Nem toda premissa narrativa cabe
em todos os formatos. Algumas ideias podem ser expandidas em narrativas longas
enquanto outras talvez fiquem melhor em formatos mais breves. Digo isso porque Cartório das Almas parte de uma
premissa interessante para investigar nossa relação com a morte e finitude da
vida, mas não consegue sustentar tudo ao longo da duração de sua narrativa.
Quem quer viver para sempre?
A trama é protagonizada por Laura
(Gabriela Correa) uma “jovem” de 126 anos em um mundo no qual as pessoas vivem
eternamente. Ela se candidata para trabalhar no cartório das almas, um lugar
onde as pessoas podem pedir para renunciar sua eternidade. Conforme vai
conhecendo as histórias das pessoas que abrem mão da imortalidade, ela
questiona sua própria existência.
Especializado em animações stop motion como Coraline e o Mundo Secreto (2009), o estúdio Laika tem em O Bosque Selvagem seu projeto mais
ambicioso. É um épico de fantasia, com mais de duas horas de duração, minutagem
incomum para um longa em stop motion,
cujas produções normalmente ficam entre oitenta e noventa minutos justamente
por conta do quão trabalhoso é o processo. São ambições altas e o produto final
mais do que corresponde a elas.
Reino escondido
A trama é centrada na garota
Prue, cujos pais a deixam responsável por cuidar do irmão menor, o bebê Mac, em
um dia em que estão ocupados. Os pais de Prue advertem que ela não pode sair de
casa com o bebê, que é muito perigoso e que forças ocultas estão atrás dele. Prue
desconsidera as advertências dos pais, achando que eles só querem assustá-la,
mas ao sair com o irmão eles são atacados por um bando de aves que carrega o
bebê. Ela os persegue em sua bicicleta até uma floresta próxima e se vê em um
reino escondido com humanos e animais falantes preso em um longo ciclo de
guerra entre as várias regiões que compõem o lugar.
A animação Moana: Um Mar de Aventuras(2016) mal fez dez anos agora em 2026,
então qual a necessidade de fazer um remake em live action dele? Não há nada
que tenha envelhecido mal ou que precise de atualização. A impressão é que a
Disney viu que esse tipo de produção estava dando dinheiro (vide os bilhões do live action de Lilo & Stitch) e resolveu fazer uma nova versão dele. O
resultado é um filme tão igual ao original que nunca justifica a própria
existência.
Mar morto
A trama é a mesma da animação
Moana (Catherine Laga’aia) é uma garota que cresce fascinada com o mar, mas é
proibida de seus pais de navegar. Quando uma calamidade atinge sua ilha, ela
decide partir em uma jornada para encontrar o semideus Maui (Dwayne “The Rock”
Johnson) e restaurar coração da deusa Te Fiti.
Fiquei receoso com o anúncio de
um filme solo do Cara-de-Barro. Temi
que o resultado fosse algo do mesmo nível abissal que as produções da Sony com
os vilões do Homem-Aranha a exemplo de Morbius(2022). As primeiras informações e o trailer que dava a entender que a
trama seria similar à origem do vilão na série animada do Batman dos anos 90
faziam as coisas parecerem promissoras, embora ainda assim estivesse com o pé
atrás.
Escorregando na lama
A narrativa se passa dentro da
continuidade estabelecida do atual universo DC nos cinemas, com a versão do
Cara-de-Barro apresentada aqui sendo a mesma que apareceu na série do Comando das Criaturas. O protagonista é
Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um ator em ascensão que acabou de ser indicado
ao Oscar. Ao se envolver com Mia (Joana Ribeiro), a namorada do mafioso Szabo
(David Dencik), Matt é atacado por ele e tem o rosto desfigurado, sendo também
é falsamente acusado de abuso por Mia, destruindo sua reputação junto com sua
aparência. Matt perde tudo e é abandonado pelos amigos e empresários. Ele vê
uma chance de se recuperar ao descobrir uma terapia celular sendo desenvolvida
pela cientista Caitlyn (Naomi Ackie), convencendo ela a usá-lo como cobaia.
Inicialmente a experiência restaura o rosto de Hagen, mas ele logo descobre
efeitos colaterais.
Como chegamos a esse ponto em que
vários países vivem um momento de ascensão da extrema-direita? Não é como se
não houvessem sinais, mas durante muito tempo eles foram ignorados ou não foram
levados a sério como uma verdadeira ameaça. Anniversary:
Mudança Radical pondera exatamente sobre como o fascismo cozinha as pessoas
em banho maria até ser tarde demais.
