quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Crítica – A Única Saída

 

Análise Crítica – A Única Saída

Review – A Única Saída
Os filmes do diretor Park Chan-Wook normalmente envolvem atos de vingança ou personagens envolvidos em violência, como o caso de Oldboy (2003). Não é diferente neste A Única Saída, no qual o protagonista, ainda que comece como um sujeito comum e pacato, acabe recorrendo à violência por crer ser a única maneira de lidar com a situação.

Vida de trabalho

A trama é protagonizada por Man-su (Lee Byung-hun), um engenheiro que trabalhou por décadas em uma fábrica de papel. Sua vida parece perfeita até que sua empresa anuncia uma fusão com uma companhia dos Estados Unidos. A primeira decisão dos novos donos é uma onda de demissões e Man-su é um dos demitidos. Tendo trabalhado por praticamente toda vida com papel, ele não sabe fazer outra coisa e não vê futuro. Ele tenta um cargo inferior ao seu em uma companhia menor, no qual trabalharia como subalterno de um ex-funcionário, mas sua entrevista é um desastre. Ele então encontra uma maneira de ficar com a vaga, matando seus competidores. Para isso publica um falso anúncio nos classificados, se passando por uma nova empresa de papel, para receber currículos de potenciais rivais e então obter suas informações.

O que se segue é uma sátira sombria do capitalismo, no qual eliminar a competição é algo levado ao extremo da literalidade pelo protagonista. As estruturas de poder precarizaram o trabalho reduziram o número de cargos para ampliar suas margens de lucros e os trabalhadores que devotaram suas vidas a essas empresas são deixados à míngua sob a justificativa de que era “a única saída” para manter o negócio.

Não que Man-su seja completamente uma vítima. Ele poderia dar uma guinada na carreira, se reinventar, começar de novo, mas ele não quer. Em parte por ver como um retrocesso qualquer cargo que não tenha a mesma remuneração que a dele e parte porque seus mais de vinte anos na mesma empresa não lhe deram muitas outras habilidades. Apesar de estar prestes a perder a hipoteca da ampla casa em que mora, sua família não está exatamente em uma situação de vulnerabilidade social, eles não estão em risco de passar fome, só de perder certos luxos. Nesse sentido, o filme também é uma crítica de como o capitalismo engana o trabalhador a pensar que faz parte de uma elite, quando, na verdade, mesmo que o valor no seu contracheque seja alto ele é um assalariado como qualquer outro e não um patrão ou um rico que faz o capital trabalhar para si ao invés de precisar vender sua força de trabalho. Também reflete o modo como deixamos que nosso trabalho e nosso emprego defina todo nosso senso de identidade.

Capitalismo violento

Nesse sentido a decisão do protagonista em matar os concorrentes é também uma metáfora de como o capitalismo nos faz sentir autorizados a cometer qualquer desumanidade em nome do sucesso ou da prosperidade financeira. Da mesma forma que os estadunidenses não tiveram qualquer peso na consciência em realizar demissões em massa e prejudicar os trabalhadores para aumentar seus lucros, Man-su também vê como algo lógico e pragmático a escolha de matar seus concorrentes para manter seu padrão de vida. Sua onda homicida é mais uma decorrência lógica do capitalismo do que uma horrenda perversão desse sistema.

Sim, Man-su não é completamente implacável, visto que ele hesita, que ele tenta dissuadir os competidores e isso gera alguns dos momentos mais divertidos e bizarros do filme. Um exemplo é a cena em que ele invade a casa de um rival e discute com ele enquanto música alta toca, ele hesita atirar no concorrente e a esposa do homem surpreende Man-su por trás e o golpeia. Logo os três estão rolando no chão brigando pela arma enquanto uma música alegra toca no último volume. Por mais que seja violenta, é uma briga mais patética e cartunesca do que efetivamente chocante.

Embora demonstre vulnerabilidade, Man-su não deixa de levar a cabo seu plano e o filme caminha com cuidado na corda bamba de tornar compreensível o que o protagonista faz sem defendê-lo completamente. Muito vem do senso de humor e de tragédia com o qual Park Chan-Wook conduz o filme, mas parte disso vem também da performance Lee Byung-hun em trazer as várias camadas do protagonista, um homem dedicado à família, um trabalhador competente, mas um sujeito em crise por ter perdido o emprego e temeroso de perder o status social ou admitir que não é tão especial quanto pensava ser.

Quanto mais ele se entrega à sua onda homicida, mais ele se afasta da família, com a esposa, Miri (Son Ye-jin), tentando servir de voz da razão em relação. Enquanto Man-su vai adentrando na violência, Miri se questiona quais deveriam ser as prioridades da família e o que deveriam ou não abrir mão e ela acaba tendo que fazer escolhas difíceis, inclusive em relação às ações do marido. De certa forma, o modo como Man-su aliena a própria família para conseguir o cargo que deseja serve de metáfora para como o capitalismo nos faz abrir mão de valores pessoais e prioridades para chegar no sucesso que é vendido como a coisa mais importante.

A tomada final de Man-su como o único trabalhador em uma fábrica completamente automatizada não é apresentada pelo filme como uma vitória, mas como uma tragédia. Se no início do filme o protagonista falava com os colegas sobre a importância de sindicatos e união de trabalhadores, ao fim ele abre mão dessas convicções para se tornar mais uma engrenagem em uma organização que em breve talvez nem precise dele. Ele conseguiu uma vitória individual, mas no grande esquema das coisas é uma derrota coletiva, inclusive pela mentalidade do personagem em acreditar que venceu. O final desvela que a grande tragédia do capitalismo é convencer o trabalhador que seus colegas são seus adversários e não aqueles que controlam a produção. Enquanto os trabalhadores brigam entre si, quem está no topo consegue precarizar ainda mais a força de trabalho e temos pessoas cada vez mais desesperadas para aceitarem empregos piores e sob piores condições.


Nota: 9/10


Trailer

Nenhum comentário: