Dirigido por Maggie Gyllenhaal, A Noiva! é um filme esquisito e digo
isso como elogio. Nem tudo que ele tenta fazer funciona e parece ter
dificuldade de organizar suas várias ideias em um pacote coeso, no entanto, há
algo bastante singular na releitura que a diretora faz da história da “noiva do
Frankenstein”.
Casamento sangrento
A narrativa se passa nos Estados
Unidos na década de 1930. A criatura de Frankenstein (Christian Bale) vai ao
país procurando a doutora Euphronius (Annette Benning), uma cientista
proeminente no campo da reanimação. Ele pede ajuda para criar uma companheira e
aplacar a solidão que sente há mais de um século. Junto da cientista ele escava
um cadáver recém enterrado e reanima sua Noiva (Jessie Buckley), ela tem poucas
memórias de sua vida pregressa e disputa o controle do seu corpo com o espírito
da escritora Mary Shelley (também Jessie Buckley), autora do romance Frankenstein. Juntos Frank e sua Noiva
partem para explorar a cidade, mas logo se tornam alvo das pessoas por conta de
sua aparência.
Como lidar com a perspectiva de
morte iminente? O que fazer quando sabemos que temos pouco tempo neste mundo e
como nos preparamos para esse fim? Não são perguntas fáceis, mas é com elas que
o documentário Embaixo da Luz de Neon
tenta dialogar, produzindo um retrato sensível de alguém que vê o fim se
aproximar.
Vida poética
O documentário acompanha aquele
que pode ser o último ano da vida da poeta Andrea Gibson. Três anos antes ela
tinha recebido um diagnóstico de câncer de ovário e depois de vários
tratamentos a doença insistia em voltar. A essa altura ela já ultrapassou o
prognóstico de dois anos de vida e o câncer já se tornou metástase e se
espalhou para os ossos. A narrativa acompanha Andrea e a esposa, Megan Falley,
em seu cotidiano.
Seria fácil construir tudo como
uma narrativa sorumbática sobre a dor e sofrimento de uma paciente oncológica
nos altos e baixos dos estágios finais da doença, mas Andrea, Megan e, por
consequência, a narrativa não se permitem deixar o desespero tomar conta. Temos
os momentos dos resultados dolorosos de exames, dos efeitos colaterais severos
de medicação, do desalento no qual Andrea questiona a própria existência.
Em meio a toda essa dor, no
entanto, o casal encontra momentos de felicidade, seja durante um breve recuo
do câncer, seja em um jantar com amigas ou em momentos de cumplicidade nas
quais as duas deitam no chão da casa ao lado dos animais de estimação e trocam
confissões de mãos dadas.
Enquanto elas conversam, a
montagem transita entre várias imagens de arquivo do passado recente de Andrea
desde que recebeu o diagnóstico e também de momentos anteriores de sua vida. O
recurso soa como um esforço de nos deixar imersos no fluxo de pensamento da
personagem, ilustrando seus sentimentos, memórias e relação com o mundo,
principalmente nas cenas em que ela declama suas poesias. As falas de Andrea
lidam com a angústia do fim, mas celebram uma vida bem vivida, na qual ela
conseguiu viver fazendo o que ama, encontrou uma companheira e se depara com
seus possíveis momentos finais cercada de afeto. Uma ponderação de como a
finitude da nossa existência é o que torna belo cada um dos momentos de amor ou
felicidade que experimentamos, mesmo aqueles que parecem pequenos no grande
esquema das coisas.
Rockstar da poesia
O documentário também analisa a
trajetória artística de Andrea e como ela se tornou relevante no meio da
poesia, em especial por sua apresentações de poesia falada. Explorando como a
arte feita por ela se conecta com seus sentimentos, acompanhamos algumas
apresentações que revelam a intensidade com a qual ela declama suas palavras e
a força de suas apresentações, que movem o público de uma maneira que parece
mais próxima de uma estrela da música.
Para quem não conhece a obra de
Andrea, o filme oferece um bom ponto de entrada para sua obra e analisa seus
impactos da arte queer e no meio da
poesia como um todo. A cena da apresentação final de Andrea serve como uma
celebração de sua vida e arte, uma catarse poderosa a respeito de não perder a
força de vontade mesmo quando o fim se aproxima. Seria, inclusive, um bom ponto
para encerrar o filme, com a apoteose da artista conseguindo entregar uma
performance derradeira depois de meses com a saúde fragilizada. Sim, a cena
final de Andrea e Kate conversando enquanto olham o último exame e conversam
sobre os pássaros pousados na árvore serve como uma delicada reflexão final do
modo como as duas encaram o relacionamento delas e o inexorável fim que acaba
se colocar diante delas, mas penso que a performance da poesia funciona melhor
como clímax.