Divisão familiar
A trama é focada em Ellen (Diane
Lane) uma professora universitária casada com Paul (Kyle Chandler, de Lanternas). No aniversário de 25 anos de
casados, seu filho caçula, Josh (Dylan O’Brien), chega em casa com a nova
namorada Elizabeth (Phoebe Dyvenor). Liz foi aluna de Ellen e nesse período
defendeu ideias fascistas de unir o país ao adotar um sistema de partido único
e ejetando a maioria das garantias democráticas. Ellen fica assustada com
alguém assim estar tão próxima do filho, principalmente por Liz parecer
interessada em usar os contatos de Josh no universo editorial para publicar
suas ideias. O tempo passa e o livro de Liz é publicado, se tornando um sucesso
e ganhando seguidores.
Quando assisti A Queda(2022) não saí pensando que era
algo que merecia uma continuação. Era um suspense tolerável que acertava no
sentimento de tensão e vertigem enquanto acompanhava sua protagonista presa em
uma antiga torre de transmissão. A continuação traz novos protagonistas, mas
falha em apresentar qualquer coisa mais interessante que o primeiro.
Escalada do caos
A trama é centrada em Jax
(Harriet Slater), irmã da influencer
Shiloh (Virginia Gardner) que morreu no primeiro filme. Ela ainda lida com o
luto da irmã e com uma pontada de ressentimento por Shiloh sempre ter
valorizado mais a amizade com Becky (Grace Caroline Curry), a sobrevivente do
filme anterior, do que a relação com a irmã. Quando Jax recebe o carro que era
de Becky, inúmeras pessoas aparecem querendo comprar, mas Jax não quer entregar
o carro para qualquer maluco que seguia a irmã dela e tinha uma relação
parassocial com ela. As coisas mudam quando Jax é procurada por Luce (Arsema
Thomas), colega de faculdade de Shiloh. Elas acham o diário de Shiloh no carro
e veem que ela planejava escalar uma montanha na Tailândia por uma perigosa
trilha que está proibida há anos. Luce propõe então que ela e Jax façam a
expedição para honrar Shiloh, mas as coisas logicamente dão errado e as duas
ficam presas na montanha durante uma tempestade.
Dirigido e estrelado por Ben
Affleck, Sobrevivência é um thriller político que tenta falar de
vários temas ao mesmo tempo e não chega a dar conta de tudo. Não é uma produção
desprovida de méritos, no entanto, também não é algo que consegue satisfazer
por conta de não conseguir acompanhar as ambições que tem para si.
Política de bastidores
A trama segue Mark (Ben Affleck),
candidato a prefeito de Los Angeles. Ele usou quase todo seu dinheiro e ainda
está um pouco atrás nas pesquisas, começando a pensar se vale a pena esgotar
seus recursos para tentar vencer. Sua esposa, Abigail (Kerry Washington), está
distante dele e tem um caso com um professor chamado Ron (Ray Fisher). As
coisas se complicam na noite de Halloween quando Mark recebe uma ligação de seu
filho foi sequestrado, pedindo um resgate de milhões que ele não tem. Seu
coordenador de campanha, Sam (Steve Yeun), lhe coloca em contato Dayle (Gillian
Anderson), uma poderosa figura que opera nos bastidores da política. Ela pode
conseguir o dinheiro e aconselhar Mark, mas cobra um preço alto por isso.
Fui assistir Tubarão de Guerra esperando uma podreira ao estilo “tão ruim que é
bom”. Ultimamente produções desse tipo tem me decepcionado, entregando
porcarias entediantes ao invés de algo trash
divertido, mas felizmente esse aqui conseguiu encontrar o ponto de equilíbrio
em ser ruim o bastante para ser engraçado.
Águas sangrentas
A narrativa se passa durante a
Segunda Guerra Mundial, um grupo de soldados australianos no Oceano Pacífico ficam
à deriva no mar depois que seu navio é destruído em um ataque aéreo japonês.
Eles conseguem improvisar uma balsa com os escombros, mas sem comida, água e
cercados por neblina as chances de sobreviverem são poucas. As coisas pioram
quando eles percebem que um tubarão branco está cercando os destroços.
Um afinador de pianos que usa sua
capacidade auditiva para arrombar cofres é uma ideia tão bacana que me pergunto
porque ninguém pensou em um filme assim antes deste O Afinador. Apesar da premissa envolver roubo, a história é menos
estruturada ao redor de grandes assaltos cheios de tensão ou adrenalina e mais
em um senso de realismo cotidiano.
