade
O principal problema, no entanto,
é que apesar de se estruturar como uma corrida contra o relógio, o filme nunca
nos faz sentir a urgência que a premissa evoca. Falta tensão na busca de Dane
e, por isso, muito da trama não tem o peso dramático que deveria porque não
sentimos o devido impacto do tempo de Dane se esgotando e das consequências que
irão se impor ao protagonista. O miolo também tira o filme da discussão sobre
comunidade e os impactos dessa tradição datada sobre um grupo inteiro de
pessoas e foca mais no lado individual entrando nesse terreno mais comum do thriller do sujeito sozinho correndo
contra o tempo para combater injustiças.
É só quando o filme chega perto
do final que a narrativa pega o que parecia se encaminhar para um desfecho
previsível e vira do avesso ao entregar uma reviravolta que muda tudo que
pensávamos saber a respeito do que estava acontecendo. A guinada amplia a
discussão sobre a Diya, mostrando como ela não é apenas um recurso brutal, como
também os modos como se pode abusar dela e como mesmo alguém que seria
beneficiado pela reparação dela, acaba prejudicado, como acontece com a mãe do
garoto atropelado. O que era um conto moral sobre alguém lidando com as
consequências de um erro se torna uma reflexão sobre a necessidade de manter
certos costumes tradicionais.
Se o miolo do filme carece do
devido impacto à corrida contra o relógio imposta ao protagonista, o desfecho
marca pelo modo como reverte nossas expectativas e amplia as camadas de debate
a respeito do costume da Diya.
Esse texto faz parte de nossa
cobertura da Mostra de Cinemas Africanos 2026.
Falsos documentários ou mockumentaries brincam com a ideia de
realidade documental e como muitas vezes recebemos de modo muito acrítico as
imagens que o cinema nos dá, lembrando que mesmo no registro do real há uma
construção dessas imagens e que elas podem ser modificadas ou falseadas. Memória da Princesa Mumbi mescla essa
estética de falso documentário com ficção científica e romance para pensar
nossa relação com as imagens, o cinema e a representação do mundo.
Futuro reverso
A narrativa se passa em 2093. Kuve
(Ibrahim Joseph) viaja ao reino de Umata na costa da África para fazer um
documentário sobre os efeitos de uma guerra ocorrida em 2070 que culminou com o
lugar banindo a tecnologia para tentar resolver a depressão causada pela dependência
tecnológica, se reestruturando em reinos retrofuturistas. Lá ele conhece Mumbi
(Shandra Apondi) e a recruta para ajudar com seu documentário. Mumbi desafia
Kuve a fazer um filme sem usar IA e aos poucos os dois vão se apaixonando, mas
Mumbi está prometida em casamento para um príncipe de um reino vizinho.
Chegando em sua quarta temporada,
Reacher continua sendo uma série
relativamente formulaica embora saiba trabalhar dentro dessas fórmulas. O terceiro ano ao menos tentou apresentar uma estrutura diferente ao colocar o
protagonista para se infiltrar em uma organização criminosa. Esse quarto ano,
por sua vez, retorna ao formato já conhecido de Reacher acidentalmente esbarrar
em uma conspiração criminosa e ser injustamente incriminado.
Nunca chove na Filadélfia
Enquanto viaja pela Filadélfia,
Reacher (Alan Ritchson) encontra uma mulher agitada em um metrô. Ele suspeita
que ela pode ter uma bomba, mas ela revela ter apenas uma arma e quando Reacher
se aproxima a mulher se suicida. Reacher é tratado como suspeito de assassinar
a mulher e levado para uma delegacia na cidade. Agentes da CIA aparecem na
delegacia questionando se a mulher deu um pen drive a Reacher. Se sentindo culpado
por não ter ajudado a mulher e desconfiado de que haja uma conspiração para
encobrir algo, Reacher decide investigar o caso e provar a própria inocência.
Na história da Odisseia, em voga
nos últimos tempos por conta do filme do Christopher Nolan, bruxa Circe mantem
Ulisses (ou Odisseu, dependendo da tradução) em sua ilha ao transformar seus
soldados em animais. Ela também é responsável por colocá-lo de volta em seu
caminho ao apontar ele na direção de um oráculo. A bruxa é, portanto, um
obstáculo e um guia ao personagem e essa dualidade é evocada em Gundam Hathaway: The Sorcery of Nymph Circe
na figura de Gigi Andalucia e na relação dela com Hathaway Noa.
