Como qualquer país o Japão tem
sua parcela de paradoxos e contradições. Por um lado é um país bastante
avançado tecnologicamente, com uma ética de trabalho admirável. Por outro ainda
é uma sociedade extremamente rígida e apegada a tradições, inclusive em relação
a questões de gênero, sexualidade e relacionamentos. Família de Aluguel explora algumas dessas contradições do país ao
observar dinâmicas de relações familiares.
Performance cotidiana
A narrativa é protagonizada por
Philip (Brendan Fraser), um ator dos Estados Unidos que mora há anos no Japão e
cuja carreira está estagnada. As coisas mudam para ele quando vai trabalhar na
empresa de Shinji (Takehiro Hira, de Monarch: Legado de Monstros) que contrata atores para atuarem como “familiares de
aluguel” para seus clientes. Boa parte desses serviços visa contornar tradições
rígidas da vida familiar japonesa. Uma jovem lésbica contrata Philip para posar
como seu marido para os pais para finalmente poder sair do país e viver com a
namoradas. Maridos adúlteros contratam as atrizes para se passarem por suas
amantes para pedir perdão às esposas sem precisar expor suas amantes reais. Uma
mãe pede a Philip para se passar por seu marido para que sua filha tenha chance
em entrar em uma escola de prestígio, já que uma mãe solteira não seria bem
vista.
Sinto que desde que chamou
atenção com o ótimo Narc (2002), o
diretor Joe Carnahan nunca mais fez algo no mesmo nível, variando entre algumas
coisas divertidas, mas pouco memoráveis, como seu reboot de Esquadrão Classe A (2010),
ou péssimas, como pavoroso Shadow Force: Sentença de Morte (2025). Talvez por conta disso fui assistir esse Dinheiro Suspeito, produzido pela
Netflix, esperando mais um chorume genérico de streaming, no entanto, o resultado é um sólido thriller e o melhor trabalho de Carnahan em muito tempo.
A cor do dinheiro
A narrativa é levemente baseada
na história real de agentes de Narcóticos da Flórida que encontraram mais de
vinte milhões de dinheiro de tráfico de drogas guardado em uma casa. Aqui a
trama é protagonizada por Dane (Matt Damon), o segundo no comando de sua
unidade que assume a liderança depois que sua capitã, Jackie (Lina Esco), é
assassinada em uma emboscada ainda não investigada. Dane leva sua unidade a uma
casa nos subúrbios depois de supostamente receber uma denúncia de que o local
guardava dinheiro dos cartéis. Chegando lá, a única habitante é Desi (Sasha
Calle, a Supergirl de Flash) que diz
não saber nada do dinheiro. Investigando o local, descobrem ainda mais dinheiro
do que a denúncia inicial sugeria e logo eles sabem que virarão alvos. Dane
decide seguir o protocolo de contar o dinheiro no local e depois chamar o
comando para vir pegá-los, mas o tempo para contar tanto dinheiro significa
mais tempo para as coisas darem errado, seja em termos dos donos do dinheiro
aparecerem, seja porque os membros da unidade podem se interessar em ficar com
parte do valor.
Biografias de artistas da música
normalmente se debruçam sobre figuras de grande sucesso, que marcaram época e
tiveram canções que ficaram no imaginário da população. O que me chamou atenção
neste Song Sung Blue: Um Sonho a Dois
foi justamente o fato do filme ir na contramão disso ao acompanhar uma dupla de
músicos de modesto sucesso local.
Música em família
A trama se baseia na história
real do casal Mike (Hugh Jackman) e Claire (Kate Hudson) Sardina, duas pessoas
de meia idade que se apaixonam pelo desejo de viver de música e juntos formam
uma banda-tributo a Neil Diamond que faz muito sucesso na cidade de Milwaukee.
A narrativa mostra as vidas difíceis dos dois e como eles se conectam pelo amor
música, com a banda servindo para que eles superem os momentos mais difíceis de
suas vidas.
Depois de uma divertida primeira temporada, Palm Royale entra em sua
segunda temporada investindo ainda mais em seus excessos folhetinescos. Ainda
que seja sustentado pelo ótimo elenco, esse segundo ano acaba sendo um pouco
inferior que o primeiro.