Escuta atenta
O filme é protagonizado por Niki
(Leo Woodall), um jovem afinador de pianos que trabalha como aprendiz do
veterano Harry (Dustin Hoffman). Niki tem uma hipersensibilidade auditiva,
usando protetores auriculares o tempo todo, mas sua capacidade facilita seu
trabalho como afinador. Um dia, trabalhando no piano de um ricaço, ele vê os
seguranças do local tentando penetrar no cofre. Os suspeitos apenas dizem que
estão movendo os itens do cliente para um lugar mais seguro, mas Niki não
acredita na conversa. Ele, no entanto, decide usar sua audição para abrir o
cofre por se incomodar com o barulho que os ladrões estão fazendo. O líder do
grupo se surpreende com o talento de Niki e deixa seu cartão com ele. Quando
Harry é internado por problemas de saúde e a esposa dele, Marla (Tovah
Feldshuh, de Crazy Ex-Girlfriend),
fica sem ter como pagar as despesas médicas, Niki decide aceitar a oferta dos
ladrões e se torna um arrombador de cofres.
Chama atenção o naturalismo com o
qual tudo é filmado. Não é como se fosse um thriller
explosivo, cheio de momentos planos mirabolantes cuja tensão vem de ver todas
as variáveis do plano dando certo ou não. Aqui há um interesse no cotidiano de
Niki, em entender quem ele é, o que o motiva e mesmo quando ele se envolve com
crimes é tudo bastante pé no chão, com ele acompanhando um grupo de gângsteres
que tem uma empresa de segurança e usam isso para roubar seus clientes. Niki
simplesmente entra, abre os cofres e recebe a parte dele.
A tensão emerge da corrida contra
o tempo, de abrir o cofre e sair antes que os donos da casa voltem e o filme
faz um bom trabalho de criar obstáculos criveis para o progresso do
protagonista. Por conta de sua sensibilidade auditiva, o processo de Niki é
atrapalhado pelos membros da gangue assistindo vídeos no celular, por sons de
animais e até por aviões que sobrevoam um imóvel constantemente. Assim, o filme
dota essas cenas de um senso de urgência sem abrir mão do senso de realismo e
cotidianidade que constrói para a narrativa.
Esse senso de realismo se dá
também através dos diálogos. Muito do passado de Niki ou a relação dele com
Harry e a esposa é mais inferido pelas ações dos personagens do que por
diálogos expositivos com longas explicações. Mesmo quando Niki fala sobre seu
problema auditivo com a namorada, a pianista Ruthie (Havana Rose Liu de Bottoms), ele menciona por alto o que
aconteceu, mais próximo de como alguém contaria no mundo real ao invés de uma
longa e detalhada explicação para alguém com quem começou a se relacionar. É um
filme que confia no espectador para prestar atenção e entender as dinâmicas que
estão em jogo, o que é cada vez mais raro em uma era em que filmes são pensados
para serem assistidos enquanto as pessoas mexem nos celulares e colocam cada
vez mais diálogos explicando a trama ou o que os personagens pensam e sentem.
Como muito da história gira em
torno da capacidade auditiva do protagonista, o som é um elemento proeminente
na produção e é usado para nos colocar em muitos momentos no “ponto de escuta”
de Niki. Como o protagonista passa o tempo todo com protetores auriculares, sua
percepção de ruídos é abafada. A escolha mais óbvia para fazer isso seria
construir uma paisagem sonora em que os sons ao redor soassem diminuídos, mas
manter isso ao longo do filme seria esquisito, prejudicaria a inteligibilidade
dos diálogos e provavelmente faria uma parcela dos espectadores acharem que tem
algo errado com o som do cinema ou de sua tv.
Ao invés disso, o que o filme faz
é exacerbar os sons e ruídos ambientes, colocando-os mais altos do que
realmente são de modo a transmitir como Niki os percebe. Nos momentos em ele
está sem qualquer proteção, o som fica ainda mais alto, cheio de efeitos de
distorção e microfonia para nos dar a sensação de algo estourando os ouvidos do
protagonista. Em outros momentos, quando Niki coloca os protetores maiores, há
um abafamento do áudio para mostrar a diferença entre os diferentes
equipamentos que ele usa.
O clímax tem algumas
coincidências convenientes envolvendo a namorada de Niki e um dos itens que ele
roubou para tentar aumentar os riscos nos quais o protagonista se envolve. Ao
menos consegue entregar um desfecho satisfatório ao encerrar com a ironia do
protagonista ter a audição piorada depois de sofrer um ataque e isso resolver
sua hipersensibilidade auditiva.
