É interessante como nossas
memórias, nossas histórias pessoais e afetos estão muito conectados a objetos,
a lugares. Coisas que quando retornamos a elas nos levam de volta a diferentes
momentos de nossas vidas. Em Valor Sentimental
o diretor Joachim Trier explora como a arte mobiliza essas relações com
espaços, tempos, memórias e afetos.
Histórias que contamos
A narrativa acompanha Nora
(Renate Reinsve, do excelente A Pior Pessoa do Mundo) uma atriz que tem uma relação distante com o pai, o
diretor de cinema Gustav (Stellan Skarsgard). Um dia Gustav procura Nora
dizendo que escreveu para ela o papel de protagonista em seu próximo filme e
que ele será filmado na antiga casa da família em que Gustav cresceu e na qual
criou as filhas. Nora recusa, afirmando que não consegue dialogar com o pai e
Gustav segue para fazer o filme sem ela. Gustav contrata a jovem atriz
estadunidense Rachel (Elle Fanning) para o papel que seria de Nora e consegue
financiamento de uma plataforma de streaming.
Quando Gustav e Rachel vão para a casa da família, o processo de ensaios mexe
tanto com as memórias dele quanto com as das filhas Nora e Agnes (Inga
Ibsdotter Lilleaas).
Dirigido pelos irmãos Dardenne, Jovens Mães se beneficia de sua
abordagem naturalista ao acompanhar o cotidiano de cinco garotas que acabaram
de se tornar mães e estão vivendo em um abrigo de mulheres. Há algo de
previsível nas histórias contadas, no entanto, o filme acerta no clima de
realidade vivida e na construção do universo emocional das personagens.
De repente mãe
Jessica (Babette Verbeek) está
prestes a parir, mas busca sua mãe biológica para saber porque ela a deu para
adoção. Ela tem certeza de que não faria o mesmo com sua filha por nascer, mas
age de maneira intempestiva ao perseguir respostas sobre seu passado. Perla (Lucie
Laruelle) espera o namorado e pai de seu recém nascido sair do reformatório,
mas logo vê que ele não tem interesse em construir uma família. Naima (Samia
Hilmi) está de saída do abrigo e parece a mais ajustada do grupo. Julie (Elsa
Houben) lida com seus vícios e tenta recuperar a vida junto com o namorado.
Ariane (Janaina Halloy Fokan) quer dar o seu bebê para adoção, mas Natalie (Christelle
Cornil), sua mãe alcoólatra e abusiva, tenta manipular a garota a deixar a
criança com ela.
Nova série de Vince Gilligan,
criador de Breaking Bad, Pluribus estreou cercada de mistério. Só
se sabia que era uma ficção científica e que seria estrelada por Rhea Seehorn,
com quem Gilligan trabalhou em Better Call Saul. O primeiro episódio fazia parecer mais uma trama de invasão
alienígena, mas logo a narrativa se desloca de elementos familiares do gênero
para falar de questões mais contemporâneas. Aviso que o texto contem SPOILERS
da temporada.
Júbilo coletivo
Na série, cientistas encontram
uma mensagem vinda do espaço. A mensagem traz uma sequência de DNA. Eles
sintetizam essa sequência e começam a experimentar em ratos, mas logo um
pesquisador é mordido e sua primeira ação é infectar o maior número de pessoas
possível. Descobrimos que todos os “infectados” se unem em uma espécie de mente
coletiva que vive em plena harmonia, mas alguns humanos se mostram imunes ao
processo. Carol Surka (Rhea Seehorn) é uma entre cerca de uma dúzia de pessoas
ao redor do mundo que é imune à infecção da mente coletiva. O coletivo não
parece inicialmente hostil, disposto a ajudar Carol e conversar com ela, mas a
escritora desconfia deles, principalmente porque no processo de “união” sua
companheira, Helen (Miriam Shor), morre.
Dirigida por Jafar Panahi, a produção
iraniana Foi Apenas um Acidente é uma
reflexão poderosa sobre os impactos da violência e do autoritarismo, ponderando
como essas marcas afetam a vida das pessoas e pequenos eventos podem servir de
gatilhos para traumas antigos. É simultaneamente bem acessível na complexidade
moral e política que tenta discutir, mas denso e duro de acompanhar por conta das
vivências duras que narra.