Fundos de família
A narrativa se passa meses depois
do fim da primeira temporada. Maxine (Kristen Wiig) foi colocada em um
manicômio e Linda (Laura Dern) fugiu do país depois de ser considerada a
responsável pelo tiroteio que aconteceu no Palm Royale. Já recuperada, Norma
(Carol Burnett) incentiva Douglas (Josh Lucas) a casar com Mitzi (Kaia Garber)
que está grávida dele para que finalmente possam desbloquear o fundo fiduciário
para um herdeiro da família Dellacorte assim que o bebê nascer. Como os
Dellacorte morreram cedo e sem filhos, nas últimas décadas, com Norma e Douglas
sendo os últimos remanescentes, essa pode ser a única esperança de acessar o
dinheiro. O problema é que no final da temporada descobrimos que Norma não é
quem diz ser, tendo assumido o lugar da verdadeira Norma quando estudou com ela
em um colégio interno na juventude e Maxine busca meios de revelar a fraude de
Norma.
Dirigido por Mary Bronstein, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria
transita entre o horror, a comédia, o drama e o surrealismo para acompanhar a
ansiedade constante da maternidade, em especial quando uma mãe tenta lidar com
tudo sozinha, cuidando da filha, tendo uma profissão e ainda lidando com os
problemas do lar. É um exame angustiante de uma mulher em crise que não dá ao
espectador ou a sua protagonista um instante para respirar.
Crise maternal
A narrativa é protagonizada por
Linda (Rose Byrne) uma mulher lidando com uma misteriosa doença que acomete a
filha, obrigando a garota a usar uma sonda. Ela também se encontra morando em
um quarto de hotel, já que o teto de seu apartamento desabou por conta de mofo
e de encanamento defeituoso. Ela lida com tudo isso sozinha já que o marido
(Christian Slater) é um militar que trabalha longe. Linda trabalha como
terapeuta e uma de suas pacientes, a jovem mãe Caroline (Danielle Macdonald),
desaparece no meio de uma sessão e deixa seu bebê no consultório. Linda faz
terapia para tentar enfrentar todas essas crises, mas sente que seu terapeuta
(Conan O’Brien) não dá a mínima para ela.
Os irmãos Josh e Benny Safdie
dirigiram juntos filmes intensos como Bom Comportamento(2017) e Joias Brutas(2019). Esse ano eles
resolveram trabalhar cada um em um projeto solo, com Benny dirigindo o morno Coração de Lutador e Josh conduzindo
este Marty Supreme, que é bem mais
próximo da energia insana dos filmes da dupla.
Destino na mesa
A narrativa se passa na Nova
Iorque da década de 50 e acompanha Marty (Timothee Chalamet), um jovem que
trabalha na loja de sapatos do tio, mas que sonha em se tornar uma estrela do
ping pong. Ele larga o emprego, roubando dinheiro da loja financiar a viagem já
que tem a certeza que vencerá o campeonato e voltará como um herói com fama e
dinheiro para fazer todos os seus problemas sumirem. Os planos de Marty não dão
certo e ele volta ao país com dívidas e problemas com a lei, ainda assim ele
acredita que se conseguir vencer o próximo torneio, que será no Japão, ele
conseguirá resolver tudo. No percurso ele tenta conseguir patrocínio do
empresário Milton Rockwell (Kevin O’Leary, em um papel que certamente iria para
Bob Hoskins se esse filme fosse feito nos anos 90), mas se envolve com a esposa
dele, a atriz Kay Stone (Gwyneth Paltrow), que é infeliz no relacionamento e
quer voltar a atuar. As coisas se complicam ainda mais quando Rachel (Odessa
A’zion), uma garota com quem Marty se relacionou no passado, aparece grávida
dizendo que o filho é dele.
Escrito por Manuel Puig, o
romance O Beijo da Mulher Aranha já
tinha sido levado aos cinemas em 1985 no ótimo filme homônimo dirigido por Hector Babenco e estrelado por Raul Julia e William Hurt. O texto foi também
levado ao teatro, onde foi adaptado como musical e agora esse musical teatral é
levado aos cinemas neste novo O Beijo da
Mulher Aranha.
