Falecido em
2025, o cineasta Alagoano Cacá Diegues foi um dos integrantes do Cinema Novo
capitaneado por Glauber Rocha e permaneceu ativo até seus últimos anos.
Dirigido por Lírio Ferreira (de Baile Perfumado) e Karen Harley (de Lixo
Extraordinário), o documentário Para Vigo Me Voy! examina de maneira
afetuosa a trajetória do realizador.
País do carnaval
O filme reconta
a trajetória de Diegues, explicando como ele começou a produzir filmes e as
produções que inspiraram o movimento do Cinema Novo, como os filmes de Nelson
Pereira dos Santos. A produção transita entre imagens do cotidiano de Diegues,
feitas nos seus últimos, incluindo até bastidores da continuação de Deus é
Brasileiro (2003), articulando isso com imagens de arquivo do diretor em
entrevistas e outras situações e com cenas de seus filmes.
Como lidar com a perspectiva de
morte iminente? O que fazer quando sabemos que temos pouco tempo neste mundo e
como nos preparamos para esse fim? Não são perguntas fáceis, mas é com elas que
o documentário Embaixo da Luz de Neon
tenta dialogar, produzindo um retrato sensível de alguém que vê o fim se
aproximar.
Vida poética
O documentário acompanha aquele
que pode ser o último ano da vida da poeta Andrea Gibson. Três anos antes ela
tinha recebido um diagnóstico de câncer de ovário e depois de vários
tratamentos a doença insistia em voltar. A essa altura ela já ultrapassou o
prognóstico de dois anos de vida e o câncer já se tornou metástase e se
espalhou para os ossos. A narrativa acompanha Andrea e a esposa, Megan Falley,
em seu cotidiano.
Seria fácil construir tudo como
uma narrativa sorumbática sobre a dor e sofrimento de uma paciente oncológica
nos altos e baixos dos estágios finais da doença, mas Andrea, Megan e, por
consequência, a narrativa não se permitem deixar o desespero tomar conta. Temos
os momentos dos resultados dolorosos de exames, dos efeitos colaterais severos
de medicação, do desalento no qual Andrea questiona a própria existência.
Em meio a toda essa dor, no
entanto, o casal encontra momentos de felicidade, seja durante um breve recuo
do câncer, seja em um jantar com amigas ou em momentos de cumplicidade nas
quais as duas deitam no chão da casa ao lado dos animais de estimação e trocam
confissões de mãos dadas.
Enquanto elas conversam, a
montagem transita entre várias imagens de arquivo do passado recente de Andrea
desde que recebeu o diagnóstico e também de momentos anteriores de sua vida. O
recurso soa como um esforço de nos deixar imersos no fluxo de pensamento da
personagem, ilustrando seus sentimentos, memórias e relação com o mundo,
principalmente nas cenas em que ela declama suas poesias. As falas de Andrea
lidam com a angústia do fim, mas celebram uma vida bem vivida, na qual ela
conseguiu viver fazendo o que ama, encontrou uma companheira e se depara com
seus possíveis momentos finais cercada de afeto. Uma ponderação de como a
finitude da nossa existência é o que torna belo cada um dos momentos de amor ou
felicidade que experimentamos, mesmo aqueles que parecem pequenos no grande
esquema das coisas.
Rockstar da poesia
O documentário também analisa a
trajetória artística de Andrea e como ela se tornou relevante no meio da
poesia, em especial por sua apresentações de poesia falada. Explorando como a
arte feita por ela se conecta com seus sentimentos, acompanhamos algumas
apresentações que revelam a intensidade com a qual ela declama suas palavras e
a força de suas apresentações, que movem o público de uma maneira que parece
mais próxima de uma estrela da música.
Para quem não conhece a obra de
Andrea, o filme oferece um bom ponto de entrada para sua obra e analisa seus
impactos da arte queer e no meio da
poesia como um todo. A cena da apresentação final de Andrea serve como uma
celebração de sua vida e arte, uma catarse poderosa a respeito de não perder a
força de vontade mesmo quando o fim se aproxima. Seria, inclusive, um bom ponto
para encerrar o filme, com a apoteose da artista conseguindo entregar uma
performance derradeira depois de meses com a saúde fragilizada. Sim, a cena
final de Andrea e Kate conversando enquanto olham o último exame e conversam
sobre os pássaros pousados na árvore serve como uma delicada reflexão final do
modo como as duas encaram o relacionamento delas e o inexorável fim que acaba
se colocar diante delas, mas penso que a performance da poesia funciona melhor
como clímax.