Entregando um thriller mais sóbrio, O Afinador tem um trabalho atento na
construção de sua paisagem sonora e no senso de realismo do seu universo
ficcional.
No livro-reportagem No Ar Rarefeito o jornalista Jon
Krakauer narra o que experimentou durante a primeira excursão comercial para
escalar o Monte Evereste, pico culminante do planeta, em 1996 (que já foi
adaptada algumas vezes para cinema e tv em produções como Evereste). Dois grupos de empresas diferentes, cada um liderado por
montanhistas experientes que já tinham escalado o Evereste, tentaram levar
grupos de turistas com diferentes níveis de habilidade em montanhismo para o
cume.
Só o cume interessa
A tentativa acabou em tragédia já
que o grande número de pessoas em um espaço tão difícil de se movimentar,
tornava tudo mais lento, deixando todos mais vulneráveis a intempéries e
imprevistos por conta das janelas de tempo ideal para atacar o cume serem bem
reduzidas. Como se trata de uma expedição comercial, com turistas pagando para
serem levados ao cume, os guias não podem simplesmente dizer que não dá para
escalar e voltar, as pessoas querem receber o que pagaram e ao menos terem a
sensação de que tentaram chegar ao cume, obrigando os guias a fazerem
tentativas de escalar e assumirem riscos que provavelmente não fariam de outro
modo.
Tirando o filme do Superman(2025), a maioria das produções
do novo universo DC até agora tem sido focado em personagens menores ao invés
de trazer os principais heróis que irão eventualmente compor a Liga da Justiça.
A série Lanternas vinha com
expectativas ao focar nos Lanternas Verdes e, pessoalmente, por ser produzida por
Damon Lindelof que entregou a excelente minissérie de Watchmen também na HBO. O resultado é mais uma trama investigativa
do que uma história de super-heróis que funciona pelo cuidado que a série tem construído
seus personagens.
Detetives estelares
A trama compreende dois períodos de
tempo focando no Lanterna Verde Hal Jordan (Kyle Jordan) e em John Stewart
(Aaron Pierre), que está sendo treinado para se tornar um Lanterna Verde.
Durante o treinamento Hal recebe um alerta de que há algo errado em uma pequena
cidade no interior do Nebraska e vai investigar. Lá ele descobre que múltiplos alienígenas
foram assassinados em um tiroteio e que eles estavam na cidade em busca de algo
ou alguém de natureza também alienígena. O primeiro episódio termina com um
salto temporal de dez anos. John retorna ao Nebraska e a pequena cidade está
destruída, ele vai ao encontro da xerife Kerry (Kelly Macdonald) para encontrar
o corpo de Hal Jordan, assassinado com um tiro na cabeça.
Com o sucesso da série Reacher, a Amazon resolveu explorar as
possibilidades de produções derivadas começando com Neagley: Detetive Particular, que acompanha a personagem Frances
Neagley, colega de exército de Reacher, em seu trabalho como investigadora
privada. Pela natureza do trabalho dela ser um pouco diferente das aventuras de
“mendigo justiceiro” do Reacher pensei que a série fosse adotar uma estrutura
de “caso da semana” em que a protagonista atenderia clientes diferentes a cada
episódio similar à série O Rastreador, mas
a série adota uma estrutura similar à de Reachercom uma investigação contínua durante toda a temporada, talvez para não
mexer muito em uma fórmula que vem dando certo.
Seita sinistra
A trama coloca Neagley (Maria
Sten) para investigar a morte de um amigo de infância que se jogou na frente de
um trem. A polícia trata o caso como suicídio ou como acidente, já que o morto
tinha muitas drogas psicotrópicas no corpo. Neagley, no entanto, desconfia
dessa versão e resolve investigar os últimos dias do amigo, descobrindo que ele
estava há meses dentro de uma seita que vivia em uma fazenda remota controlada
por Lawrence Cole (Damon Harriman). Ao tentar investigar a seita, ela é alvo de
um ataque na estrada, mas sobrevive, confirmando o palpite de que a seita
esconde algo. Agora ela e o policial Riley (Greyston Holt) precisam resolver o
caso.
A arte é um produto de seu tempo.
Quando olhamos para um filme feito décadas atrás, por mais que gostemos dele,
provavelmente veremos elementos que mostrem o quanto essa produção é datada e
reflete certos pontos de vista que não bem aceitos como na época em que foram
realizados. O horror slasher,
principalmente aquele feito nas décadas de 70 e 80, com histórias voltadas para
personagens adolescentes e muitas vezes situados em acampamentos de férias ou
cabanas isoladas, não é exceção a essa regra. Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte se propõe a refletir
sobre o slasher apontando os seus
problemas, mas também tentando entender o fascínio que esses filmes exercem
ainda hoje.