Porões da ditadura
A narrativa se passa em 1983
durante a ditadura militar argentina. Valentin Arregui (Diego Luna, em mais um
papel de revolucionário depois de Andor)
é um preso político detido por seu envolvimento em movimentos contra a
ditadura. Ele vai parar na mesma cela que Luis Molina (Tonatiuh), um homem gay
preso por “atos obscenos”. Para lidar com a realidade brutal da prisão, Molina
fala sobre os filmes que gosta. Arregui inicialmente se aborrece com a conduta
pueril do companheiro de cela, mas logo ele passa a se interessar sobre a
narrativa de Molina, usando-a para debater sobre política e como o cinema
transmite ideologias. Os dois logo se tornam amigos e tentam sobreviver juntos
aos horrores do lugar, principalmente às torturas.
Em Predador: A Caçada(2022) e Predador: Assassino de Assassinos (2025) o diretor Dan Trachtenberg parece ter
encontrado a fórmula para fazer os filmes do Predador funcionarem: situar a
trama em um período histórico específico e colocar os yautja para enfrentar
guerreiros de diferentes épocas. Agora com Predador:
Terras Selvagens o diretor tenta sacudir essa fórmula.
Caçada selvagem
A narrativa é protagonizada por
Dek (Dimitrius Schuster-Koloamatangi), um jovem yautja que é considerado fraco
pelo seu clã por ser menor que o padrão da raça. Seu irmão, Kwei (Mike Homik)
tenta treiná-lo para que prove seu valor, mas o pai deles vê o esforço de Kwei
em proteger o irmão como fraqueza e tenta matar os dois. Dek sobrevive e para
provar a força ao pai e conquistar seu dispositivo de camuflagem viaja até um
remoto e perigoso planeta para caçar uma criatura que dezenas de outros
predadores tentaram e falharam. Chegando lá ele encontra a sintética Thia (Elle
Fanning), uma androide a serviço a corporação Weyland-Yutani (sim, a mesma de Alien) que está ali em uma missão para
capturar a mesma criatura. Dek decide ajudar Thia a consertar suas pernas em
troca do conhecimento dela a respeito da fauna e flora hostis do lugar. Agora
os dois precisam enfrentar tanto as criaturas do planeta, quanto as tropas da
Weyland, que veem o yautja como uma ameaça aos planos e Thia como um fracasso a
ser descartado.
Produzido pela Netflix, Influencer do Mal: A História de Jodi
Hildebrandt é mais um daqueles documentários true crime para streaming que
segue à risca a cartilha do formato e se sustenta mais pela história tenebrosa
que conta do que pelo modo como conta essa história.
Tratamento de choque
A história começa quando uma
criança é encontrada vagando pelas ruas de uma pequena cidade do estado de
Utah. A criança está visivelmente desnutrida e tem ferimentos nos braços e nas
pernas que denotam que ela estava amarrada. As autoridades descobrem que ela
escapou da casa da influencer Jodi Hildebrandt e que outras crianças estavam
sendo mantidas em cativeiro lá. A investigação acaba por revelar anos de abusos
cometidos por Jodi, maltratando crianças e afastando casais, sob a
justificativa de serem métodos psicoterapêuticos.
Depois de uma ótima primeira parte, esperava que Wicked: Parte 2
entregasse um clímax tão bacana quanto. Infelizmente isso não acontece, com a
segunda parte falhando em dar a devida dimensão aos eventos que seguem a
rebelião de Elphaba (Cynthia Erivo) contra o Mágico de Oz (Jeff Goldblum).
Magia enganosa
Depois dos eventos da primeira
parte, Elphaba decide enfrentar o Mágico e denunciar suas mentiras para o povo
de Oz. O regime do mágico, no entanto, usa toda sua capacidade de comunicação
para convencer as pessoas que Elphaba quer destruir Oz e é uma inimiga do povo.
Glinda (Ariana Grande) se alia ao Mágico e a Madame Morrible (Michelle Yeoh) já
que eles dão tudo que ela sempre quis. Ainda assim Glinda teme por Elphaba e
deseja resolver o conflito entre ela e o mágico.
