Hawkins sitiada
A narrativa retorna um ano e meio depois dos eventos da quarta temporada. Com a abertura das fendas, Hawkins foi ocupada por militares que fecharam a cidade e controlam todo o fluxo de entrada e saída. Para a população foi só um evento geológico, mas Mike (Finn Wolfhard), Onze (Millie Bobby Brown) e os demais sabem que é Vecna (Jamie Campbell Bower) que está por trás de tudo. Os militares controlam principalmente uma área com uma grande fenda para o mundo invertido, com a implacável doutora Kay (Linda Hamilton) tendo assumido a pesquisa de Brenner (Matthew Modine). Kay não só tem pesquisado o mundo invertido como também está atrás de Onze, acreditando que a garota ainda está em Hawkins. Assim, o grupo precisa tanto deter Vecna quando se manter longe dos olhos dos militares.
Como há um salto temporal, era de se imaginar que o começo dessa nova temporada gastasse algum tempo para nos situar em tudo que aconteceu e onde estão os personagens agora. O problema é que o volume de exposição é constante ao longo da temporada. O tempo todo os personagens vomitam explicações sobre o que está acontecendo, para onde Vecna pode estar levando as crianças que sequestrou em Hawkins e tudo mais. Quando chegamos no quarto episódio dessa nova temporada, que encerra com Vecna atacando a base do exército e Will (Noah Schnapp) usando sua conexão com Vecna para controlar as criaturas dele e proteger seus amigos imaginei que a temporada fosse finalmente engrenar, mas isso não acontece.
A segunda metade da temporada chega e com ela vem ainda mais exposição, como todo o episódio envolvendo Max (Sadie Sink) e Holly (Nell Fisher) dentro da mente de Vecna ou Dustin (Gaten Matarazzo) convenientemente encontrando o caderno de anotações de Brenner no laboratório do mundo invertido e explicando finalmente o que é aquele lugar. Muito disso vem porque a série nunca explicou muita coisa a respeito de suas facetas mais sci-fi ou sobrenaturais e agora, na temporada final, precisa correr atrás do prejuízo para amarrar tudo que não construiu ao longo de temporadas anteriores.
Além de excessivas, esse fluxo constante de exposição também é prejudicado por revelações que ou falham em dar o contexto da situação ou não soam convincentes. A ideia do mundo invertido ser uma ponte para outros mundos e não uma outra dimensão de fato soa mais como uma tentativa de inserir uma nova reviravolta em relação a esse espaço do que algo que faz sentido com o que foi desenvolvido até aqui. Sim, até entendo que o mundo invertido não seria o lar de todas aquelas criaturas que vimos, isso se sustenta no que a série apresentou, mas não a questão de ser um portal. Se é só uma ponte, porque é do tamanho de uma cidade inteira e porque reproduz os espaços e prédios dessa cidade?
Do mesmo modo, a exploração do passado de Vecna deixa mais perguntas, ao não dar muito contexto para o incidente em que Henry encontra um homem machucado dentro de uma mina. Se esse é o ano final, melhor resolver tudo de uma vez. É o tipo de coisa que parece mais pensado para poder criar mais spin-offs no futuro e continuar capitalizando em cima desse universo do que pensado para contar uma história coesa.
Amigos não mentem
A força da série, no entanto, reside na conexão entre seus personagens e no modo como a narrativa desenvolve as relações entre eles. O que foi construído até aqui dá a série um lastro sólido para nos manter investidos nos personagens e a temporada consegue encontrar bons momentos entre eles em meio ao excesso de exposição. Isso vale tanto para conexões já construídas, como a amizade improvável entre Dustin e Steve (Joe Keery), que lidam ainda com a dor da morte de Eddie (Joseph Quinn), ou na relação entre Hopper (David Harbour) e Onze, que veem o fim chegando e a possibilidade de perderem um ao outro, quanto para relações construídas ao longo da temporada. Nesse caso a mais significativa talvez seja a proximidade entre Robin (Maya Hawke) e Will, já que a garota, confortável com sua sexualidade, acaba servindo como mentora para que Will se compreenda melhor.
Há um cuidado constante em nos mostrar que são essas conexões que carregaram essas pessoas até aqui e fizeram elas sobreviverem a toda maluquice que tiveram que lidar, com a trama conseguindo dar espaço a cada um deles para resolver suas questões. Nancy (Natalia Dyer) e Jonathan (Charlie Heaton), por exemplo, finalmente percebem que são um dos piores casais da história da ficção televisiva e decidem parar de insistir em uma relação que só os deixa infelizes em um momento tocante no qual reconhecem o quanto se gostam, mas que não são certos um pro outro. Até personagens que tiveram pouco espaço até aqui tem momentos para se destacar, como Karen (Cara Buono), mãe de Mike e Holly, que consegue mostrar uma faceta mais feroz ao defender as crianças contra os demogorgons em duas ocasiões, se revelando mais do que uma mera dona de casa entediada com uma possível tendência ao alcoolismo.