Embaixo da Luz de Neon equilibra muito bem o tema delicado que
trata, refletindo sobre vida, morte, amor e despedida com muita delicadeza e
lirismo.
Realizar um documentário implica
em estar aberto ao que a realidade vai apresentar a você, mesmo que você tenha
feito planos diferentes a respeito do que deseja filmar. Alabama: Presos do Sistema é um exemplo disso. Os diretores Andrew
Jarecki e Charlotte Kaufman foram à mais severa prisão do estado do Alabama nos
Estados Unidos para filmar um avivamento religioso feito por pastores que atuam
no sistema prisional. Chegando lá, no entanto, são abordados por vários presos
que denunciam maus tratos no local e os funcionários do presídio logo encerram
a filmagem e colocam a equipe para fora. Os diretores então passam a investigar
o que acontece no sistema prisional.
Cárcere rígido
O documentário então se
desenvolve através de conversas que os documentaristas tem com presos através de
celulares que os detentos conseguem trazer ilegalmente dentro da prisão e também
de vídeos feitos por esses detentos documentando os maus tratos. A ação à
margem da lei se dá porque as autoridades não permitem que os presos falem com
imprensa ou recebam pessoas, numa prática que não é comum no sistema prisional.
É um documentário de natureza expositiva e, talvez por isso, soe um pouco
cansativo, já que ele nos bombardeia o tempo todo com depoimentos ou dados que
estão sempre nos explicando as coisas, pegando o espectador pela mão sem dar
muito espaço para reflexão.
Um bilionário é morto em sua
cobertura em Mônaco. Ele estava trancado em seu quarto do pânico, mas morreu
asfixiado pela fumaça de um incêndio iniciado por invasores. Parece a premissa
de um mistério escrito por Agatha Christie, mas é o caso real envolvendo a
morte do banqueiro Edmond Safra. Produzido pela Netflix, o documentário Assassinato em Mônaco reconta essa
história e vai um pouco além, ponderando também sobre objetividade no
documentário e o que acontece quando um cineasta se envolve demais com os sujeitos
filmados.
Mistério do quarto fechado
O documentário narra como o
banqueiro Edmond Safra foi morto em sua cobertura em Mônaco e toda a
investigação que se seguiu, com direito a várias teorias conspiratórias e
diferentes suspeitos que iam desde a máfia russa, para quem Safra supostamente
lavava dinheiro, passando pela sua viúva, a brasileira Lily Safra cujo marido
anterior também morrera em condições suspeitas, chegando até o enfermeiro de
Edmond, Ted, que teria inventado a história de invasores no apartamento,
simulado ter sido esfaqueado por eles e iniciado um incêndio para alertar as
autoridades, que demoraram demais a vir.
Produzido pela Netflix, Influencer do Mal: A História de Jodi
Hildebrandt é mais um daqueles documentários true crime para streaming que
segue à risca a cartilha do formato e se sustenta mais pela história tenebrosa
que conta do que pelo modo como conta essa história.
Tratamento de choque
A história começa quando uma
criança é encontrada vagando pelas ruas de uma pequena cidade do estado de
Utah. A criança está visivelmente desnutrida e tem ferimentos nos braços e nas
pernas que denotam que ela estava amarrada. As autoridades descobrem que ela
escapou da casa da influencer Jodi Hildebrandt e que outras crianças estavam
sendo mantidas em cativeiro lá. A investigação acaba por revelar anos de abusos
cometidos por Jodi, maltratando crianças e afastando casais, sob a
justificativa de serem métodos psicoterapêuticos.