Lançado em 1987, O Sobrevivente adaptava o romance O Concorrente de Stephen King em uma
típica farofa oitentista de ação protagonizada por Arnold Schwarzenegger, cheio
de canastrice e frases de efeito. Agora o diretor Edgar Wright (de Em Ritmo de Fugae Noite Passada em Soho) tenta fazer uma adaptação mais próxima à
distopia criada por King e a crítica social que o autor tentava fazer.
Jogos vorazes
A narrativa se passa em um futuro
no qual há um abismo social ainda maior no qual os ricos vivem em bairros
fechados, cheios de segurança, enquanto os mais pobres são abandonados à
própria sorte em periferias sujas. Ben (Glen Powell, de Twisterse Todos Menos Você)
acaba de perder o emprego e a filha está doente. Sem ter como pagar o
tratamento ele tenta se candidatar a uma das várias competições televisivas que
permitem aos mais pobres ganhar algum dinheiro às custas de humilhação ou
perigo. A raiva dele contra o sistema o faz ser selecionado para a principal e
mais mortal das competições. Chamada de “o sobrevivente” é um reality show no
qual os participantes precisam sobreviver por trinta dias sendo caçados pelas
autoridades e vigiados pela população para ganhar um prêmio milionário.
Com intervalos entre temporadas
cada vez maiores e o elenco infantil já tendo crescido para além da idade de
seus personagens. A impressão é que Stranger
Things perdeu parte do fôlego e do que o tornava interessante chegando
nessa temporada final. Esse ano derradeiro até consegue entregar um final que
respeita seus personagens e encerra seus ciclos, mas o caminho até lá não é dos
melhores.
Hawkins sitiada
A narrativa retorna um ano e meio
depois dos eventos da quarta temporada. Com a abertura das fendas, Hawkins foi
ocupada por militares que fecharam a cidade e controlam todo o fluxo de entrada
e saída. Para a população foi só um evento geológico, mas Mike (Finn Wolfhard),
Onze (Millie Bobby Brown) e os demais sabem que é Vecna (Jamie Campbell Bower)
que está por trás de tudo. Os militares controlam principalmente uma área com
uma grande fenda para o mundo invertido, com a implacável doutora Kay (Linda
Hamilton) tendo assumido a pesquisa de Brenner (Matthew Modine). Kay não só tem
pesquisado o mundo invertido como também está atrás de Onze, acreditando que a
garota ainda está em Hawkins. Assim, o grupo precisa tanto deter Vecna quando
se manter longe dos olhos dos militares.
É interessante como nossas
memórias, nossas histórias pessoais e afetos estão muito conectados a objetos,
a lugares. Coisas que quando retornamos a elas nos levam de volta a diferentes
momentos de nossas vidas. Em Valor Sentimental
o diretor Joachim Trier explora como a arte mobiliza essas relações com
espaços, tempos, memórias e afetos.
Histórias que contamos
A narrativa acompanha Nora
(Renate Reinsve, do excelente A Pior Pessoa do Mundo) uma atriz que tem uma relação distante com o pai, o
diretor de cinema Gustav (Stellan Skarsgard). Um dia Gustav procura Nora
dizendo que escreveu para ela o papel de protagonista em seu próximo filme e
que ele será filmado na antiga casa da família em que Gustav cresceu e na qual
criou as filhas. Nora recusa, afirmando que não consegue dialogar com o pai e
Gustav segue para fazer o filme sem ela. Gustav contrata a jovem atriz
estadunidense Rachel (Elle Fanning) para o papel que seria de Nora e consegue
financiamento de uma plataforma de streaming.
Quando Gustav e Rachel vão para a casa da família, o processo de ensaios mexe
tanto com as memórias dele quanto com as das filhas Nora e Agnes (Inga
Ibsdotter Lilleaas).
Nova série de Vince Gilligan,
criador de Breaking Bad, Pluribus estreou cercada de mistério. Só
se sabia que era uma ficção científica e que seria estrelada por Rhea Seehorn,
com quem Gilligan trabalhou em Better Call Saul. O primeiro episódio fazia parecer mais uma trama de invasão
alienígena, mas logo a narrativa se desloca de elementos familiares do gênero
para falar de questões mais contemporâneas. Aviso que o texto contem SPOILERS
da temporada.