Memórias do cárcere
A trama começa com uma família
dirigindo à noite, um homem, uma mulher e sua filha pequena. O homem (Ebrahim
Azizi) acidentalmente atropela um cachorro e para em uma oficina para consertar
o carro. O mecânico, Vahid (Vahid Mobasseri), se assusta com a chegada do
homem, reconhecendo o som da prótese que ele tem na perna como o mesmo do carcereiro
que o torturou na prisão anos atrás. Vahid então decide seguir o homem e o
sequestra na rua, levando ao meio do deserto para enterrá-lo vivo e se vingar
do que foi feito com ele. O homem, no entanto, nega ser Eghbal, afirmando que
perdeu a perna cerca de um ano atrás e mostrando a Vahid que suas cicatrizes de
amputação são recentes. Em dúvida, Vahid procura outros companheiros de cárcere
para se certificar de que aquele é mesmo Eghbal antes que possa completar sua
vingança.
A todo o momento em nossas vidas
estamos adequando nosso comportamento ao contexto nos quais nos inserimos,
adotando diferentes posturas nos diferentes espaços. Na prática, construímos
diferentes performances do nosso “eu”. Novo filme de Noah Baumbach, Jay Kelly examina como o nosso senso de
si pode se perder em meio a essas performances constantes.
O cara interpretando um cara
Jay Kelly (George Clooney) é um
bem-sucedido astro do cinema. Ele é famoso, ele é bem reconhecido, mas seu
trabalho já não lhe dá a mesma satisfação de antes. Ele também sente que os
anos dedicados à carreira o afastaram das filhas Jessica (Riley Keough), com
quem tem uma relação conturbada, e a caçula Daisy (Grace Edwards) que está
prestes a sair de casa. A crise de Jay se agrava quando ele reencontra Timothy
(Billy Crudup), um antigo colega de teatro e amigo. O papel que catapultou Jay
ao estrelato veio por acaso, quando ele acompanhou Timothy em um teste e o
diretor ignorou Timothy e se interessou por Jay. No reencontro Timothy ainda
revela um ressentimento por Jay ter obtido um sucesso que acreditava pertencer
a ele. Tudo isso faz Jay repensar seu lugar na indústria e ele abandona o set
do seu mais recente projeto para ir ficar com Grace que viajou para a Europa
com amigas. O agente de Jay, Ron (Adam Sandler), resolve acompanhar o cliente
para que ele não se meta em problemas.
A citação a Sylvia Plath que
inicia o filme deixa evidente que o foco da narrativa é a dificuldade de ser
você mesmo e encarar quem se é quando é muito mais fácil ser outra pessoa
(criando uma performance de si) ou vivendo em fuga de si. Jay, com toda sua
aura de astro, é alguém que passou tantos anos performando uma identidade,
agindo como o grande astro que todos esperam que ele seja, que perdeu de vista
quem ele realmente é por trás de todo esse comportamento construído ao longo de
vários anos.
George Clooney é uma escolha
precisa para interpretar um astro carismático e respeitado, convencendo desde o
início do magnetismo pessoal de Jay e como ele seria capaz de se tornar uma
grande estrela. Além do carisma, Clooney traz ao personagem uma melancolia e
vulnerabilidade que certamente vem de suas próprias experiências em Hollywood e
como o topo pode ser um lugar solitário. Ao lado dele está um eficiente Adam
Sandler que evoca o mesmo tipo de sujeito neurótico e cheio de raiva contida
que costuma interpretar em suas comédias, mas se lá ele normalmente descamba
para a caricatura, aqui o texto e a condução de Baumbach dão ao personagem
elementos para que ele tenha mais camadas. Alguém que é tão devotado ao seu
principal cliente e tão focado em fazer o que ele demanda que as linhas entre o
pessoal e o profissional se borraram e ambos perderam a capacidade de separar
as coisas.
Viagem interior
Ao longo da viagem pela Europa,
Jay rememora a juventude, lembrando os momentos marcantes da carreira, mas
também seus fracassos, em especial a relação distante com Jessica, que ressente
o pai por preferir suas famílias da ficção do que com sua filha real. A dor
dela é sentida principalmente na cena em que ela diz ter se emocionado mais com
pai vendo ele interpretar um pai de família no cinema do que em qualquer uma
das poucas interações reais que teve com ele. A escolha de colocar Jay para
caminhar em meio aos próprios flashbacks,
como se assistisse alguém encenar sua vida e fosse um espectador da própria
história ajuda a comunicar a dissociação que há entre quem ele é de fato e a
sua persona midiática.