De início pensei que esse A Vizinha Perfeita fosse ser mais um
desses documentários true crime que
inundam a Netflix. Não deixa de ser um documentário sobre crime real, no
entanto, ao contrário da maioria dessas produções que usam a ocorrência de um
crime meramente como um veículo para chocar o espectador de maneira
sensacionalista, a produção dirigida Geeta Gandbhir usa esse crime para
refletir a respeito de vários problemas dos Estados Unidos.
Disputa doméstica
A narrativa acompanha como uma
briga entre vizinhos se transformou em tragédia. Durante quase dois anos em um
subúrbio na Flórida a idosa Susan Lorincz entrou em constantes brigas com os
vizinhos por conta das crianças que brincavam na região. Susan sempre reclamava
que as crianças estavam invadindo sua propriedade, mesmo quando elas estavam em
um terreno próximo que não fazia parte de sua casa. A idosa constantemente
atacava as crianças, o que a colocava em atrito com os pais, resultando em
inúmeras chamadas para a polícia de ambos os lados. A disputa escalou até o dia
em que Susan atirou e matou Ajike Owens, uma vizinha negra que foi bater à sua
porta para tirar satisfação depois que Susan teria tomado um tablete de seus
filhos.
Na década de 80 o ator de John
Candy era uma presença constante em comédias hollywoodianas, em especial por
sua parceria com o diretor John Hughes, com quem colaborou em nove filmes.
Candy faleceu em 94 por conta de um infarto, encerrando precocemente uma
carreira que ainda tinha muito potencial. Dirigido por Colin Hanks, o
documentário John Candy: Eu Me Amo é
um tributo e um estudo da vida de Candy.
Gigante gentil
O documentário narra a vida de
Candy desde a juventude, quando perde o pai aos cinco anos, um acontecimento
que marca sua vida. A partir daí, o filme acompanha a sua juventude conforme
ele ganha interesse por atuar, o crescimento de sua carreira e seus últimos
anos de vida. Estruturalmente é um documentário biográfico bem comum, se
valendo de imagens de arquivo e entrevistas para contar sua história. O que
sustenta o filme, a despeito dessas estruturas típicas, é o acesso que o
diretor Colin Hanks tem tanto a material de arquivo quando às pessoas próximas
de John Candy.
Produzido pela Netflix, o
documentário Número Desconhecido:
Catfishing na Escola é um daqueles casos que mostra como a realidade pode
ser mais insólita do que qualquer ficção. É uma produção que segue de maneira
muito acomodada a cartilha de documentários sobre crimes, mas mantem nosso
interesse pelos caminhos inesperados que sua história de cyberbullying toma. Aviso que o texto contem SPOILERS do filme.
Quando um estranho chama
O filme conta a história da
adolescente Lauryn. Quando ela tinha catorze anos começou a receber mensagens
hostis de um número anônimo que diziam para ela terminar com o namorado, Owen,
e com várias ofensas e xingamentos a ela. Owen também passou a receber
mensagens com ofensas e que faziam um duvidar da fidelidade do outro. O bullying virtual se estende por meses,
até que as mães dos dois entram em contato com a escola, que não consegue
descobrir quem é o responsável. A polícia também é contatada e seus esforços em
apontar um culpado também não dão resultado, com a investigação se alongando
por quase dois anos. Mesmo bloqueando o número ou trocando de celular os dois
adolescentes continuam a ser alvo das mensagens, que ficam cada vez mais
agressivas.
Eu lembro que o reality show The Biggest Loser (algo como
O Grande Perdedor em português) teve
uma versão aqui no Brasil chamada Quem
Perde Ganha. Não consegui assistir sequer um episódio inteiro. Apesar de se
colocar como um programa focado em saúde ao colocar pessoas obesas em uma
competição na qual quem perdesse mais peso ao longo de um determinado período
de tempo ganharia um prêmio em dinheiro, o que eu via nas telas era que essas
pessoas eram colocadas em situações vexatórias ou em exercícios pouco adequados
para elas. A minissérie documental Magreza
na TV: A Verdade de The Biggest Loser reforçou minhas impressões ao
explorar os bastidores da versão original do reality nos Estados Unidos, que durou dezessete temporadas entre
2004 e 2016.
Nem ganhar ou perder
Ao longo de três episódios a
série tenta mostrar como o reality se
vendia como um estímulo a uma vida saudável e à perda de peso em um país com
crescentes taxas de obesidade e sedentarismo. A série confronta essa proposta
com a realidade do programa, no qual pessoas obesas eram colocadas diante de
treinadores cujos programas de exercícios físicos eram pouco adequados para
pessoas obesas e sem condicionamento físico, além do fato de que esses
treinadores constantemente humilhavam e criticavam os participantes. Isso,
somado ao fato de que os participantes eram encorajados a comer o mínimo de
calorias possível enquanto mantinham uma rotina diária de várias horas de
exercício mostra como a perda rápida de peso que era exibida pelo programa era
pouco saudável.
Em Democracia em Vertigem (2019) a diretora Petra Costa narra a queda
de Dilma Roussef da presidência com grande vigor arquivístico, mas que se
acomodava em fazer de sua narrativa uma grande bricolagem de vários momentos
chave que foram narrados continuamente no noticiário político brasileiro sem
oferecer muito em termos de uma nova perspectiva ou de uma grande sacada
interpretativa que contribuísse para uma compreensão mais aprofundada dos fatos.
Neste Apocalipse nos Trópicos a
diretora se propõe a fazer um mergulho no ambiente da direita conservadora,
principalmente àquela ligada a igrejas neopentecostais, para melhor entender a ascensão
desse grupo na política brasileira.
Repetição histórica
Digo que o filme propõe esse mergulho
porque ele fica na proposta apenas. A ideia de um debate para tentar
compreender a ascensão da direita evangélica e sua adesão ao bolsonarismo é
logo abandonada para que a diretora basicamente repita os mesmos procedimentos
de Democracia em Vertigem, um
apanhado de imagens de arquivo e outras registradas pela diretora que recapitulam
momentos chave da vida política brasileira que tiveram bastante exposição midiática
nos últimos anos, tudo embalado por uma narração sussurrante, lamuriosa que fala
através de platitudes que explicitam o óbvio das imagens.
Parte do selo Desastre Total da Netflix, que
compreende documentários sobre catástrofes ou eventos controversos, Cruzeiro do Cocô narra um desastre
marítimo ocorrido em 2013 que mobilizou a imprensa dos Estados Unidos.
Viagem de merda
O documentário conta a história
do navio de cruzeiro Carnival Triumph que em 2013 sofreu um incêndio na casa de
máquinas que destruiu os geradores de energia da embarcação e a deixou sem
energia. Como até mesmo a descarga das privadas dependiam de geradores para
funcionar, os passageiros sequer conseguiam usar o banheiro direito. Soma-se
isso a uma demora da empresa que gerenciava o cruzeiro em mandar um reboque
para trazer a embarcação de volta a um porto próximo, temos um grande desastre
que colocou a vida de todos em risco.
Ainda há uma espécie de senso
comum equivocado de que a repressão da ditadura militar brasileira foi algo
focado nos grandes centros urbanos e que quem estava à margem disso foi pouco
afetado. O sucesso de Ainda Estou Aquino
ano passado e certas reações a ele mostrou como esse senso comum ainda está
presente, falhando em entender como a ditadura também afetou populações fora
desses centros urbanos, como as populações indígenas. O documentário Yõg Ãtak: Meu Pai, Kaiowá, conta
exatamente uma dessas histórias de como comunidades indígenas foram impactadas
nesse período.
Diáspora indígena
O filme parte da busca de Sueli
Maxakali (uma das diretoras do filme) e sua irmã Maiza Maxakali, pelo pai
delas, Luiz Kaiowá, de quem foram separadas quando eram pequenas ainda no
período da ditadura militar. A narrativa conta como Luiz foi removido à força
de seu território natal no Mato Grosso do Sul pelo então governo, sendo
transportado por vários estados até chegar ao território dos Tikmũ’ũn (também
chamados de Maxakali) em Minas Gerais, onde conheceu a mãe de Sueli e Maiza.
Depois Luiz sofre um novo deslocamento forçado por parte do governo e perde o
contato com a família que constituiu em Minas Gerais.