Júbilo coletivo
Na série, cientistas encontram
uma mensagem vinda do espaço. A mensagem traz uma sequência de DNA. Eles
sintetizam essa sequência e começam a experimentar em ratos, mas logo um
pesquisador é mordido e sua primeira ação é infectar o maior número de pessoas
possível. Descobrimos que todos os “infectados” se unem em uma espécie de mente
coletiva que vive em plena harmonia, mas alguns humanos se mostram imunes ao
processo. Carol Surka (Rhea Seehorn) é uma entre cerca de uma dúzia de pessoas
ao redor do mundo que é imune à infecção da mente coletiva. O coletivo não
parece inicialmente hostil, disposto a ajudar Carol e conversar com ela, mas a
escritora desconfia deles, principalmente porque no processo de “união” sua
companheira, Helen (Miriam Shor), morre.
De início não me interessei muito
por Um Natal Surreal. Parece mais uma
daquelas comédias natalinas que inundam streamings
sempre que chegam as festas de fim de ano, a única coisa que me atraiu a ele
foi a presença de Michelle Pfeiffer. Infelizmente a estrela não consegue
sozinha carregar uma produção tão sem alma.
Natal materno
A trama parte de uma ideia
interessante. Narrativas de Natal são sempre centradas em figuras masculinas,
nos pais de família, com as mulheres tendo pouco espaço e seu trabalho para
fazer as comemorações familiares sendo invisibilizado. Assim, a narrativa foca
Claire (Michelle Pfeiffer) uma mãe de família que está dobrando os esforços
para as festas já que todos os seus filhos estão vindo para casa. Ela pede que
os filhos façam um vídeo indicando ela para uma competição de mães no programa
de auditório de Zazzy Tims (Eva Longoria), mas eles a ignoram. Quando seus
filhos, Channing (Felicity Jones), Taylor (Chloe Grace Moretz) e Sammy (Dominic
Sessa, de Os Rejeitados) chegam em
casa eles continuam a ignorá-la, esquecendo Claire em casa quando vão em um
passeio em família. Farta de ser menosprezada, ela decide viajar sozinha no
natal.
Depois do bacana Avatar: O Caminho da Água (2022), este Avatar: Fogo e Cinzas dá a impressão de que o diretor James Cameron
está se repetindo. Originalmente esses dois filmes seriam uma história só, mas
Cameron preferiu dividir em dois e é visível que tudo foi pensado junto, já que
esse filme traz os mesmos temas, conflitos e até situações do anterior.
Fogo selvagem
Depois dos eventos do segundo
filme, Jake (Sam Worthington), Neytiri (Zoe Saldana) e o resto da sua família
lidam com a perda do filho. As coisas se complicam quando o suprimento de oxigênio
de Spider (Jack Champion) começam a dar problemas e Jake pensa que talvez seja
melhor que o humano vá morar no esconderijo dos demais humanos que se aliaram
aos Na’vi. Na viagem eles são atacados por saqueadores da tribo do fogo
liderados por Varang (Oona Chaplin) e Spider fica sem oxigênio. Para que ele
não morra, Kiri (Sigourney Weaver) usa sua conexão com Eywa para ajudá-lo e fungos
da floresta se entranham no corpo dele, permitindo que ele respire o ar de
Pandora. Isso torna Spider dos humanos no planeta, já que a autonomia das
máscaras de oxigênio facilitaria a colonização. Para capturar o garoto,
Quaritch (Stephen Lang) forma uma aliança com Varang e ambos se unem para
encontrar o esconderijo de Jake.
Dirigida por Jafar Panahi, a produção
iraniana Foi Apenas um Acidente é uma
reflexão poderosa sobre os impactos da violência e do autoritarismo, ponderando
como essas marcas afetam a vida das pessoas e pequenos eventos podem servir de
gatilhos para traumas antigos. É simultaneamente bem acessível na complexidade
moral e política que tenta discutir, mas denso e duro de acompanhar por conta das
vivências duras que narra.