Indústria cíclica
A narrativa é protagonizada por
Kris (Hannah Einbinder) uma jovem diretora independente contratada para
produzir um reboot da franquia de
terror Acampamento Miasma. Os executivos do estúdio esperam que ela, uma diretora
preocupada com representatividade, crie uma nova história de origem para o
assassino Little Death (Jack Haven), colocando-o como uma figura trágica e
afastando as acusações de transfobia da franquia original. Kris busca a atriz
Billy Presley (Gillian Anderson) que atuou no filme original e evitou as
continuações, mas o estúdio se opõe a trazer uma atriz sexagenária e não tão
famosa como protagonista do reboot.
A premissa aponta tendências
contemporâneas de Hollywood que recorre a cineastas independentes para tentar
revitalizar franquias cansadas sob a justificativa de renovar o olhar, mas o
que eles querem é apenas usar o nome dessas pessoas para dar algum verniz de
algo mais artístico, mais preocupado com posicionamentos políticos ou sociais,
sem de fato querer transformar nada. No mundo real diretoras como Chloe Zhao ou
Nia DaCosta são cooptadas para grandes franquias como a Marvel (em Eternose As Marvels) justamente para esse fim.
Isso é visível na cena em que
Kris conversa via Zoom com os executivos e produtores, com a preocupação deles
sendo apenas a de “limpar” os preconceitos da franquia sem mexer no resto. A
própria Kris diz isso em uma conversa com Billy, afirmando ter sido contratada
apenas por ser uma jovem e promissora diretora envolvida com questões LGBT para
dar a impressão de que os produtores se preocupam com sensibilidades
contemporâneas enquanto vendem a mesma coisa.
Passado problemático
O filme comenta mais
especificamente sobre as representações feitas pelos filmes slasher e certa tradição conservadora e
de reforçar preconceitos que esses filmes tem. Não é exatamente novidade, a
franquia Pânicojá falava um pouco
sobre como esses filmes punem com mortes sangrentas condutas como fazer sexo ou
usar drogas, além de mirarem em minorias.
Aqui, porém, o foco é em alguns
tipos de representação. Filmes como Acampamento
Sinistro (1983) traziam pessoas trans como assassinos desequilibrados como
se ser trans fosse algo aberrante e um atestado de instabilidade mental ou
conduta dissimulada. Quando Kris e Billy assistem ao Acampamento Miasma
original, elas comentam como a origem de Little Death é tratada em termos
puramente preconceituosos. As cenas de morte também seguem a cartilha da
punição, o assassino mata pessoas que transam ou que usam drogas.
As mortes são filmadas de maneira
propositalmente tosca e exagerada, com chafarizes de sangue jorrando a cada
golpe do assassino e uma física nada realista, como o momento em que Little
Death empala um adolescente com sua lança e depois bate o corpo dele em um
mastro, fazendo sua vítima explodir em mil pedaços. É algo feito não para
aterrorizar ou chocar como esses filmes originalmente faziam, mas para
satirizar o exagero dessas produções e modo virulento que essas mortes
refletiam certos preconceitos e visões conservadoras. O segmento em que Billy e
Kris assistem aos filmes antigos, no entanto, dão a sensação de que o filme se
detém neles mais do que deveria.
Paradoxos do coração
Embora tenha críticas à franquia,
Kris também exibe uma apreciação por esses filmes e tenta entender o que move
sua conexão com eles. Em suas interações com Billy, que florescem em um affair, ela pondera sobre a natureza
erótica desses filmes, da nudez, do tesão adolescente, da excitação de transar
no mato e também na tensão de correr pela vida enquanto perseguida por um
assassino, de estar em meio a uma crise dessas lutando para sobreviver e
extrair prazer disso. As falas da personagem encontram eco nas falas de Billy
sobre perder a virgindade e como ela teve o melhor orgasmo da vida ao imaginar
Little Death se aproximando.
São ideias que me remetem ao
livro A Filosofia do Horror de Noel
Carroll que analisa o porquê de consumirmos histórias de horror. O teórico
analisa como o medo e a repulsa são emoções que guiam o horror, que o prazer do
gênero vem da curiosidade com o anômalo, com o monstruoso e ter essa
curiosidade saciada. A grosso modo, queremos saber como é lidar com algo assim
imponderável, assustador, e o horror permite experimentar essas emoções sem
estarmos realmente em perigo.