Embaixo da Luz de Neon equilibra muito bem o tema delicado que
trata, refletindo sobre vida, morte, amor e despedida com muita delicadeza e
lirismo.
O texto que abre Sirât explica o título. O termo se
refere à ponte entre o inferno e o céu, uma ponte que seria fina como um fio de
cabelo e afiada como uma navalha. Um desafio extremo para quem busca sair do
tormento eterno rumo à salvação. O filme é uma tentativa de construir algo que
reflita esse percurso letal, mas não entrega o que promete.
Deserto particular
A narrativa acompanha Luis (Sergi
López), um homem de meia idade que viaja junto com o filho pequeno Esteban
(Bruno Nuñez Arjona) para uma grande rave no meio do deserto ao sul do
Marrocos. Ele procura a filha que desapareceu meses atrás, mas ninguém no local
reconhece as fotos que Luis leva consigo. Um grupo avisa a Luis que estão indo
dali para outra festa no deserto próximo da Mauritânia e Luis decide
acompanhá-los apesar dos avisos que a estrada é perigosa e que o carro dele
talvez não seja capaz de atravessar.
Conheço muito pouco sobre o
teatro kabuki, forma de encenação tradicional do Japão, então uma das coisas
que me atraiu para este Kokuho: O Preço
da Perfeição foi ele contar uma história sobre este universo. É um épico
dramático que se estende por décadas e analisa os altos e baixos da dedicação
de um artista ao seu ofício e a maneira muito particular com a qual o kabuki
funciona.
Palco da vida
A narrativa começa no Japão dos
anos 60 e é centrada em Kikuo (Ryo Yoshizawa), um jovem filho de um figurão da
yakuza. Quando seu pai é assassinado, Kikuo tenta se vingar, mas seu plano
falha. Sem ter para onde ir, Kikuo é adotado pelo ator kabuki Hanjiro Hanai
(Ken Watanabe). No kabuki apenas homens atuam, isso significa que até papéis
femininos são interpretados por homens. Os atores que se dedicam a papéis
femininos são chamados de onnagatas e Hanai é um famoso onnagata. Ao adotar
Kikuo, Hanai decide treiná-lo para ser um onnagata junto com seu próprio filho,
Shunsuke (Ryusei Yokohama). A esposa de Hanai se opõe que ele ensine Kikuo, já
que o kabuki é um ofício passado de pai para filho e por ser alguém que não vem
de uma linhagem kabuki, Kikuo poderia não ser aceito e isso poderia desonrar
até a família de Hanai. Ainda assim, o veterano ator decide preparar Kikuo para
o kabuki junto com Shunsuke. Conforme Kikuo demonstra talento e chama a atenção
de Hanai, uma rivalidade cresce entre Shunsuke e Kikuo.
Primeiro longa-metragem do
diretor francês Ugo Bienvenu, Arco funciona
como uma mistura entre E.T: O
Extraterrestre (1982) e os filmes do Hayao Miyazaki, somados com uma discussão
sobre meio-ambiente e como normalizamos o nosso caos climático.
De volta para o futuro
A narrativa começa no ano 3000. A
humanidade vive uma utopia movida a energia solar em casas acima das nuvens.
Nessa época, viagem espacial e no tempo também foi dominada com o uso de
arco-íris, com incursões no tempo sendo usadas, por exemplo, para recuperar espécimes
de plantas extintas. O garoto Arco vive nessa época e morre de vontade de
viajar no tempo para ver dinossauros, mas ainda não atingiu a idade permitida.
Um dia ele resolve pegar o traje da irmã para viajar no tempo, mas erra o
destino indo parar no ano 2075 e perdendo seu cristal de viagem no tempo
durante o desastroso pouso. Ele é resgatado pela garota Íris (Arco e Íris,
sacaram?), que vive com seu robô babá Mikki e sente saudades dos pais, que
trabalham na cidade grande e só aparecem nos finais de semana. Iris tenta
ajudar Arco a voltar para casa, mas são perseguidos por um trio de irmãos
atrapalhados que há anos tentam desvendar o mistério das “pessoas arco-íris”.
Acho interessante quando
cinebiografias resolvem abarcar um período específico do biografado usando esse
momento como uma metonímia para sua vida, se bem trabalhado pode funcionar
melhor do que tentar abarcar a vida inteira de um indivíduo. Dirigido por Richard
Linklater Blue Moon: Música e Solidão
vai por esse caminho para falar dos últimos meses do compositor Lorenz Hart,
mas reduz tanto seu escopo que acaba prejudicando suas intenções.