Balada do jovem soldado
Depois dos eventos do primeiro
filme em que descobrimos que Hathaway Noa é Mafty Navue Erin, líder de um
movimento contrário à Federação e no qual ele recuperou o Xi Gundam, agora
Hatahway começa sua cruzada contra o governo ao planejar um ataque contra uma
conferência na Austrália. Enquanto isso, Gigi usa suas habilidades newtype para
ver o futuro e manejar tanto Hathaway quanto o oficial Kenneth Sleg para o que
ela quer.
A ideia por trás de Antártida é interessante, construir um thriller na remota Estação Antártica
Comandante Ferraz no Polo Sul aproveitando o isolamento da região. O problema é
a trama se enrola em alguns elementos da condução do mistério e também no modo
como lida com temas sensíveis.
Encontros no fim do mundo
A trama se passa em 2012, ano em
que houve, no mundo real, um incêndio na Estação Antártica Comandante Ferraz.
Pesquisadores e militares passam meses isolados na estação e a narrativa começa
quando uma nova leva de pessoas chega para trabalhar no local e entre eles está
a jovem cientista Inês (Marina Ruy Barbosa). Depois de uma festa de
confraternização Inês é encontrada desacordada do lado de fora da base e a
médica Marina (Leandra Leal) encontra indícios de estupro na jovem. A
subcomandante Elizabeth (Andrea Beltrão) assume a investigação por não confiar
no comandante Barros (Antonio Calloni), cuja conduta tem se tornado cada vez
mais errática nos últimos tempos.
A produção Morte e Vida Madalena trata sobre os percursos tortos pelos quais
nos conectamos com os outros, lidamos com a morte e com a renovação de nossas
vidas. São temas que o diretor Guto Parente já tinha abordado em sua obra
anterior, o ótimo Estranho Caminho
(2024), e que aqui volta a falar com o mesmo esforço de equilibrar drama e
comédia.
Encarando a perda
A narrativa é protagonizada por
Madalena (Noá Bonoba). Grávida de oito meses, ela acabou de perder o pai e
decide honrá-lo terminando seu último filme, uma ficção científica B. Ela decide
filmar logo, antes que seu bebê nasça para não precisar lidar com a correria de
uma produção com um recém-nascido. O problema é que muitas coisas fogem de seu
controle e as filmagens são tomadas por caos quando o diretor, Davi (Marcus
Curvelo), ex-marido de Madalena, desaparece. Ela traz Oswaldo (Tavinho
Teixeira), amigo de seu falecido pai, para assumir o filme, mas Oswaldo parece
ter ideias próprias para o filme, saindo do roteiro e irritando Madalena.
Muitas histórias já foram
contadas sobre Robin Hood. Algumas com um viés de fantasia, outras buscando
algum realismo histórico, mas a grande maioria delas retratava Robin como uma
figura heroica que combatia injustiças e ajudava os pobres. A Morte de Robin Hood, por sua vez,
tenta ver o que há por trás desse mito e como uma vida à margem da lei
provavelmente faria de Robin Hood um alvo constante e o obrigaria a deixar uma
trilha de corpos por onde quer que passasse.
Marcas da violência
A trama mostra um Robin (Hugh
Jackman) já velho, vivendo isolado e sendo alvo de constantes ataques de
pessoas tentando se vingar pela morte de seus entes queridos. Um dia ele é
procurando pelo seu antigo parceiro, que agora atende pelo nome de Edward (Bill
Skarsgard), que pede ajuda a Robin para repelir um ataque feito à propriedade
em que vive por pessoas buscando vingança pelo passado deles. Robin ajuda, mas
tudo dá errado e ele termina gravemente ferido, acordando numa ilha sob
controle da freira Brigid (Jodie Comer, de Killing Eve) que usa o local como um espaço de cura e recuperação. Enquanto se
recupera, Robin teme que descubram sua identidade e que venham atrás dele.
Adaptando o livro infantil
escrito por Enid Blyton, A Maravilhosa
Árvore Encantada é uma fábula sobre infância e o poder da imaginação. Em um
contexto no qual crianças passam boa parte do tempo em dispositivos eletrônicos
e não se conectam com o mundo a sua volta, a narrativa lembra do quanto é
importante imaginar e exercitar o lúdico.
Campo dos sonhos
A narrativa é centrada na família
Thompson. Quando Polly (Claire Foy) perde o emprego, tendo que sair da casa
dada pela empresa, ela e o marido, Tim (Andrew Garfield), decidem perseguir um
sonho antigo e se mudam para o campo. Seus três filhos não gostam muito, já que
vão ficar longe de tudo e sem internet. A caçula, Fran (Billie Gladsdon),
descobre uma árvore mágica em um bosque próximo. A árvore é habitada por fadas,
elfos e vários outros seres fantásticos que habitam diferentes reinos contidos
na árvore. Fran logo chama os irmãos e eles se envolvem em grandes aventuras.
Estrelado por Ryan Reynolds e
Kenneth Branagh, Mayday é uma comédia
de ação nos moldes de Máquina Mortífera (1987)
ao apresentar uma dupla de protagonistas com personalidades opostas que
precisam sobreviver a uma ameaça. Ele tenta falar sobre outras coisas ao situar
sua trama no final da Guerra Fria, mas isso não leva a nada muito interessante.
Atrás das linhas inimigas
A narrativa se passa em 1987. O
piloto Troy é designado para uma aeronave espiã em uma missão de voo sobre a
União Soviética, mas quando seu avião é abatido, ele precisa dar um jeito de
sair do país antes de ser capturado pela KGB. Ele é encontrado por Nikolai
(Kenneth Branagh), um ex-agente soviético que convenientemente adora os Estados
Unidos. Em troca de asilo político Nikolai aceita ajudar Troy a escapar, mas
com uma condição, a de que levem junto a filha dele, Anna (Maria Bakalova), que
mora em Moscou.
Quando Duro de Matar(1988) estreou seu sucesso gerou uma onda de
imitadores. Passageiro 57 (1992) era Duro de Matar em um avião. A Força em Alerta (1992) era Duro de Matar em um navio. Velocidade Máxima (1994) era Duro de Matar em um ônibus e daí em
diante. Isso continua até hoje com Código:
Vingança, novo filme de ação estrelado pelo Jason Statham, sendo mais um Duro de Matar em um navio.
Motim brutal
Statham interpreta Cole, um
ex-militar que se tornou segurança de um poderoso empresário na Tailândia e o
tem como uma figura paterna. Quando seu protegido é morto em um ataque do qual
Cole é o único sobrevivente, ele decide buscar os culpados, o que o leva até um
navio cheio de pessoas sendo traficadas protegidas por mercenários. Seu único
auxílio é a terceira imediata Ellis (Annabelle Wallis, de Maligno) e agora ele precisa enfrentar todos no navio e sobreviver.
É fácil ver as várias referências
que O Homem Que Sussurra costura em
sua narrativa, misturando uma estrutura similar à de O Silêncio dos Inocentes (1991), com um detetive precisando a ajuda
de perigoso assassino preso para deter um serial
killer, uma criança que vê pessoas que ninguém mais vê como em O Sexto Sentido (1999). Um criminoso que
sequestra crianças e deixa vozes gravadas com em O Telefone Preto(2021) e daí por diante. Embora traga elementos
consagrados do suspense e das narrativas policiais, o filme não faz nada
interessante com isso.
Pecados dos pais
A narrativa acompanha Tom (Adam
Scott, de Ruptura) um escritor de
romances policiais que recentemente ficou viúvo e se mudou com o filho, Jake
(Acston Luca Porto) para uma pequena cidade. Quando o garoto é sequestrado a
polícia vê semelhanças com uma onda de crimes similares de décadas atrás.
Apesar da detetive Beck (Michelle Monaghan) ver as semelhanças, seus colegas
não creem na conexão. Ela procura o detetive aposentado Peter (Robert De Niro),
que convenientemente é o pai de Tom, para ajudar na investigação. Peter supõe
que o assassino que prendeu anos atrás, Frank (Michael Keaton), deve ter se
comunicado com o novo assassino e tenta fazer Frank falar. Enquanto isso, Beck
e Tom correm contra o tempo para tentar encontrar Jake.
