terça-feira, 6 de outubro de 2026

Crítica – Lanternas

 

Análise Crítica – Lanternas

Review – Lanternas
Tirando o filme do Superman (2025), a maioria das produções do novo universo DC até agora tem sido focado em personagens menores ao invés de trazer os principais heróis que irão eventualmente compor a Liga da Justiça. A série Lanternas vinha com expectativas ao focar nos Lanternas Verdes e, pessoalmente, por ser produzida por Damon Lindelof que entregou a excelente minissérie de Watchmen também na HBO. O resultado é mais uma trama investigativa do que uma história de super-heróis que funciona pelo cuidado que a série tem construído seus personagens.

Detetives estelares

A trama compreende dois períodos de tempo focando no Lanterna Verde Hal Jordan (Kyle Jordan) e em John Stewart (Aaron Pierre), que está sendo treinado para se tornar um Lanterna Verde. Durante o treinamento Hal recebe um alerta de que há algo errado em uma pequena cidade no interior do Nebraska e vai investigar. Lá ele descobre que múltiplos alienígenas foram assassinados em um tiroteio e que eles estavam na cidade em busca de algo ou alguém de natureza também alienígena. O primeiro episódio termina com um salto temporal de dez anos. John retorna ao Nebraska e a pequena cidade está destruída, ele vai ao encontro da xerife Kerry (Kelly Macdonald) para encontrar o corpo de Hal Jordan, assassinado com um tiro na cabeça.

A narrativa focada em uma investigação que se estende por mais de uma década num cenário do interior dos Estados Unidos com uma dupla de investigadores em constante conflito remete à primeira temporada de True Detective, algo que foi mencionado até durante a divulgação da série. É importante mencionar isso porque evidencia que a produção sempre foi transparente a respeito do que a série era: um drama investigativo no qual os personagens por acaso tem super poderes, mas a intenção nunca foi a de ser uma série de super-heróis propriamente dita.

A série faz um bom trabalho na condução dos seus dois mistérios principais, apresentando alguns suspeitos com credibilidade e evidenciando o que está em jogo para os personagens. A narrativa tem bastante fair play com o espectador, não ocultando informação até o último minuto e permitindo que espectadores atentos consigam concluir os culpados. Mesmo que você consiga antever certas revelações, como a de quem é o Caçador Cósmico escondido na pequena Rushville ou quem matou Hal Jordan ainda assim esses desdobramentos impactam quando acontecem pela construção dos personagens, tanto em termos textuais quanto da atuação do elenco.

Fugindo da programação

O principal ponto de conflito nem é o mistério em si, mas a relação cheia de atritos entre Hal e John. Hal vê John como uma ameaça à sua posição de Lanterna Verde, constantemente sendo agressivo com John e o menosprezando, embora consiga perceber o potencial dele mesmo sem demonstrar isso. John, por sua vez, cresceu sendo treinado desde a infância por seus pais para ser o Lanterna Verde, ele foi criado para não ter medo e para ser um bom soldado, com sua postura estoica irritando Hal.

Os flashbacks da infância de John mostram a relação pouco saudável que John tinha com seus pais, que constantemente o colocavam em perigo para que ele superasse seus medos. De início parece que é o pai dele, John Sr. (J. Alphonse Nicholson), o responsável por isso, mas logo descobrimos que é Bernadette (Jasmine Cephas Jones), sua mãe que pensou em tudo isso e até negociou com os Guardiões para treinar John para ser um Lanterna.

Bernadette tem motivos até compreensíveis para suas ações ao descobrir que o anel de Abin Sur procurou seu marido antes de ir até Hal e John Sr. demonstrou medo, algo compreensível para um homem negro ao ver sua casa invadida por uma luz e vozes estranhas. A série usa isso para explorar o lugar que a população negra ocupa dentro da mitologia e iconografia dos super-heróis, ponderando como questões raciais impactam os sujeitos que vivem em um universo assim. Na ótica de Bernadette, Hal só conseguiu o anel porque pessoas brancas não vivem sob o medo constante e preconceito que minorias têm que lidar e exigir dos Guardiões uma chance para o filho seria o jeito dela de conseguir algum tipo de reparação por desigualdades. São temas que o próprio Lindelof já trabalhou em Watchmen (2019).

John, portanto, foi programado a vida inteira para um Lanterna quisesse ele ou não e não é o único a lidar com uma vida inteira de condicionamento. O tema de superar a própria programação e como suas circunstâncias permitem enfrentar sua própria natureza são um dos principais eixos da série. Zoe (Poorna Jagannathan, da série Eu Nunca) demonstra isso em uma conversa com John na qual ele pergunta o que ela fez com Abin Sur e a confissão de Zoe é seguida por um arrependimento no qual ela afirma que era a natureza dela e que não conseguiu se contrapor à sua programação.

Na segunda metade da série vemos a infância de Hal e descobrimos que ele também foi condicionado à personalidade teimosa, de fazer o certo custe o que custar e de conduta autodestrutiva pelo pai. Tudo que Hal faz para tentar deter o Caçador Cósmico e manter o anel é fruto desse condicionamento e, como vemos no quinto episódio, o fato de Hal não conseguir romper com sua programação leva tudo a uma grande tragédia. O personagem parece ter compreendido isso quando a trama avança ao presente. As pistas que ele deixa para John repetem os elementos da relação de Hal com pai envolvendo a chave de um cofre e uma confissão para o filho, o que mostra que Hal de fato via algo em John como seu sucessor. A cena final do flashback de Hal em que ele volta para pegar a bola de beisebol depois da morte do pai tem um duplo simbolismo, representando tanto a teimosia de Hal e também o fato de que, diferente do pai, Hal escolheria viver. Uma escolha que ele continuou a fazer quando voltou a Rushville para ficar com Kerry e ter a oportunidade de construir algo ao lado de alguém.

Dupla explosiva

O motivo dos atritos entre Hal e John funcionarem tão bem não é apenas pelas similaridades e oposições construídas no roteiro, mas pelo trabalho dos dois atores. Seria fácil que um personagem tão estoico quanto John se tornar entediante pelo fato de não demostrar muita emoção o tempo todo, mas Aaron Pierre nos permite ver a raiva contida que ele tem por Hal, a desconfiança com os guardiões ou os sentimentos não resolvidos que ele tem pela família. Quando reencontramos John dez anos depois, ele é um homem diferente, menos contido, menos disposto a seguir a hierarquia para ser visto como um “bom soldado”, resultado dele ter rompido com sua programação de infância de buscar o anel da tropa a qualquer custo e ter decidido tomar as rédeas da própria vida.

Kyle Chandler é muito bom em evocar o charme cafajeste de Hal, um sujeito abrasivo que não demonstra se importar com o que ninguém pensa dele nem com a própria segurança e segue seu próprio senso de justiça, embora também seja guiado por ego. A despeito de suas bravatas, Chandler também nos permite ver a solidão e vulnerabilidade de Hal, algo que ele deixa mais em evidência na cena em que ele está no hospital com Kerry.

Chandler também interpreta duas versões de seu personagem, a segunda sendo a consciência de Hal deixada em seu anel e que Hal deixou anos sem atualizar. Assim, o seu “Halograma” é uma versão de Hal anterior à tentativa de golpe de Sinestro (Ulrich Thomsen), portanto menos desencantada e cínica, mais aberto a falar dos próprios sentimentos e à ideia de John ser seu substituto. Quando o Halograma vê John criar construtos sem estar com o anel no dedo, seus elogios a John soam bastante verdadeiros, diferente do desdém com que Hal o tratava. Ele também se mostra genuinamente mais preocupado com John e em lhe aconselhar para que não cometa os mesmos erros. Chandler traz a essa versão de Hal um afeto que não estava presente antes. A despedida dos dois, com o Halograma fazendo John dizer “eu te amo” sem se dar conta resume muito bem como essa versão de Hal está mais aberta a demonstrar o que sente pelo pupilo ainda que mantenha sua personalidade meio canalha.

A série se sustenta tanto na dinâmica dos dois que o episódio em que não temos John interagindo com Hal, o sexto, focado no funeral de Hal, é o mais fraco da temporada. A impressão é que algo está faltando e que John não tem ninguém tão interessante quanto ele para interagir, já que mesmo as interações conflituosas com Guy Gardner (Nathan Fillion), não chegam perto da dinâmica entre Hal e John. Algumas subtramas, como a da garota de Rushville que exige dinheiro a John por conta da destruição de décadas atrás, acabam não levando a nada interessante. Imagino que a ideia era mostrar o olhar da população comum, mas a personagem tem tão pouco tempo que soa mais como uma distração da trama principal do que algo capaz de agregar drama ou sentido.