Quem não tem essa sorte é Kali (Linnea Berthelsen). Esquecida desde a segunda temporada, quando instantaneamente se tornou uma das personagens mais detestadas da série, Kali é trazida de volta nesse último ano porque a série obviamente precisava amarrar a ponta solta que ela representava. Essa era uma oportunidade de redimir a personagem, de apresentá-la sob outra luz, de vermos outros elementos a respeito dela, de fazê-la minimamente útil, mas não. Kali continua sendo um peso morto aborrecido, cuja impressão é que ela mais atrapalha do que ajuda. Mesmo quando ela faz algo bacana, como aparece na narração final de Mike, é algo que existe enquanto possibilidade e não como fato consumado (pelo menos por enquanto).
O momento em que Will sai do armário para os amigos e recebe o apoio deles é o melhor exemplo do senso genuíno de afeto que a série criou entre seus vários personagens, nos fazendo sentir a conexão e calor humano que une todos eles. Uma cena posterior entre Mike e Will na qual Mike se desculpa por não ter estado mais presente para o amigo e que sempre soube que ele era diferente ajuda a sedimentar a solidez dessas relações. Por outro lado, o envelhecimento dos atores atrapalha um pouco esse desenvolvimento emocional, já que é difícil olhar para esses jovens homens e mulheres, como Schnapp, Wolfhard ou Brown e acreditar que são crianças. Todo o conflito entre Onze e Hopper por ele não deixá-la participar das incursões ao mundo invertido, por exemplo, se dilui por Onze ter a aparência de uma mulher adulta e não de uma garota pedindo para tomar parte em uma guerra. Ainda que Erica (Priah Furguson) roube as cenas em que aparece, é difícil comprar o enquadramento de “irmãzinha espevitada” quando ela é visivelmente não é uma criança. A verdade é que levar quase dez anos para fazer cinco temporadas de uma série protagonizada por crianças que vão obviamente crescer mais que seus personagens prejudicou a série.
Velha infância
O confronto final contra Vecna envolve justamente porque a narrativa conseguiu construir bem o senso de que há algo em jogo para esses personagens e não é apenas uma missão para salvar mundo. Há drama porque eles estão ali sendo confrontados com seus piores medos, com a possibilidade de perderem uns aos outros ou de deixarem de cumprir promessas feitas. Digo isso porque o confronto em si é um pouco decepcionante em relação ao quão fácil eles derrotam Vecna e o Devorador de Mentes. Na terceira temporada, por exemplo, o Devorador de Mentes era uma criatura praticamente irrefreável e aqui ele é derrubado por meia dúzia de pessoas com armas de fogo. Ainda assim, por nossa conexão com tudo que esses personagens passaram não deixa de ser satisfatório quando Joyce (Winona Ryder) desfere o golpe final em Vecna.
Falando em Vecna, é curioso como a série tentou construir todo um mistério ao redor do passado de Henry, tentando de alguma maneira indicar que ele é uma figura trágica ou apenas vítima do que foi feito com ele tanto pelo Devorador de Mentes quanto por Brenner ou por Onze, mas no fim, quando revisitamos sua memória mais traumática, descobrimos que foi tudo escolha dele e que ele é mesmo alguém horrível. Não que eu tenha qualquer problema com vilões irredimíveis ou que eu ache que um vilão precisa ter complexidade moral para ser interessante. Alguns vilões funcionam melhor sendo pessoas horríveis que tem plena consciência disso. A questão aqui é a série tentou construir um caminho para relativizarmos as ações do vilão, conferir a elas alguma complexidade moral ou até para redimi-lo apenas para chegar na reta final e jogar tudo para o alto constatando que ele é mal e pronto.
O epílogo dá um final satisfatório tanto ao grupo de Mike quanto ao grupo de garotos mais velhos composto por Nancy, Steve e os outros. A sessão final de RPG no porão de Mike tem um senso agridoce de “fim da infância” na qual reconhecemos que aqueles personagens nunca mais vão estar juntos daquela maneira, mas tudo que eles fizeram juntos sempre permanecerá com eles. A escolha de deixar dúbio o destino final de Onze, por outro lado, soa como uma maneira de resolver toda a questão da ocupação militar em Hawkins e a continuidade da pesquisa de Brenner sem se comprometer com um destino definitivo demais para a personagem que impedisse futuras produções ou derivados que a explorassem. Mais uma vez, é uma decisão que parece ter sido tomada mais por razões comerciais do que criativas. Inclusive é difícil crer que a doutora Kay simplesmente arrumaria as malas e iria embora ou abandonaria a pesquisa por completo só porque o mundo invertido foi destruído e Onze aparentemente foi junto. Novamente é mais um elemento que é deixado vago para que se faça algum outro conteúdo explicando o que aconteceu nos dois anos entre a derrota de Vecna e o epílogo. Se a temporada não perdesse tanto tempo com exposição excessiva, talvez tivesse conseguido dar conta dessas coisas.
O desfecho poderia ser algo bem definitivo, completo, já que a história dos protagonistas de fato foi bem encerrada, mas o tanto de lacunas deixadas faz tudo parecer um expediente cínico para continuar explorando esse universo ao invés de dar um fim digno. Boas histórias terminam, precisam de um ponto final. Explorar personagens e universos ficcionais continuadamente só dilui sua força.
Por conta disso, a temporada
final de Stranger Things vale a pena
por dar um fim digno aos seus protagonistas, ainda que prejudicada por um
excesso de exposição e por deixar lacunas que fragilizam o senso de completude.
Nota: 6/10
Trailer

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