O documentário é capaz de
resgatar eventos que não ficaram na memória coletiva, nos abrir a realidades
que não conhecíamos. O Presidente Surdo faz
exatamente isso ao contar a história de uma mobilização estudantil da universidade
Gallaudet na década de oitenta.
O som do silêncio
O filme acompanha eventos
ocorridos em 1988 na Universidade Gallaudet, a primeira universidade dedicada à
educação de pessoas surdas criada nos Estados Unidos ainda no século XIX. Os
estudantes estavam mobilizados pela eleição de um presidente que fosse surdo,
mas quando o conselho gestor da universidade aponta uma presidente que não é
surda e se mostra insensível às demandas e questões do corpo discente, os
estudantes se organizam para exigir mudanças.
Dirigido pelos irmãos Maysles,
nomes chave do movimento do cinema direto dos Estados Unidos, Grey Gardens foi lançado em 1975 e até
hoje permanece como um documentário envolvente tanto pela abordagem
observacional dos Maysles, que pregam por interferir o mínimo possível nas
cenas, e as personalidades pitorescas das duas protagonistas, que parecem
apreciar serem observadas pelas câmeras do documentário. O resultado é uma
enorme sinergia entre quem filma e quem é filmado, tornando difícil não se
deixar absorver pelo que está em tela.
Elite decadente
A trama acompanha a idosa Edith e
sua filha de meia idade Edie. Elas são tia e prima de Jackie Kennedy Onassis,
ex-primeira dama do país. Em 1973 a dupla tomou as manchetes dos jornais depois
que uma série de denúncias e vistorias de órgãos municipais decretou que a
mansão dilapidada em que viviam, chamada de Grey Gardens, estava condenada e
elas seriam removidas do local para que o imóvel fosse demolido. Jackie e irmã
ajudam as parentes da minimamente reformarem a casa e elas são autorizadas a
voltarem a morar no local e esse é o ponto de partida do filme, acompanhando o
cotidiano de mãe e filha nesse imóvel acabado.
O diretor Joel Zito Araújo já
tinha feito resgates importantes da história e cultura afro nas artes em
produções como A Negação do Brasil
(2000), no qual falava sobre a representatividade negra em telenovelas, e Meu Amigo Fela (2019), sobre o músico
Fela Kuti. Neste Brasiliana: O Musical Negro Que Apresentou o Brasil ao Mundo ele faz outro importante resgate ao
narrar a história de uma companhia musical negra que foi criada na década de
1950 e permaneceu ativa por mais de 25 anos.
Visibilidade cultural
A Companhia Brasiliana foi um
grupo de música, dança e teatro afro-brasileiros com o elenco todo formado por
artistas negros que se apresentou em mais de noventa países ao longo de sua
trajetória apresentando um espetáculo baseado na história, cultura e
musicalidade afro-brasileiras. O documentário faz um resgate histórico
importante ao mostrar já que na metade do século XX o Brasil tinha um grupo artístico
focado na cultura negra e que esse grupo teve uma imensa visibilidade
internacional, circulando o mundo e participando de grandes eventos, desde
filmes da Sophia Loren a aberturas de Copa do Mundo.
Dirigido por Sérgio Machado
(responsável por filmes como Cidade Baixa
e A Luta do Século), o
documentário 3 Obás de Xangô analisa
a amizade entre três artistas baianos, a influência deles na cultura do estado
e como eles ajudaram a promover culturas afro brasileiras e a enfrentar o preconceito
contra as religiões de matriz africana.
A invenção da Bahia
A produção narra a amizade entre
o escritor Jorge Amado, o músico Dorival Caymmi e o artista plástico Carybé a
partir da conexão que eles tinham com o terreiro de Mãe Stella de Oxóssi no
qual ocupavam a posição de Obá de Xangô, um título honorífico que reconhecia o
papel deles na visibilidade que davam à cultura afro e o combate ao preconceito.
Estruturalmente é um documentário bem convencional, recorrendo a imagens de
arquivo que mostram as interações entre os três personagens, produções
inspiradas nas obras deles (como as adaptações cinematográficas de Jorge
Amado), além de entrevistas com personalidades contemporâneas, como o ator
Lázaro Ramos ou o escritor Itamar Vieira Junior, que falam da influência dos três
artistas.
