Escrito por Manuel Puig, o romance O Beijo da Mulher Aranha já tinha sido levado aos cinemas em 1985 no ótimo filme homônimo dirigido por Hector Babenco e estrelado por Raul Julia e William Hurt. O texto foi também levado ao teatro, onde foi adaptado como musical e agora esse musical teatral é levado aos cinemas neste novo O Beijo da Mulher Aranha.
Porões da ditadura
A narrativa se passa em 1983 durante a ditadura militar argentina. Valentin Arregui (Diego Luna, em mais um papel de revolucionário depois de Andor) é um preso político detido por seu envolvimento em movimentos contra a ditadura. Ele vai parar na mesma cela que Luis Molina (Tonatiuh), um homem gay preso por “atos obscenos”. Para lidar com a realidade brutal da prisão, Molina fala sobre os filmes que gosta. Arregui inicialmente se aborrece com a conduta pueril do companheiro de cela, mas logo ele passa a se interessar sobre a narrativa de Molina, usando-a para debater sobre política e como o cinema transmite ideologias. Os dois logo se tornam amigos e tentam sobreviver juntos aos horrores do lugar, principalmente às torturas.
Diego Luna faz de Valentin um sujeito obstinado com sua luta, que tenta não se deixar abalar pelas violências cometidas contra ele porque entende que há algo maior em jogo, mas sua postura taciturna o faz uma pessoa fechada. Molina é um sujeito que sempre viveu a margem e sempre precisou se virar para sobreviver. Suas falas sobre cinema e glamour são um jeito de não confrontar ou de escapar da realidade brutal em que vive sem precisar refletir sobre ela ou fazer qualquer coisa para mudá-la. Tonatiuh confere a ela uma profunda vulnerabilidade de alguém que anseia uma conexão real com outra pessoa, mas que sempre teve que se esconder. No tempo juntos, irão aprender que nenhum de seus ideais ou posturas irá sozinho mantê-los vivos naquele lugar, eles precisam um do outro, precisam de apoio.
O arco dos dois serve como um lembrete de como o autoritarismo ataca as vulnerabilidades das pessoas para fazê-las se sentirem isoladas e acabar com qualquer esperança. Em um contexto tão desolador, o afeto é praticamente um ato de resistência e os laços que unem as pessoas são o que permite que elas continuem lutando. Luna e Tonatiuh desenvolvem muito bem a conexão e o cuidado que se constrói entre os presos e como aos poucos eles vão aprendendo a confiar um no outro. Infelizmente os acertos do filme param aí.
Imaginação musical
As cenas musicais em que Molina e Valentin se imaginam na trama de um filme narrado por Molina tem uma estética muito estilizada e limpa para algo que deveria ser fruto da imaginação desesperada de dois presos cuja mente está no limite. É tudo muito romantizado quando deveria ser mais surrealista, mais estranho, mais como um delírio febril do que um sonho bonitinho. É tudo muito Broadway quando deveria ser mais David Lynch. Isso se aplica principalmente nas cenas envolvendo a Mulher Aranha, que deveriam trazer alguma tensão, mistério e temor, como Hector Babenco e Sonia Braga fizeram muito bem na produção de 85.
Falando na personagem que foi de Braga e aqui é interpretada por Jennifer Lopez, falta Lopez a presença e magnetismo pessoal para convencer como uma diva da era de ouro do melodrama. Lopez também carece da aura de dama fatal nos momentos em que interpreta a Mulher Aranha. Ela se sai bem nos números musicais, mas o problema das canções é que elas não trazem nada que os diálogos normais já não apresentam. É a mesma sensação que tive quando assisti a versão musical de A Cor Púrpura (2023), em que parece que números musicais simplesmente foram acrescentados em cenas ao invés de reconstruir toda a narrativa tendo essas performances como o coração do filme.
Com isso, a transformação do filme em um musical acaba não acrescentando muita força expressiva em relação aos temas e personagens que o filme desenvolve, fazendo as performances soarem dispensáveis. É um resultado bem longe de algo como A Pequena Loja dos Horrores (1986) em que sequer conseguimos imaginar como o filme funcionaria se não fosse um musical.
É uma pena, já que Luna e
Tonatiuh se entregam a seus personagens e dão a exata medida de como eles
sobrevivem pelo laço que constroem juntos, mas todo o resto do filme não está a
altura do trabalho dos dois.
Nota: 5/10
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