Produzido pela Netflix, Influencer do Mal: A História de Jodi Hildebrandt é mais um daqueles documentários true crime para streaming que segue à risca a cartilha do formato e se sustenta mais pela história tenebrosa que conta do que pelo modo como conta essa história.
Tratamento de choque
A história começa quando uma criança é encontrada vagando pelas ruas de uma pequena cidade do estado de Utah. A criança está visivelmente desnutrida e tem ferimentos nos braços e nas pernas que denotam que ela estava amarrada. As autoridades descobrem que ela escapou da casa da influencer Jodi Hildebrandt e que outras crianças estavam sendo mantidas em cativeiro lá. A investigação acaba por revelar anos de abusos cometidos por Jodi, maltratando crianças e afastando casais, sob a justificativa de serem métodos psicoterapêuticos.
Ele tem toda a estrutura que virou clichê em documentários sobre crimes, com imagens de arquivo, entrevistas e encenações, fazendo pouco para desafiar esse formato manjado. O que ele tem de interessante é o caso em si, que funciona como uma espécie de tempestade perfeita de picaretagem digital, já que Jodi mistura em si todo tipo de influencer trambiqueiro. Embora seja uma terapeuta formada, Jodi construiu seus métodos misturando pseudociências, com discursos de coachs de relacionamento e preceitos religiosos ligados a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que é bastante presente no Estado de Utah, aplicados de maneira extremista e deturpada (mesmo em relação ao conservadorismo latente dessa vertente religiosa).
Tudo isso resulta em “terapias” que tratam todas as pessoas, incluindo crianças, como pecadores sujos que precisam passar por atos extremos de “penitência” que culminavam em maus tratos contra crianças, forçar casais a se separarem e outras maluquices. Mesmo depois de ter sua licença de psicóloga suspensa, Jodi continuou trabalhando, se apresentando como “coach” de relacionamentos. É um caso que mostra como é necessário que governos, plataformas e entidades classe regulem bem os serviços anunciados em internet, já que permitir que profissionais ganhem milhões de seguidores em cima de métodos e diagnósticos que sequer são aceitos pelo campo causa, como visto no documentário, dano físico e mental a várias pessoas.
Como o documentário mostra,
alguém como Jodi não chegaria onde estava sem a conivência de várias
instituições, desde as plataformas, passando pela mídia tradicional que começa
a dar a visibilidade e legitimar essas figuras, chegando até a lideranças
mórmons que indicavam o trabalho dela para seus fieis, não entendendo que a
psicologia deve seguir as ciências da saúde, não os preceitos de uma religião.
É um daqueles casos que nos lembra como a internet ainda é uma espécie de terra
de ninguém na qual é fácil prosperar com qualquer trambique.
Nota: 5/10
Trailer


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