Só o cume interessa
A tentativa acabou em tragédia já que o grande número de pessoas em um espaço tão difícil de se movimentar, tornava tudo mais lento, deixando todos mais vulneráveis a intempéries e imprevistos por conta das janelas de tempo ideal para atacar o cume serem bem reduzidas. Como se trata de uma expedição comercial, com turistas pagando para serem levados ao cume, os guias não podem simplesmente dizer que não dá para escalar e voltar, as pessoas querem receber o que pagaram e ao menos terem a sensação de que tentaram chegar ao cume, obrigando os guias a fazerem tentativas de escalar e assumirem riscos que provavelmente não fariam de outro modo.
O trabalho de Krakauer mostrava como a comercialização do montanhismo, principalmente nessas montanhas mais perigosas, traz inúmeros riscos e até prejudica a natureza desses ambientes por conta da quantidade de lixo e equipamento deixados nos lugares. Trinta anos depois, no entanto, é visível que ninguém aprendeu com as mortes e acidentes narrados no livro de Krakauer, como mostra o documentário K2: O Desafio Final.
A produção narra a tentativa do montanhista islandês John Snorri Sigurjónsson em escalar a montanha K2 no inverno, sendo a primeira pessoa a fazer isso. O K2 é considerado a montanha mais letal do planeta, com o maior número de mortes de pessoas que tentaram conquistá-lo. Escalar o K2 no inverno seria considerado o “último grande feito do montanhismo” já que tudo mais foi conquistado. É uma ideia que me remete a uma frase do diretor Werner Herzog (que creio ter sido dita em Encontros no Fim do Mundo) no qual ele diz que não há mais mistério no mundo, os mapas já foram completamente preenchidos e agora as únicas façanhas são tentar recordes bobos, remetendo exatamente ao tipo de empreendimento visto aqui.
O islandês se junta a um experiente montanhista paquistanês, Ali Sadpara, para sua tentativa de escalada, mas não é o único ali. Um grupo de montanhistas nepaleses comandados por Nims Purja também tenta ser o primeiro ao cume. A isso soma-se uma excursão da Seven Summit Tracks que tenta levar um grupo de turistas ao cume.
O começo do documentário mostra como o montanhismo se tornou um negócio, com imagens de filas para o cume do Evereste e várias empresas prometendo guiar seus clientes aos principais cumes do mundo. Façanhas como a tentada aqui, portanto, não são apenas para registrar o nome na história, são para gerar renda a quem faz isso, com vídeos e postagens em redes sociais dando visibilidade a essas pessoas. É um elemento que não existia na época de Krakauer e que adiciona mais complicações nas escaladas pela necessidade de levar um operador de câmera, equipamentos de filmagem e o fato de que expedição vai se preocupar também em captar imagens “instagramáveis” ao invés de apenas descer e subir em segurança.
Pânico na neve
O início dá a entender que a busca por ser o primeiro no cume vai ser o fio narrativo do documentário, mas isso é resolvido nos primeiros minutos quando a equipe do Nepal parte na calada da noite para atacar o cume. Acusações são feitas de que eles teriam cortado cordas para impedir que outros os seguissem, mas são rapidamente desmentidas e a questão é resolvida. O documentário tenta compreender o que move essas pessoas, narrando como os sherpas do Nepal foram essenciais nas conquistas de picos como o K2 ou Evereste, mas seus nomes raramente são lembrados ou celebrados, sendo ofuscados pelos ocidentais guiados por eles. Embora reconheça a importância simbólica dos nepaleses terem uma conquista só sua no montanhismo, o documentário passa rapidamente por isso para narrar em mais detalhes a tragédia que seguiu depois.
É uma escolha esquisita considerando a disputa pelo pico e as circunstâncias da escala, com rivalidade e brigas de egos, soam como uma narrativa interessante ainda mais com a postura meio rockstar de Nims. O que segue depois é menos interessante porque já não há mais a urgência de ser o primeiro a chegar e por muitos dos problemas que se seguem serem bem similares a outras tragédias documentadas (como a do livro de Krakauer) em que eles tentam atacar o cume apesar das condições adversas, tem problemas logísticos pelo número grande de pessoas, as subidas levam tempo demais e há equipamentos de menos porque ninguém se deu conta de seria necessário mais material para manter as pessoas em segurança nos acampamentos superiores e tentativas arriscadas de chegar ao cume mesmo em condições adversas.
Talvez seja uma falha minha, mas não consigo ter muita empatia por quem se coloca em situações obviamente arriscadas nas quais não tem muito a ganhar. Sim, o documentário tenta narrar como essas pessoas, tanto os guias mais experientes quanto os turistas, são pessoas que gostam da adrenalina, da emoção da escalada e maneira como tudo é filmado ajuda a entender a emoção vertiginosa de estar nessas paisagens, bem como a beleza imponente e letal dessas paisagens (embora isso tenha se tornado comum em documentários sobre escalada, como Free Solo ou Skywalkers: Uma História deAmor). No entanto, os riscos aqui são tão grandes, com ventos de altíssima velocidade deslocando pedregulhos grandes, avalanches ou neve mais densa que o normal que os personagens soam menos como exploradores audazes e mais como doidos inconsequentes. Isso vale também para os turistas, pessoas que a despeito de alguma experiência em montanhismo claramente não tinham preparo para uma empreitada tão perigosa.
No fim, K2: O Desafio Final é menos sobre a busca por uma façanha e mais a
crônica de uma tragédia anunciada. O documentário tem bons elementos, mas não
os explora de maneira envolvente.
Nota: 6/10
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