Dirigido por Eryk Rocha e
Gabriela Carneiro da Cunha, o documentário A
Queda do Céu se baseia no livro homônimo de Davi Kopenawa e Bruce Albert. O
livro trazia reflexões do xamã yanomami Davi Kopenawa sobre as noções brancas de
progresso e desenvolvimento, narrando também o modo como os xamãs se relacionam
com o mundo espiritual para proteger a natureza e evitar a “queda do céu” que
seria causada pela desarmonia promovida pelos brancos.
Cosmovisão nativa
É um filme focado principalmente
em nos fazer entender a cosmovisão do povo yanomami. Ou seja, como eles veem o
mundo, o funcionamento do universo e o que eles pensam das práticas das pessoas
de fora, supostamente desenvolvidas. A produção inicia com uma longa cena de um
grupo de yanomamis se deslocando por uma trilha em meio a um descampado e dá o
tom para um filme que é, em essência, sobre as movimentações dessa população.
Como eles se movimentam pela região e vivem com a floresta, como tentam se
proteger de ataques externos e como eles se movimentam internamente em seus
rituais xamânicos na busca por revelações sobre o devir e por proteção nos
conflitos com os brancos.
Feito por pessoas tanto da
Palestina quanto de Israel, Sem Chão se
debruça especificamente sobre a situação da região de Masafer Yatta na
Cisjordânia cujas vilas são constantemente destruídas por tropas israelenses
sob a justificativa de que a área é um local de treino para as forças armadas
israelenses.
Terra de ninguém
É um documentário feito sobre e
na urgência da situação, com imagens sendo captadas no momento que as tropas
chegam para remover as pessoas, derrubar as casas com resultados muitas vezes
trágicos de moradores desarmados que protestam a situação sendo baleados pelas
tropas. As imagens, muitas vezes tremidas, muitas vezes distantes ou não
devidamente enquadradas são um reflexo dessa urgência e comunicam sobre as
condições sob as quais o filme foi realizado.
Fui assistir Milton Bituca Nascimento achando que seria um documentário sobre os
bastidores de sua última turnê. Não deixa de ser sobre isso, mas a produção
aproveita o gancho de ser uma turnê de despedida do músico para refletir sobre
seu legado artístico, sobre o que torna Milton um artista tão diferenciado e as
inspirações de sua arte. O resultado é um mergulho mais abrangente e
compreensivo da arte de seu objeto do que se ele se limitasse a apenas
acompanhar bastidores da turnê, ainda que seja um documentário bem típico em
sua estrutura.
Caçador de mim
Narrado por Fernanda Montenegro,
o filme analisa a trajetória do cantor e seu impacto, mostrando como ela
repercute tanto no Brasil quanto no resto do mundo. Há uma qualidade poética no
texto da narração que tenta dar conta da força sensorial e emotiva da força de
Milton, mas o texto é também bastante didático em explicar os aspectos mais
técnicos e musicológicos do que torna sua música tão diferenciada. Nesse sentido,
a narração de Fernanda Montenegro consegue dar a medida da capacidade
expressiva da arte de Milton, de sua complexidade e de fazer a audiência
entender como é feita essa música.
Dirigido por Cao Guimarães, o
documentário Amizade funciona como um
filme-ensaio mesclando imagens de arquivo e narrações para construir um senso
de que acompanhamos o fluxo de consciência do realizador enquanto ele reflete
sobre amizade e conexões afetivas.
Alma que mora em dois corpos
O ponto de partida do filme é a
mudança do diretor para o Uruguai e durante a viagem ele capta imagens de um
dos amigos que o ajuda na mudança. Em seu novo lar ele examina imagens antigas,
registradas em diferentes mídias, para refletir sobre o papel da amizade em sua
vida. A narração do diretor ajuda a dar unidade a esses fragmentos de memória
plasmados em imagem nos mostrando essas cenas de interação entre ele e as
pessoas próximas para refletir como essas conexões e afetos são importantes em
sua vida. Sem a narração essas imagens bastante pessoais e descontextualizadas,
que provavelmente não significariam nada para alguém que não está inserido
nesse círculo de amizade.