Crise criativa
A narrativa começa no dia da
estreia do musical Oklahoma! na
década de 1940. Lorenz Hart (Ethan Hawke) sai mais cedo do espetáculo e vai
para o bar onde será a festa da equipe do musical. Ele tece críticas à
produção, mas sabe que será um sucesso, prevendo novas empreitadas para seu
parceiro criativo Dick Rodgers (Andrew Scott), que escreveu as músicas de Oklahoma ao lado de Oscar Hammerstein
(Simon Delaney). Hart agora teme que Rodgers siga a parceria com Hammerstein e
o deixe de lado. Assim, acompanhamos a noite de Hart conforme ele tenta
entender o lugar de sua carreira, sua relação com a jovem Elizabeth (Margaret
Qualley, de A Substância) e o seu
legado musical.
O primeiro Zootopia(2016) era uma animação bacana, mas não era um filme que
eu sentia necessidade de uma continuação. Quando esse Zootopia 2 foi anunciado temi que fosse uma sequência caça-níqueis,
feita de qualquer jeito para capitalizar em cima do sucesso do anterior.
Felizmente não é o que acontece, ainda que de certa forma o filme repita
algumas ideias do antecessor.
Mundo animal
Na trama, a posição de Judy e
Nick na polícia está ameaçada depois de uma operação que dá errado por conta
das ações deles. Mesmo por um fio, Judy continua a investigar uma conspiração
para atingir a família Lynxley, que seriam os responsáveis pelas muralhas
climáticas que permitem que os animais coexistam em Zootopia. Durante uma festa
dada pelos Lynxley para anunciar a expansão de seu território, o local é
atacado por uma cobra, Gary, e Judy descobre que os Lynxley guardam segredos
sombrios, tentando ajudar Gary. Assim, ela e Nick são colocados como cúmplices
do atentado e precisam investigar o que os Lynxley se esforçam tanto para
manter em segredo.
Movimentos migratórios são comuns
na história da humanidade, mesmo as migrações provocadas por pessoas fugindo de
conflitos armados aconteceram com frequência ao longo do século XX. Nas últimas
décadas, no entanto, países desenvolvidos vêm restringindo cada vez mais o
acesso de refugiados aos seus territórios, com discursos reacionários muitas
vezes mirando em imigrantes como o maior problema a ser eliminado. Dirigido e
escrito por Brandt Andersen, O Caso dos
Estrangeiros tenta tecer um amplo mosaico para entender o que move essas
pessoas.
Histórias cruzadas
A trama começa em 2023 com a
médica Amira (Yasmine Al Massri da série Quantico)
trabalhando em um hospital nos Estados Unidos. Uma ligação telefônica a faz
lembrar de eventos ocorridos oito anos antes quando morava em Alepo, na Síria,
e trabalhava em um hospital atendendo os vários lados do conflito que envolvia
o país. A partir daí o filme se abre para acompanhar outros personagens cuja
história se conecta com a de Amira em uma estrutura que lembra aqueles “filmes
mosaico” que eram moda no início dos anos 2000 ao estilo de Crash: No Limite (2004).
Depois de um morno terceiro ano,
temi que a quarta temporada de O Poder e
a Lei tivesse menos ainda a oferecer. Felizmente esses novos episódios
aproveitam bem o gancho deixado no ano anterior e constroem uma trama tensa ao
redor dos novos problemas jurídicos do protagonista.
Advogando em causa própria
A temporada começa exatamente no
ponto em que a anterior parou, com Mickey Haller (Manuel Garcia Rulfo) sendo detido
depois que o corpo de seu cliente, o trambiqueiro Sam (Christopher Thornton), é
encontrado no porta-malas do seu carro. Agora Mickey precisa defender a si
mesmo no tribunal contra a implacável promotora Dana (Constance Zimmer).
Enquanto isso, Lorna (Becki Newton) tenta manter o escritório funcionando, mas
a prisão de Mickey afeta a reputação da firma e eles começam a perder clientes.
A situação humanitária da
Palestina já tem sido explorada pelo cinema e pela imprensa nos últimos anos.
Os ataques de Israel à região tem causado uma grande devastação e feito um
número enorme de vítimas civis direta ou indiretamente, incluindo idosos e
crianças. Dirigido por Kaouther Ben Hania, A
Voz de Hind Rajab olha para um microcosmo desse conflito para mostrar suas consequências
aterradoras.
Infância roubada
A narrativa é baseada em fatos reais,
acompanhando um grupo de voluntários da organização humanitária Crescente Vermelho,
que prestam auxilio humanitário à Palestina. Em janeiro de 2024 eles recebem a
ligação de uma menina de cinco anos, Hind Rajab, que está presa dentro de um carro
durante a invasão israelense à Faixa de Gaza. A família inteira da garota está
morta dentro do carro, ela é a única sobrevivente. Os voluntários Omar (Motaz
Malhees) e Rana (Saja Kilani) se mantem na linha com a menina enquanto tentam
coordenar um resgate, já colocar uma ambulância para circular em uma zona de
guerra ativa não é algo simples.