Drácula Surfista

O episódio final amarra bem os temas de criação versus natureza ao resolver o mistério da morte de Hal e ao explorar tanto a relação entre Hal e John quanto a de John com Noah (Shea Pritchard), o filho de Kerry. Ao explorar o planeta alienígena ao lado de Hal e confrontar Sinestro, Hal ajuda John a entender que o poder da força de vontade não é suprimir o medo, mas o de agir a despeito do medo. John usa isso em sua conversa com Noah ao tentar entender a motivação do garoto para fazer o que fez. John percebe a ameaça que ele pode representar, mas também o desejo do garoto em agir contra sua programação, algo que John fez no meio da temporada. John escolhe não ceder ao medo da ameaça que Noah pode vir a se tornar e prefere confiar no que o garoto é. Isso também permite a John entender melhor a própria mãe, já que ao conversar com Kerry a respeito de Noah ele vê muito de Bernadette em Kerry.

Quando John finalmente aceita o anel é nos seus próprios termos, não pelo condicionamento imposto aos pais, não pelas ordens dos Guardiões, figuras tão robóticas quanto os Caçadores Cósmicos que criaram e que não entendem a diferença entre programação e criação. Ele não é o Lanterna que as outras pessoas queriam que ele fosse, mas o Lanterna que escolheu ser, fruto de suas decisões e de seu aprendizado com os próprios erros e com os de Hal. É um momento bonito a interação final entre eles porque de fato soa como uma merecida culminação de toda a relação entre seus dois personagens. Entregando um encerramento que é majoritariamente satisfatório.

Digo majoritariamente porque há uma pontinha de decepção no modo como a série decide nos deixar em relação a John. Ainda que a série tenha sido transparente quanto a sua natureza de ser um mistério mais mundano e menos uma trama épica de super-heróis ainda assim ela é claramente uma história de origem de John em como ele se tornou esse herói de poderes intergalácticos, mas quando John finalmente se torna o Lanterna não o vemos efetivamente ser um Lanterna, deixando isso para uma próxima temporada e para o vindouro filme do Superman no qual John irá aparecer.

É difícil não chegar ao final da série e não pensar no tropo do “Drácula Surfista”. O termo vem de uma postagem que viralizou em redes sociais em 2021 no qual um usuário dizia que antigamente se alguém fizesse uma série chamada Drácula Surfista veríamos o personagem título a todo episódio em aventuras que envolveriam surfe enquanto que hoje uma série chamada Drácula Surfista levaria a primeira temporada inteira só para explicar como ele conseguiu a prancha e decidiu surfar para aparecer surfando nos últimos segundos da temporada. A postagem é uma crítica ao modo como séries recentes dilatam suas tramas e evitam chegar ao cerne de suas narrativas, algo que, por exemplo, aconteceu muito com as séries que a Marvel fez em parceria com a Netflix, construindo expectativas que demoram de ser atendidas.

Lanternas faz um pouco disso com o espectador, aponta a todo momento para o herói que John virá a ser, mas só nos dá isso no último minuto e não nos permite de fato ver John sendo esse herói. Sim, eu entendo que pela estrutura da série (que nunca escondeu o que era) a temporada não encerraria com um confronto explosivo contra Sinestro ou Caçadores Cósmicos, não faria sentido. Essa é a história de John e Hal, de romper ciclos, de confiar na natureza humana, não é uma história de grande batalhas. Ainda assim sinto que deveríamos ter ao menos visto John agindo como Lanterna, usando seus poderes e uniforme, salvando alguém, sei lá. Deveria encerrar mostrando o herói que ele se tornou e não apenas o que ele pode vir a ser.

Isso se aplica também a todos os outros elementos cósmicos da narrativa. As maquinações dos Guardiões servem mais para motivar a conduta de Hal e de John, deixando em aberto conflitos para histórias posteriores. O mesmo pode ser dito de Sinestro, cuja presença aqui é mais de dar explicações a Hal ou John sobre a natureza dos Guardiões, dos Caçadores ou dos anéis. Mesmo com pouco tempo de tela Ulrich Thomsen é ótimo em mostrar a natureza manipuladora de Sinestro, em como ele é bom em ler as pessoas, identificar seus medos e usar isso para conseguir o que deseja, me deixando com vontade de ver mais dele. É curioso, inclusive, como na série o pai de Hal Jordan tem um bigode similar ao de Sinestro, reforçando visualmente como Hal se conectou com seu antigo mentor como uma figura paterna.

Mesmo dando a impressão de que merecia ao menos mais um episódio para nos mostrar John finalmente agindo como Lanterna Verde, a série Lanternas ao menos entrega o que prometeu com um mistério bem construído e um consistente estudo de personagem sustentado principalmente pelos seus dois atores principais.

 

Nota: 8/10


Trailer

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