A relação com o anômalo, com o
monstruoso que Kris pensa em fazer no seu filme, no entanto, não é o da
rejeição ao anômalo, ao tabu, como era no passado. Isso perpassa tanto no modo
como ela pensa no assassino Little Death como em outros tabus do slasher, em especial o sexo. O prazer, o
orgasmo, o voyeurismo não deveriam ser objetos de punição. Morte e sexo
caminhariam lado a lado em fornecer prazer e catarse. Isso fica evidente
durante o clímax no qual Kris começa a ser perseguida por Little Death e a
criatura começa a matar as pessoas que ela conhece e que passou o resto do
filme julgando silenciosamente, como sua agente ou os executivos de estúdio,
enquanto a montagem corta para imagens de Kris e Billy fazendo sexo enquanto
Little Death se aproxima delas. Há uma catarse em ver os desafetos da personagem
serem mortos enquanto que a proximidade com a morte parece tornar o sexo mais
intenso, como se a lembrança da mortalidade tornasse mais importante nossos
momentos de prazer.
O filme aborda a metalinguagem da
narrativa com um surrealismo similar ao que a diretora Jane Schoenbrun fez em
seu filme anterior, Eu Vi o Brilho da TV(2024).
As fronteiras entre a realidade e o universo subjetivo de Kris são borradas,
durante boa parte do filme não sabemos até que ponto ela está de fato sendo
observada por Little Death ou se é tudo imaginação dela. A fotografia adota uma
iluminação estourada e alterações na paleta de cores para comunicar esses
momentos de descolamento da realidade. A dimensão paralela na qual Little Death
observa nosso mundo, com paredes rosas e enrugadas, lembra um cérebro. É como
se a criatura fosse o nosso subconsciente, os desejos reprimidos de pulsão de
morte e de vida, de matar que detestamos ou como sentimos culpa pelos nossos
prazeres sexuais. Nesse sentido, a trama não apenas critica os preconceitos
carregados por esse tipo de história, mas defende suas qualidades, advogando
que esses filmes tem implicitamente uma dimensão transgressora, de apontar
tabus e prazeres considerados proibidos, defendendo que o gênero precisa
abraçar isso se quiser continuar relevante. O filme pondera que o sexo não
deveria ser punido, mas celebrado.
Eu tenho uma relação de altos e baixos
com o diretor Alejandro Iñarritu. Se por um lado aprecio e energia e a
encenação cuidadosa de produções como Birdman(2015), por outro me incomodo com seus arroubos de autoindulgência que
resultam em produções como Bardo(2023)
que se acham mais espertas do que realmente são. Esse Digger me chamou atenção por tirar Tom Cruise de sua zona de
conforto. Por anos o astro esteve preso em filmes de ação (como Missão Impossível e Jack Reacher) em que repetia a
mesma persona e Digger era uma chance de fazer algo diferente e explorar o
potencial que o ator demonstrara em produções como Magnólia (1999), Colateral (2004)
ou até mesmo em Trovão Tropical (2008).
Senhores do caos
A narrativa é focada em Digger
Rockwell (Tom Cruise) magnata do petróleo que recebe de seus funcionários a
notícia que suas operações na Groelândia causaram a separação de uma geleira
que periga destruir a Europa. Digger notifica o caquético presidente Compson
(John Goodman), mas entre fazer a coisa certa e agarrar uma oportunidade de
maiores lucros, Digger opta por continuar ganhando dinheiro.
Filmes hollywoodianos de dança
normalmente seguem uma estrutura bem similar. Há um grupo de dança, uma
competição ou disputa por uma vaga, uma rivalidade e um interesse amoroso.
Estruturalmente Conforme a Música segue
bem esse formato, mas tenta se diferenciar com ritmos musicais indianos e
números de dança que evocam Bollywood, apelido dado à indústria cinematográfica
da Índia.
Ritmo previsível
A narrativa acompanha duas amigas
que acabaram de entrar na faculdade, Maya (Maitreyi Ramakrishnan, de Eu Nunca...) e Anjali (Priyanka Kedia).
Buscando se enturmar, elas buscam as comunidades de descendentes de indianos
como elas e decidem por entrar para o grupo de dança indiana capitaneado pelo
bonitão Ronak (Ankur Rathee), por quem Anjali logo se encanta. As duas se
destacam no grupo e na hora de escolher a protagonista feminina para o número
da próxima competição há um empate entre Maya e Anjali. Sem contar para o
grupo, Ronak decide desempatar em prol de Anjali por gostar mais dela e ter
problemas com as sugestões criativas de Maya. O grupo ainda precisa pensar em
uma coreografia criativa para tentar derrubar o grupo que vem sendo campeão há
anos liderado por Selena (Neha Anushka).