Depois que Você Não Tá Convidada pro Meu Bat Mitzvá (2023) mostrou que a filha
caçula do Adam Sandler conseguia segurar um longa como protagonista, a Happy
Madison, produtora de Sandler, a coloca a frente de mais um filme neste Não Deseje Boa Sorte, que vai mais para
o drama do que para a comédia.
Amadurecimento forçado
A narrativa é protagonizada por
Sophie (Sunny Sandler) que tenta entrar para o elenco do musical da escola e se
surpreende ao conseguir o papel de protagonista. Enquanto lida com o senso de
inadequação ao não se sentir boa o suficiente para ser a principal, Sophie
acidentalmente descobre que sua mãe, Elizabeth (Melanie Lynskey), está com um câncer
severo. Agora a garota precisa lidar com as pressões do colégio e a perspectiva
de perder a mãe.
Acompanhando o funcionamento da
cozinha solidária do MTST, o documentário Não
Existe Almoço Grátis narra as histórias das mulheres responsáveis por ela e
também pelo modo como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto constrói um senso
de cooperação e coletividade com seus membros.
Alimentação coletiva
O documentário foca em três
mulheres responsáveis pela cozinha solidária do MTST na periferia de Brasília:
Socorro, Jurailde e Bizza. Acompanhamos o cotidiano delas na cozinha enquanto
se preparam para servir um número grande de pessoas no dia da posse de Lula em
janeiro de 2023. Somado ao cotidiano na cozinha e da preparação para o evento,
o documentário conta as histórias pessoais dessas mulheres e também das tensões
em Brasília por conta de movimentos golpistas que não aceitavam o resultado das
eleições de 2022.
Inúmeras histórias reais sobre a
Segunda Guerra Mundial já foram contadas. Talvez pela vastidão de histórias
contadas, algumas soam menos interessantes. Esse é o caso de Pressão, que acompanha os
meteorologistas responsáveis por fazer a previsão do tempo para o Dia D e
contribuíram para o sucesso da invasão da Normandia.
Tempo fechado
A narrativa conta a história real
do britânico James Stagg (Andrew Scott), meteorologista convocado para ajudar
os aliados a planejar o ataque do Dia D. Faltando três dias para o ataque,
Stagg crê que o dia previsto será de tempestade, mas o meteorologista do
exército dos Estados Unidos, Irving Krick (Chris Messina), crê que será de
tempo aberto. Com o tempo contra eles, o general Eisenhower (Brendan Fraser) os
pressiona a ter certeza.
Impressionante como o diretor Guy
Richie parece ter esquecido o que tornava seus filmes interessantes. Produções
como Jogos, Trapaças e Dois Canos
Fumegantes (1998) ou Snatch: Porcos e
Diamantes (2000) eram repletos de personagens, de espaços e figuras
pitorescas, cuja excentricidade fazia tudo parecer descolado. Este Na Zona Cinzenta é o inverso, ele tenta
ser descolado sem exibir qualquer senso de personalidade.
Dinheiro sujo
A figura central da trama é
Rachel Wild (Eiza Gonzalez), uma advogada especializada em recuperar dinheiro
para grandes bancos e empresas, operando tanto dentro quanto fora da legalidade
(daí o título do filme). Ela é contratada por um banco para reaver uma grande
quantia que sumiu nas mãos de um bilionário espanhol, Manny Salazar (Carlos
Bardem). Para isso ela emprega os mercenários Sid (Henry Cavill) e Bronco (Jake
Gyllenhaal) para sabotarem as operações de Salazar enquanto usa a lei para
congelar as finanças dele.
A atriz Olivia Wilde teve uma
estreia promissora como diretora no bacana Fora de Série(2019), mas decepcionou em seu filme seguinte com o fraco Não Se Preocupe, Querida (2022). Agora
ela chega em seu terceiro longa neste O
Convite e entrega o que pode ser o seu melhor trabalho atrás das câmeras.
