quinta-feira, 5 de março de 2026

Crítica – A Noiva!

 

Resenha Crítica – A Noiva!

Review – A Noiva!
Dirigido por Maggie Gyllenhaal, A Noiva! é um filme esquisito e digo isso como elogio. Nem tudo que ele tenta fazer funciona e parece ter dificuldade de organizar suas várias ideias em um pacote coeso, no entanto, há algo bastante singular na releitura que a diretora faz da história da “noiva do Frankenstein”.

Casamento sangrento

A narrativa se passa nos Estados Unidos na década de 1930. A criatura de Frankenstein (Christian Bale) vai ao país procurando a doutora Euphronius (Annette Benning), uma cientista proeminente no campo da reanimação. Ele pede ajuda para criar uma companheira e aplacar a solidão que sente há mais de um século. Junto da cientista ele escava um cadáver recém enterrado e reanima sua Noiva (Jessie Buckley), ela tem poucas memórias de sua vida pregressa e disputa o controle do seu corpo com o espírito da escritora Mary Shelley (também Jessie Buckley), autora do romance Frankenstein. Juntos Frank e sua Noiva partem para explorar a cidade, mas logo se tornam alvo das pessoas por conta de sua aparência.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Crítica – Embaixo da Luz de Neon

 

Análise Crítica – Embaixo da Luz de Neon

Como lidar com a perspectiva de morte iminente? O que fazer quando sabemos que temos pouco tempo neste mundo e como nos preparamos para esse fim? Não são perguntas fáceis, mas é com elas que o documentário Embaixo da Luz de Neon tenta dialogar, produzindo um retrato sensível de alguém que vê o fim se aproximar.

Vida poética 

O documentário acompanha aquele que pode ser o último ano da vida da poeta Andrea Gibson. Três anos antes ela tinha recebido um diagnóstico de câncer de ovário e depois de vários tratamentos a doença insistia em voltar. A essa altura ela já ultrapassou o prognóstico de dois anos de vida e o câncer já se tornou metástase e se espalhou para os ossos. A narrativa acompanha Andrea e a esposa, Megan Falley, em seu cotidiano.

Seria fácil construir tudo como uma narrativa sorumbática sobre a dor e sofrimento de uma paciente oncológica nos altos e baixos dos estágios finais da doença, mas Andrea, Megan e, por consequência, a narrativa não se permitem deixar o desespero tomar conta. Temos os momentos dos resultados dolorosos de exames, dos efeitos colaterais severos de medicação, do desalento no qual Andrea questiona a própria existência.

Em meio a toda essa dor, no entanto, o casal encontra momentos de felicidade, seja durante um breve recuo do câncer, seja em um jantar com amigas ou em momentos de cumplicidade nas quais as duas deitam no chão da casa ao lado dos animais de estimação e trocam confissões de mãos dadas.

Enquanto elas conversam, a montagem transita entre várias imagens de arquivo do passado recente de Andrea desde que recebeu o diagnóstico e também de momentos anteriores de sua vida. O recurso soa como um esforço de nos deixar imersos no fluxo de pensamento da personagem, ilustrando seus sentimentos, memórias e relação com o mundo, principalmente nas cenas em que ela declama suas poesias. As falas de Andrea lidam com a angústia do fim, mas celebram uma vida bem vivida, na qual ela conseguiu viver fazendo o que ama, encontrou uma companheira e se depara com seus possíveis momentos finais cercada de afeto. Uma ponderação de como a finitude da nossa existência é o que torna belo cada um dos momentos de amor ou felicidade que experimentamos, mesmo aqueles que parecem pequenos no grande esquema das coisas.

Rockstar da poesia

O documentário também analisa a trajetória artística de Andrea e como ela se tornou relevante no meio da poesia, em especial por sua apresentações de poesia falada. Explorando como a arte feita por ela se conecta com seus sentimentos, acompanhamos algumas apresentações que revelam a intensidade com a qual ela declama suas palavras e a força de suas apresentações, que movem o público de uma maneira que parece mais próxima de uma estrela da música.

Para quem não conhece a obra de Andrea, o filme oferece um bom ponto de entrada para sua obra e analisa seus impactos da arte queer e no meio da poesia como um todo. A cena da apresentação final de Andrea serve como uma celebração de sua vida e arte, uma catarse poderosa a respeito de não perder a força de vontade mesmo quando o fim se aproxima. Seria, inclusive, um bom ponto para encerrar o filme, com a apoteose da artista conseguindo entregar uma performance derradeira depois de meses com a saúde fragilizada. Sim, a cena final de Andrea e Kate conversando enquanto olham o último exame e conversam sobre os pássaros pousados na árvore serve como uma delicada reflexão final do modo como as duas encaram o relacionamento delas e o inexorável fim que acaba se colocar diante delas, mas penso que a performance da poesia funciona melhor como clímax.

Embaixo da Luz de Neon equilibra muito bem o tema delicado que trata, refletindo sobre vida, morte, amor e despedida com muita delicadeza e lirismo.