Triângulos amorosos, bem como
conflitos de classe e etnia são uma constante no cinema. A produção marroquina Por Detrás das Palmeiras mistura drama e
suspense para narrar uma história sobre abismos que separam as pessoas, como
eles podem ser intransponíveis e uma crença do contrário resultar em tragédia.
Relações de poder
A narrativa se passa em
Marrakesh, capital do Marrocos. Mehdi (Driss Ramdi) trabalha com o pai em seu
negócio de construção e está prestando serviço para uma família de franceses
quando conhece Marie (Sara Giraudau), a filha dos donos da propriedade. Marie
parece se interessar por ele, mas Mehdi namora a muçulmana Salma (Nadia
Kounda). Salma se recusa a fazer sexo com Mehdi, dizendo que só podem fazer
isso depois que se casarem. Como Marie demonstra interesse nele, Mehdi vai para
cama com ela. O protagonista tenta terminar o relacionamento com Salma, dizendo
que não consegue mais esperar para terem intimidade, então Salma decide transar
com ele mesmo não estando casados. Ainda assim, Mehdi deixa Salma de lado e
continua a passar tempo com Marie apreciando seu estilo de vida de classe alta
e a possibilidade dela conseguir um emprego para ele na prestigiosa empresa de
um amigo da família. As coisas se complicam quando Salma o procura e diz que
está grávida dele.
Filmar a realidade é estar aberto
para imprevistos e mudar os planos conforme a realidade filmada se transforma e
impacta as vidas dos sujeitos documentados. É isso que acontece em Cartum, cuja premissa inicial era
acompanhar a vida de cinco pessoas do Sudão de diferentes idades e origens para
acompanhar suas vidas e o que pensavam do país. Um golpe militar seguido de uma
guerra civil muda os planos do documentário, já que tanto a equipe quanto os
personagens são deslocados de seus territórios. Fora do Sudão, os realizadores
e personagens comentam sobre como sobreviveram e o que ainda esperam do futuro.
Mediando memórias
O filme gira em torno de cinco
personagens. Os garotos Lokain e Wilson, que vivem de coletar material
reciclável, o servidor público Madji, a vendedora de chá Khadmalla e o ativista
político Jawad. Usando chroma-key, o
filme tenta fazer os sujeitos recriarem suas experiências antes e durante a
guerra, recorrendo também a imagens captadas pelo documentário antes de guerra
eclodir e que são comentadas pelos participantes.
Um bom final muitas vezes nos faz
perdoar algumas falhas do filme pelo impacto que causa ou pelo modo como
recontextualiza muito do que vimos. De certa forma é isso que acontece com Diya, produção de Chade que em muitos
momentos parece não conseguir entregar o que promete, mas redime parte de seus
problemas com sua reviravolta final.
Lei de talião
A narrativa se passa em Jamena,
capital de Chade, país da África central, e é centrada no motorista Dane (Ferdinand
Mbaissané). Um dia Dane acidentalmente atropela uma criança, prestando socorro
e se dispondo a pagar as despesas médicas da criança. Quando o garoto vem a
óbito, Dane é preso por homicídio culposo. A família do menino morto, porém,
evoca a Diya, um código de conduta do local que exige retribuição pelo sangue
derramado, cobrando de Dane cinco milhões de francos como reparação pela morte
do garoto. Se ele conseguir, o crime é considerado reparado e não vai a
julgamento. Com a perspectiva de evitar a cadeia e não se afastar da esposa
grávida ou do filho que está prestes a nascer, Dane inicia uma corrida contra o
tempo para juntar o dinheiro no prazo dado de duas semanas.
O filme analisa os costumes
locais e os problemas em ter uma sociedade na qual a retribuição é cobrada de
maneira implacável. Dane tem que pagar essa dívida de sangue, mas perde seu
emprego e quaisquer outros meios para conseguir dinheiro por conta própria.
Mesmo o auxilio de sua vila, que tenta levantar o dinheiro mais por senso de
dever do que por simpatia ao protagonista, já que muitos falam que ele não se
importa muito com a comunidade, não é suficiente para dar conta do valor pedido
e Dane vai agindo cada vez mais à margem da sociedade de modo a levantar a
quantia.