Cenas de um casamento
O casamento de Angela (Olivia
Wilde) e Joe (Seth Rogen, que trabalhou com Wilde na série O Estúdio) está por um fio. Eles mal conversam, não fazem sexo,
discutem constantemente e tudo na relação deles soa protocolar. Um dia Joe
chega do trabalho e descobre que Angela convidou os vizinhos de cima para um
jantar para agradecer a paciência deles com o barulho da reforma. Joe não está
disposto a receber ninguém, mas pensa que pode ser uma oportunidade de
questionar os vizinhos pelo barulho constante à noite do que parecem ser longas
sessões de sexo. Quando o casal vizinho Pina (Penelope Cruz) e Hawk (Edward
Norton) chega eles encontram um clima constrangedor já que Angela e Joe estavam
no meio de uma briga. Ainda assim tentam seguir com a noite que se desdobra em
constrangimentos e tensões conforme os dois casais passam a se conhecer melhor.
No início dos anos 2000 o
jornalista Chris Hansen ficou famoso com o programa To Catch a Predator. Nele, atores se passavam por adolescentes e
entravam online para conversar com pessoas reais que se interessariam por ter
contato sexual com menores de idade, marcavam encontros com essas pessoas que
eram então surpreendidas por Hansen, que apresentava o histórico das conversas
e trazia a polícia para prender os sujeitos. Ao mesmo tempo em que o programa
chamou atenção para os perigos de deixar menores soltos na internet, o programa
também é questionado por seus métodos e como busca mais sensacionalismo do que
transformação. O documentário Predators, que chegou no Brasil via Paramount+, vai justamente questionar o legado do programa
Investigação espetacularizada
O filme abre com cenas de um dos
programas de Hansen, com câmera dividida mostrando a atriz recebendo o
investigado numa casa vazia, já seus pais estariam viajando, enquanto outras
câmeras mostram Hansen se preparando em outro cômodo e a polícia esperando do
lado de fora. Quando Hansen entra em cena, é visível que o interesse não é questionar
ou ouvir o investigado, é desmoralizar o sujeito. O investigado tenta ir embora
e assim que sai da casa é cercado por dezenas de policiais.
Há quase três décadas a trupe
liderada por Johnny Knoxville testa os limites de seus corpos e do bom gosto na
televisão e no cinema com Jackass.
Agora próximo aos sessenta anos e sentindo o peso dos vários danos ao seu
corpo, Knoxville apresenta esse Jackass:
O Último é o Melhor como a derradeira obra do grupo, embora venha dizendo
isso faz uns dois ou três filmes.
Tempo perdido
Embora venha há tempos dizendo
que seu próximo trabalho será o último, aqui o tom é mais de desfecho que
qualquer outro Jackass. O filme apresenta vários momentos de introspecção de
Knoxville e sua trupe na qual ponderam sobre o percurso até aqui, as maluquices
que fizeram e todo o dano que já sofreram. São momentos que oferecem respiros
ao caos e escatologia típicos do grupo e permitem lançar outra luz sobre eles,
na qual eles conversam sobre envelhecimento, os limites do corpo e até o
próprio legado. Esses momentos poderiam ser o principal elemento do filme, mas
não são aproveitados como deveriam, com a câmera rapidamente cortando quando
alguém se emociona ou não dando muito espaço para algumas questões que são
abordadas de maneira muito passageira, como o falecimento de Ryan Dunn ou os
problemas que alguns membros do grupo, como Steve-O tiveram ao longo dos anos.
Quando escrevi sobre Submissão (2024) mencionei que era
basicamente M3gan(2022), mas com uma
robô sexual ao invés de uma robô criança. Aparentemente os produtores da
franquia M3gan se deram conta da oportunidade e criaram Soulm8te, um derivado que é justamente a história de uma “robô
acompanhante” que, como Megan, sai matando pessoas.
Amores artificiais
A narrativa é protagonizada por
David (David Rysdahl) um programador viúvo e solitário que passa seus dias
trabalhando e conversando com sua assistente virtual. Quando sua empresa se
prepara para lançar uma “robô acompanhante” que usaria os dados das assistentes
virtuais para moldar suas personalidades, David resolve testar a nova criação.
Ele recebe em casa o protótipo que nomeia como Sara (Lily Sullivan), mas se
frustra com o quão limitada e pouco espontânea é sua personalidade. Ele decide
mexer na programação dela para tirar certos limitadores e fazê-la parecer mais
humana. Obviamente a mudança deixa Sara livre para fazer o que bem entende e
rejeitar a programação, criando problemas.