quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Crítica – Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria

 

Análise Crítica – Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria

Review – Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria
Dirigido por Mary Bronstein, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria transita entre o horror, a comédia, o drama e o surrealismo para acompanhar a ansiedade constante da maternidade, em especial quando uma mãe tenta lidar com tudo sozinha, cuidando da filha, tendo uma profissão e ainda lidando com os problemas do lar. É um exame angustiante de uma mulher em crise que não dá ao espectador ou a sua protagonista um instante para respirar.

Crise maternal

A narrativa é protagonizada por Linda (Rose Byrne) uma mulher lidando com uma misteriosa doença que acomete a filha, obrigando a garota a usar uma sonda. Ela também se encontra morando em um quarto de hotel, já que o teto de seu apartamento desabou por conta de mofo e de encanamento defeituoso. Ela lida com tudo isso sozinha já que o marido (Christian Slater) é um militar que trabalha longe. Linda trabalha como terapeuta e uma de suas pacientes, a jovem mãe Caroline (Danielle Macdonald), desaparece no meio de uma sessão e deixa seu bebê no consultório. Linda faz terapia para tentar enfrentar todas essas crises, mas sente que seu terapeuta (Conan O’Brien) não dá a mínima para ela.

Rose Byrne se coloca em cena com uma constante expressão cansada de que caminha por uma corda bamba de múltiplas crises fazendo malabarismos para tentar dar conta das demandas que se apresentam a ela. A câmera perscruta a personagem com constantes closes, examinando cada inflexão de voz ou pequena expressão de Linda diante de tudo que acontece. É bem evidente que o filme se interessa mais em como todas as situações afetam sua protagonista do que a respeito dos outros ou das crises em si. Esse uso constante de closes também dá uma impressão de sufocamento, de alguém com pouco espaço em uma realidade cujas paredes se fecham em torno de si.

Apesar de ser parte central da vida de Linda, sua filha mal é vista. Ouvimos sua voz e vislumbramos pequenos pedaços de seu corpo, mas seu rosto ou sua presença integral não é mostrada. A menina representa mais um problema, uma crise que Linda tem que resolver do que um ser humano. O mesmo acontece com o marido, uma voz fantasmagórica ao telefone que fica dando ordens à protagonista a respeito do que ela tem que fazer, mas que não resolve efetivamente nada.

Aos problemas da protagonista se soma o terapeuta, que a ouve com um misto de tédio e impaciência, como se considerasse bobagem tudo que a paciente fala. Confesso que fiquei surpreso com a performance contida de Conan O’Brien no que deve ser o seu primeiro papel dramático. Famoso por um senso de humor aloprado, O’Brien aqui compõe o terapeuta como um sujeito sisudo e fechado, com uma constante expressão de enfado sempre que conversa com Linda. Um profissional que parece trabalhar no piloto automático e não demonstra qualquer empatia pela paciente.

Nó na garganta

Eu entendo que o constante acúmulo de crises ao longo da narrativa é para construir a atmosfera de ansiedade constante na qual Linda vive imersa. Não é para ser uma realidade agradável e o objetivo é, de fato gerar repulsa no espectador. É uma história sobre alguém presa em uma situação da qual deseja escapar desesperadamente, mas não consegue e o espectador é contaminado por esse sentimento. Queremos que o filme acabe, sair da sala de cinema, desligar a tv, fazer tudo parar.

A maneira como tudo é conduzido consegue de fato dar a dimensão do desespero de Linda, o problema é a impressão de que o filme esgota tudo que tem a dizer sobre a personagem e as múltiplas crises em sua vida por volta da metade da projeção e fica andando em círculos repetindo as mesmas coisas ao somar mais e mais crises. Isso faz Linda ser uma personagem que não tem muito a fazer além de reagir a toda maluquice à sua volta, sendo desprovida de qualquer outra característica que não a de alguém sobrevivendo a essas crises. Talvez se a personagem tivesse algum desejo pessoal ou objetivo profissional que essas situações a obrigassem a protelar ou abrir mão a narrativa poderia dar mais camadas em como tudo isso a afeta. Do jeito que está, no entanto, fica a impressão de que o filme poderia ser mais conciso para não soar tão repetitivo.

A imagem final da filha, com o rosto da garota finalmente sendo mostrado ao espectador funciona como um símbolo da mudança de perspectiva de Linda. Mesmo diante de um ataque de pânico, ela agora consegue finalmente enxergar a filha, vê-la como uma pessoa e não como mais um problema abstrato a resolver. É um momento de respiro e de esperança frente a toda tensão do filme, sem, no entanto, resolver magicamente todos os problemas da personagem, reconhecendo o longo caminho que há diante dela.

 

Nota: 7/10


Trailer

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