Memórias do cárcere
A trama começa com uma família
dirigindo à noite, um homem, uma mulher e sua filha pequena. O homem (Ebrahim
Azizi) acidentalmente atropela um cachorro e para em uma oficina para consertar
o carro. O mecânico, Vahid (Vahid Mobasseri), se assusta com a chegada do
homem, reconhecendo o som da prótese que ele tem na perna como o mesmo do carcereiro
que o torturou na prisão anos atrás. Vahid então decide seguir o homem e o
sequestra na rua, levando ao meio do deserto para enterrá-lo vivo e se vingar
do que foi feito com ele. O homem, no entanto, nega ser Eghbal, afirmando que
perdeu a perna cerca de um ano atrás e mostrando a Vahid que suas cicatrizes de
amputação são recentes. Em dúvida, Vahid procura outros companheiros de cárcere
para se certificar de que aquele é mesmo Eghbal antes que possa completar sua
vingança.
Quando foi anunciado, esperei o
pior da série It: Bem-Vindos a Derry.
Era o tipo de projeto que soava como mais um prelúdio caça-níqueis feito para
capitalizar em cima de uma produção conhecida em uma Hollywood cada vez mais
aversa a riscos e nem mesmo a presença de Andy Muschietti, responsável pelos doisIt: A Coisa, no comando da série
me empolgava. Fui conferir a estreia por pura curiosidade e fui imediatamente
fisgado. Claro, a aversão a riscos e explorar o sucesso de um nome conhecido
pode de fato ter sido o gatilho para que o projeto fosse aprovado, mas o
resultado final é muito bom.
Cidade do Medo
A narrativa se passa na Derry da
década de 60. O major Leroy Hanlon (Jovan Adepo) chega na cidade para uma
missão secreta na base militar do local. Lá ele conhece Dick Halloran (Chris
Chalk), um aviador com dons sobrenaturais que aparentemente está ajudando os
militares a encontrar algo nos subterrâneos da cidade. Ao mesmo tempo um grupo
de crianças liderados por Lilly (Clara Stack) tenta investigar a morte de um
garoto local, mas esbarram em Pennywise (Bill Skarsgard) como o responsável
pelo desaparecimento de crianças na cidade. Will (Blake Cameron James), filho
de Leroy eventualmente se juntando ao grupo, conectando os dois núcleos.
O primeiro Entre Facas e Segredos(2019) é um divertido suspense que brincava
com os clichês da era de ouro do romance policial e nos apresentava a um
interessante protagonista no excêntrico detetive Benoit Blanc. O segundo filme,
Glass Onion (2022), dobrou a aposta
na sátira apresentando um mistério que fazia piada em cima dos excessos
barrocos desse tipo de narrativa e como esse encadeamento de reviravoltas
grandiloquentes muitas vezes é feito para parecer mais inteligente do que se é,
dando a impressão de algo complexo quando na verdade é simples, como a “cebola
de vidro” que dá título ao filme. Já este Vivo
ou Morto: Um Mistério Knives Out é o mais sério dos três, ainda que muito
autoconsciente dos clichês com os quais trabalha e faça graça com ele.
Os crimes do padre Jud
A trama acompanha o jovem padre
Jud (Josh O’Connor, de Rivais) que é
enviado para uma paróquia remota chefiada pelo amargo monsenhor Wicks (Josh
Brolin), um sacerdote conservador que tem prazer em constranger os membros da
congregação. Quando Wicks é assassinado durante uma missa, sendo encontrado no
pequeno armário ao lado do altar, as autoridades tem dificuldade de resolver
crime, já que ele estava em um espaço fechado e ninguém tinha acesso a ele.
Nesse momento chega o detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) para ajudar o padre
a resolver o mistério.
A todo o momento em nossas vidas
estamos adequando nosso comportamento ao contexto nos quais nos inserimos,
adotando diferentes posturas nos diferentes espaços. Na prática, construímos
diferentes performances do nosso “eu”. Novo filme de Noah Baumbach, Jay Kelly examina como o nosso senso de
si pode se perder em meio a essas performances constantes.