 

Nota: 9/10


Trailer


terça-feira, 3 de março de 2026

Crítica – Sirât

 

Análise Crítica – Sirât

Review – Sirât
O texto que abre Sirât explica o título. O termo se refere à ponte entre o inferno e o céu, uma ponte que seria fina como um fio de cabelo e afiada como uma navalha. Um desafio extremo para quem busca sair do tormento eterno rumo à salvação. O filme é uma tentativa de construir algo que reflita esse percurso letal, mas não entrega o que promete.

Deserto particular

A narrativa acompanha Luis (Sergi López), um homem de meia idade que viaja junto com o filho pequeno Esteban (Bruno Nuñez Arjona) para uma grande rave no meio do deserto ao sul do Marrocos. Ele procura a filha que desapareceu meses atrás, mas ninguém no local reconhece as fotos que Luis leva consigo. Um grupo avisa a Luis que estão indo dali para outra festa no deserto próximo da Mauritânia e Luis decide acompanhá-los apesar dos avisos que a estrada é perigosa e que o carro dele talvez não seja capaz de atravessar.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Crítica – Kokuho: O Preço da Perfeição

 

Análise Crítica – Kokuho: O Preço da Perfeição

Review – Kokuho: O Preço da Perfeição
Conheço muito pouco sobre o teatro kabuki, forma de encenação tradicional do Japão, então uma das coisas que me atraiu para este Kokuho: O Preço da Perfeição foi ele contar uma história sobre este universo. É um épico dramático que se estende por décadas e analisa os altos e baixos da dedicação de um artista ao seu ofício e a maneira muito particular com a qual o kabuki funciona.

Palco da vida

A narrativa começa no Japão dos anos 60 e é centrada em Kikuo (Ryo Yoshizawa), um jovem filho de um figurão da yakuza. Quando seu pai é assassinado, Kikuo tenta se vingar, mas seu plano falha. Sem ter para onde ir, Kikuo é adotado pelo ator kabuki Hanjiro Hanai (Ken Watanabe). No kabuki apenas homens atuam, isso significa que até papéis femininos são interpretados por homens. Os atores que se dedicam a papéis femininos são chamados de onnagatas e Hanai é um famoso onnagata. Ao adotar Kikuo, Hanai decide treiná-lo para ser um onnagata junto com seu próprio filho, Shunsuke (Ryusei Yokohama). A esposa de Hanai se opõe que ele ensine Kikuo, já que o kabuki é um ofício passado de pai para filho e por ser alguém que não vem de uma linhagem kabuki, Kikuo poderia não ser aceito e isso poderia desonrar até a família de Hanai. Ainda assim, o veterano ator decide preparar Kikuo para o kabuki junto com Shunsuke. Conforme Kikuo demonstra talento e chama a atenção de Hanai, uma rivalidade cresce entre Shunsuke e Kikuo.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Crítica – Arco

 

Análise Crítica – Arco

Review – Arco
Primeiro longa-metragem do diretor francês Ugo Bienvenu, Arco funciona como uma mistura entre E.T: O Extraterrestre (1982) e os filmes do Hayao Miyazaki, somados com uma discussão sobre meio-ambiente e como normalizamos o nosso caos climático.

De volta para o futuro

A narrativa começa no ano 3000. A humanidade vive uma utopia movida a energia solar em casas acima das nuvens. Nessa época, viagem espacial e no tempo também foi dominada com o uso de arco-íris, com incursões no tempo sendo usadas, por exemplo, para recuperar espécimes de plantas extintas. O garoto Arco vive nessa época e morre de vontade de viajar no tempo para ver dinossauros, mas ainda não atingiu a idade permitida. Um dia ele resolve pegar o traje da irmã para viajar no tempo, mas erra o destino indo parar no ano 2075 e perdendo seu cristal de viagem no tempo durante o desastroso pouso. Ele é resgatado pela garota Íris (Arco e Íris, sacaram?), que vive com seu robô babá Mikki e sente saudades dos pais, que trabalham na cidade grande e só aparecem nos finais de semana. Iris tenta ajudar Arco a voltar para casa, mas são perseguidos por um trio de irmãos atrapalhados que há anos tentam desvendar o mistério das “pessoas arco-íris”.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Crítica – Blue Moon: Música e Solidão

 

Análise Crítica – Blue Moon: Música e Solidão

Review – Blue Moon: Música e Solidão
Acho interessante quando cinebiografias resolvem abarcar um período específico do biografado usando esse momento como uma metonímia para sua vida, se bem trabalhado pode funcionar melhor do que tentar abarcar a vida inteira de um indivíduo. Dirigido por Richard Linklater Blue Moon: Música e Solidão vai por esse caminho para falar dos últimos meses do compositor Lorenz Hart, mas reduz tanto seu escopo que acaba prejudicando suas intenções.

Crise criativa

A narrativa começa no dia da estreia do musical Oklahoma! na década de 1940. Lorenz Hart (Ethan Hawke) sai mais cedo do espetáculo e vai para o bar onde será a festa da equipe do musical. Ele tece críticas à produção, mas sabe que será um sucesso, prevendo novas empreitadas para seu parceiro criativo Dick Rodgers (Andrew Scott), que escreveu as músicas de Oklahoma ao lado de Oscar Hammerstein (Simon Delaney). Hart agora teme que Rodgers siga a parceria com Hammerstein e o deixe de lado. Assim, acompanhamos a noite de Hart conforme ele tenta entender o lugar de sua carreira, sua relação com a jovem Elizabeth (Margaret Qualley, de A Substância) e o seu legado musical.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Crítica – Zootopia 2

 

Análise Crítica – Zootopia 2

Review – Zootopia 2
O primeiro Zootopia (2016) era uma animação bacana, mas não era um filme que eu sentia necessidade de uma continuação. Quando esse Zootopia 2 foi anunciado temi que fosse uma sequência caça-níqueis, feita de qualquer jeito para capitalizar em cima do sucesso do anterior. Felizmente não é o que acontece, ainda que de certa forma o filme repita algumas ideias do antecessor.

Mundo animal

Na trama, a posição de Judy e Nick na polícia está ameaçada depois de uma operação que dá errado por conta das ações deles. Mesmo por um fio, Judy continua a investigar uma conspiração para atingir a família Lynxley, que seriam os responsáveis pelas muralhas climáticas que permitem que os animais coexistam em Zootopia. Durante uma festa dada pelos Lynxley para anunciar a expansão de seu território, o local é atacado por uma cobra, Gary, e Judy descobre que os Lynxley guardam segredos sombrios, tentando ajudar Gary. Assim, ela e Nick são colocados como cúmplices do atentado e precisam investigar o que os Lynxley se esforçam tanto para manter em segredo.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Crítica - O Caso dos Estrangeiros

 

Análise Crítica - O Caso dos Estrangeiros

Review - O Caso dos Estrangeiros
Movimentos migratórios são comuns na história da humanidade, mesmo as migrações provocadas por pessoas fugindo de conflitos armados aconteceram com frequência ao longo do século XX. Nas últimas décadas, no entanto, países desenvolvidos vêm restringindo cada vez mais o acesso de refugiados aos seus territórios, com discursos reacionários muitas vezes mirando em imigrantes como o maior problema a ser eliminado. Dirigido e escrito por Brandt Andersen, O Caso dos Estrangeiros tenta tecer um amplo mosaico para entender o que move essas pessoas.

Histórias cruzadas

A trama começa em 2023 com a médica Amira (Yasmine Al Massri da série Quantico) trabalhando em um hospital nos Estados Unidos. Uma ligação telefônica a faz lembrar de eventos ocorridos oito anos antes quando morava em Alepo, na Síria, e trabalhava em um hospital atendendo os vários lados do conflito que envolvia o país. A partir daí o filme se abre para acompanhar outros personagens cuja história se conecta com a de Amira em uma estrutura que lembra aqueles “filmes mosaico” que eram moda no início dos anos 2000 ao estilo de Crash: No Limite (2004).

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Crítica – O Poder e a Lei: Quarta Temporada

 

Análise Crítica – O Poder e a Lei: Quarta Temporada

Review – O Poder e a Lei: Quarta Temporada
Depois de um morno terceiro ano, temi que a quarta temporada de O Poder e a Lei tivesse menos ainda a oferecer. Felizmente esses novos episódios aproveitam bem o gancho deixado no ano anterior e constroem uma trama tensa ao redor dos novos problemas jurídicos do protagonista.

Advogando em causa própria

A temporada começa exatamente no ponto em que a anterior parou, com Mickey Haller (Manuel Garcia Rulfo) sendo detido depois que o corpo de seu cliente, o trambiqueiro Sam (Christopher Thornton), é encontrado no porta-malas do seu carro. Agora Mickey precisa defender a si mesmo no tribunal contra a implacável promotora Dana (Constance Zimmer). Enquanto isso, Lorna (Becki Newton) tenta manter o escritório funcionando, mas a prisão de Mickey afeta a reputação da firma e eles começam a perder clientes.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Crítica – A Voz de Hind Rajab

 

Análise Crítica – A Voz de Hind Rajab

Review – A Voz de Hind Rajab
A situação humanitária da Palestina já tem sido explorada pelo cinema e pela imprensa nos últimos anos. Os ataques de Israel à região tem causado uma grande devastação e feito um número enorme de vítimas civis direta ou indiretamente, incluindo idosos e crianças. Dirigido por Kaouther Ben Hania, A Voz de Hind Rajab olha para um microcosmo desse conflito para mostrar suas consequências aterradoras.

Infância roubada

A narrativa é baseada em fatos reais, acompanhando um grupo de voluntários da organização humanitária Crescente Vermelho, que prestam auxilio humanitário à Palestina. Em janeiro de 2024 eles recebem a ligação de uma menina de cinco anos, Hind Rajab, que está presa dentro de um carro durante a invasão israelense à Faixa de Gaza. A família inteira da garota está morta dentro do carro, ela é a única sobrevivente. Os voluntários Omar (Motaz Malhees) e Rana (Saja Kilani) se mantem na linha com a menina enquanto tentam coordenar um resgate, já colocar uma ambulância para circular em uma zona de guerra ativa não é algo simples.