Como é comum em narrativas sobre
culturas distantes da nossa, há um certo grau de opacidade no modo como o filme
retrata esses costumes e nem tudo será completamente entendido por uma
audiência brasileira por conta disso. Na audiência informal em que o delegado
de polícia apresenta a proposta da Diya para Dane, ele menciona os povos aos
quais a família de Dane e a família da criança morta pertenciam e como,
normalmente, aquela questão seria resolvida por líderes ou anciões desses
povos. São elementos que não são devidamente explicados provavelmente porque a
produção foi mais pensada para uma audiência local, não sendo didática ao
apresentar o funcionamento daquela sociedade embora não chegue a prejudicar o
entendimento dos elementos principais da narrativa.
Coletividade e individualidade
O principal problema, no entanto,
é que apesar de se estruturar como uma corrida contra o relógio, o filme nunca
nos faz sentir a urgência que a premissa evoca. Falta tensão na busca de Dane
e, por isso, muito da trama não tem o peso dramático que deveria porque não
sentimos o devido impacto do tempo de Dane se esgotando e das consequências que
irão se impor ao protagonista. O miolo também tira o filme da discussão sobre
comunidade e os impactos dessa tradição datada sobre um grupo inteiro de
pessoas e foca mais no lado individual entrando nesse terreno mais comum do thriller do sujeito sozinho correndo
contra o tempo para combater injustiças.
É só quando o filme chega perto
do final que a narrativa pega o que parecia se encaminhar para um desfecho
previsível e vira do avesso ao entregar uma reviravolta que muda tudo que
pensávamos saber a respeito do que estava acontecendo. A guinada amplia a
discussão sobre a Diya, mostrando como ela não é apenas um recurso brutal, como
também os modos como se pode abusar dela e como mesmo alguém que seria
beneficiado pela reparação dela, acaba prejudicado, como acontece com a mãe do
garoto atropelado. O que era um conto moral sobre alguém lidando com as
consequências de um erro se torna uma reflexão sobre a necessidade de manter
certos costumes tradicionais.
Se o miolo do filme carece do
devido impacto à corrida contra o relógio imposta ao protagonista, o desfecho
marca pelo modo como reverte nossas expectativas e amplia as camadas de debate
a respeito do costume da Diya.
Esse texto faz parte de nossa
cobertura da Mostra de Cinemas Africanos 2026.
Falsos documentários ou mockumentaries brincam com a ideia de
realidade documental e como muitas vezes recebemos de modo muito acrítico as
imagens que o cinema nos dá, lembrando que mesmo no registro do real há uma
construção dessas imagens e que elas podem ser modificadas ou falseadas. Memória da Princesa Mumbi mescla essa
estética de falso documentário com ficção científica e romance para pensar
nossa relação com as imagens, o cinema e a representação do mundo.
Futuro reverso
A narrativa se passa em 2093. Kuve
(Ibrahim Joseph) viaja ao reino de Umata na costa da África para fazer um
documentário sobre os efeitos de uma guerra ocorrida em 2070 que culminou com o
lugar banindo a tecnologia para tentar resolver a depressão causada pela dependência
tecnológica, se reestruturando em reinos retrofuturistas. Lá ele conhece Mumbi
(Shandra Apondi) e a recruta para ajudar com seu documentário. Mumbi desafia
Kuve a fazer um filme sem usar IA e aos poucos os dois vão se apaixonando, mas
Mumbi está prometida em casamento para um príncipe de um reino vizinho.
Chegando em sua quarta temporada,
Reacher continua sendo uma série
relativamente formulaica embora saiba trabalhar dentro dessas fórmulas. O terceiro ano ao menos tentou apresentar uma estrutura diferente ao colocar o
protagonista para se infiltrar em uma organização criminosa. Esse quarto ano,
por sua vez, retorna ao formato já conhecido de Reacher acidentalmente esbarrar
em uma conspiração criminosa e ser injustamente incriminado.
Nunca chove na Filadélfia
Enquanto viaja pela Filadélfia,
Reacher (Alan Ritchson) encontra uma mulher agitada em um metrô. Ele suspeita
que ela pode ter uma bomba, mas ela revela ter apenas uma arma e quando Reacher
se aproxima a mulher se suicida. Reacher é tratado como suspeito de assassinar
a mulher e levado para uma delegacia na cidade. Agentes da CIA aparecem na
delegacia questionando se a mulher deu um pen drive a Reacher. Se sentindo culpado
por não ter ajudado a mulher e desconfiado de que haja uma conspiração para
encobrir algo, Reacher decide investigar o caso e provar a própria inocência.