O cara interpretando um cara
Jay Kelly (George Clooney) é um
bem-sucedido astro do cinema. Ele é famoso, ele é bem reconhecido, mas seu
trabalho já não lhe dá a mesma satisfação de antes. Ele também sente que os
anos dedicados à carreira o afastaram das filhas Jessica (Riley Keough), com
quem tem uma relação conturbada, e a caçula Daisy (Grace Edwards) que está
prestes a sair de casa. A crise de Jay se agrava quando ele reencontra Timothy
(Billy Crudup), um antigo colega de teatro e amigo. O papel que catapultou Jay
ao estrelato veio por acaso, quando ele acompanhou Timothy em um teste e o
diretor ignorou Timothy e se interessou por Jay. No reencontro Timothy ainda
revela um ressentimento por Jay ter obtido um sucesso que acreditava pertencer
a ele. Tudo isso faz Jay repensar seu lugar na indústria e ele abandona o set
do seu mais recente projeto para ir ficar com Grace que viajou para a Europa
com amigas. O agente de Jay, Ron (Adam Sandler), resolve acompanhar o cliente
para que ele não se meta em problemas.
A citação a Sylvia Plath que
inicia o filme deixa evidente que o foco da narrativa é a dificuldade de ser
você mesmo e encarar quem se é quando é muito mais fácil ser outra pessoa
(criando uma performance de si) ou vivendo em fuga de si. Jay, com toda sua
aura de astro, é alguém que passou tantos anos performando uma identidade,
agindo como o grande astro que todos esperam que ele seja, que perdeu de vista
quem ele realmente é por trás de todo esse comportamento construído ao longo de
vários anos.
George Clooney é uma escolha
precisa para interpretar um astro carismático e respeitado, convencendo desde o
início do magnetismo pessoal de Jay e como ele seria capaz de se tornar uma
grande estrela. Além do carisma, Clooney traz ao personagem uma melancolia e
vulnerabilidade que certamente vem de suas próprias experiências em Hollywood e
como o topo pode ser um lugar solitário. Ao lado dele está um eficiente Adam
Sandler que evoca o mesmo tipo de sujeito neurótico e cheio de raiva contida
que costuma interpretar em suas comédias, mas se lá ele normalmente descamba
para a caricatura, aqui o texto e a condução de Baumbach dão ao personagem
elementos para que ele tenha mais camadas. Alguém que é tão devotado ao seu
principal cliente e tão focado em fazer o que ele demanda que as linhas entre o
pessoal e o profissional se borraram e ambos perderam a capacidade de separar
as coisas.
Viagem interior
Ao longo da viagem pela Europa,
Jay rememora a juventude, lembrando os momentos marcantes da carreira, mas
também seus fracassos, em especial a relação distante com Jessica, que ressente
o pai por preferir suas famílias da ficção do que com sua filha real. A dor
dela é sentida principalmente na cena em que ela diz ter se emocionado mais com
pai vendo ele interpretar um pai de família no cinema do que em qualquer uma
das poucas interações reais que teve com ele. A escolha de colocar Jay para
caminhar em meio aos próprios flashbacks,
como se assistisse alguém encenar sua vida e fosse um espectador da própria
história ajuda a comunicar a dissociação que há entre quem ele é de fato e a
sua persona midiática.
Por mais que o texto e o elenco
construa bem o dilema dos personagens, o material não afasta a sensação de que
o drama existencial de Jay nunca soa como uma grande crise que vai trazer
mudanças ou riscos severos para o personagem. Mesmo que ele de fato abandone o
filme e desista de atuar, ele ainda vai ser um milionário com uma vida bastante
confortável, então profissionalmente não há nada em risco. No plano pessoal é a
mesma coisa. Por mais ele tenha sido um pai ausente, não se reconectar com as
filhas nesse momento específico não soa como algo que o fará perdê-las para
sempre, principalmente por ele ter meios e recursos para contatá-las quando bem
entender. Assim, a narrativa nunca consegue transmitir que essa crise é o ponto
de virada irreversível do personagem que o texto tenta nos convencer que é.
Mesmo com essa sensação de que
falta drama, Jay Kelly se sustenta
pelo carisma de George Clooney e pelo modo como pensa sobre a natureza
performática da identidade.