Por mais que o texto e o elenco
construa bem o dilema dos personagens, o material não afasta a sensação de que
o drama existencial de Jay nunca soa como uma grande crise que vai trazer
mudanças ou riscos severos para o personagem. Mesmo que ele de fato abandone o
filme e desista de atuar, ele ainda vai ser um milionário com uma vida bastante
confortável, então profissionalmente não há nada em risco. No plano pessoal é a
mesma coisa. Por mais ele tenha sido um pai ausente, não se reconectar com as
filhas nesse momento específico não soa como algo que o fará perdê-las para
sempre, principalmente por ele ter meios e recursos para contatá-las quando bem
entender. Assim, a narrativa nunca consegue transmitir que essa crise é o ponto
de virada irreversível do personagem que o texto tenta nos convencer que é.
Mesmo com essa sensação de que
falta drama, Jay Kelly se sustenta
pelo carisma de George Clooney e pelo modo como pensa sobre a natureza
performática da identidade.
Baseado em um romance escrito por
Denis Johnson, Sonhos de Trem tem um
quê de Terrence Malick no modo como o diretor Clint Bentley filma o cotidiano
de seu protagonista. Digo isso tanto pelas escolhas estilísticas quanto
narrativas, já que esta também é uma história sobre um sujeito comum vivendo em
graça e plenitude a despeito de uma existência simples e marcada por tragédias,
similar ao que Malick fez em produções como Uma Vida Oculta(2020) ou A Árvore da
Vida (2011).
Vida natural
A narrativa é protagonizada por
Robert (Joel Edgerton) um lenhador vivendo no oeste dos Estados Unidos no
início do século XX. Ele consegue um trabalho que paga bem, mas que o deixa
distante da esposa, Gladys (Felicity Jones), e da filha pequena. Acompanhamos
Robert ao longo dos anos conforme ele lida com as tragédias que acometem a sua
vida e com a passagem do tempo.
A arte muitas vezes nasce do
diálogo com o mundo real. Alguém olhou para alguma coisa no mundo, sentiu algo
e resolveu transformar isso em arte. A arte, no entanto, não tem qualquer
obrigação de reproduzir o mundo real, nem uma representação realista, próxima
de como as coisas funcionam no mundo real, torna uma peça artística
automaticamente boa. Digo isso porque reconheço como Depois da Caçada, novo filme do diretor Luca Guadagnino (de Rivaise Me Chame Pelo Seu Nome), é uma representação fiel do universo que
representa, mas, ao mesmo tempo, ser fiel à realidade não significa que isso
rende um bom drama.
Politicagem acadêmica
A trama é centrada em Alma (Julia
Roberts), professora de filosofia em Yale. Ela tem um caso extraconjugal com
Hank (Andrew Garfield), também professor na universidade, e um relacionamento
distante com o marido, Frederik (Michael Stuhlbarg). Quando Maggie (Ayo
Edebiri), uma doutoranda orientada por Hank, o acusa de estupro, Alma fica no
meio da questão. Hank se defende dizendo que Maggie inventou a acusação depois
que confrontou a orientanda sobre a tese dela ser um plágio. Alma já tinha
noção que Maggie não era uma boa aluna e que seu trabalho poderia ser plágio,
mas ela também sabe que Hank é mulherengo e gosta de dar em cima das alunas.
Estrelado por Benedict
Cumberbatch e Olivia Colman, Os Roses é
a mais nova adaptação para os cinemas do romance A Guerra dos Roses de Warren Adler que já tinha sido levado aos
cinemas 1989 em um filme homônimo ao livro dirigido por Danny DeVito. Nunca li
o livro e vi o filme do Danny DeVito, com Michael Douglas e Kathleen Turner nos
papéis principais, há muito tempo e não tenho muita memória, então vou analisar
essa nova versão sem fazer nenhuma comparação com outros materiais.
Inimigo íntimo
A trama acompanha o casal Theo
(Benedict Cumberbatch) e Ivy (Olivia Colman), cujo casamento vai erodindo ao
longo dos anos conforme a carreira de Theo vai piorando e a de Ivy deslancha.
As tensões entre os dois crescem ao ponto de se tornarem insustentáveis e eles
acabam se divorciando, mas a disputa pelos bens, em especial pela casa
construída por Theo e paga por Ivy, se torna tensa.
Depois de dirigir filmes como Bom Comportamento(2017) e Joias Brutas(2019) ao lado do irmão
Josh, Coração de Lutador marca o
primeiro esforço de Benny Safdie dirigindo um filme sozinho. Se os trabalhos
com o irmão renderam resultados instigantes, esse primeiro trabalho solo de
Benny Safdie na cadeira de diretor entrega um resultado morno.
Máquina de esmagar
A trama conta a história real de
Mark Kerr (Dwayne “The Rock” Johnson), lutador que foi um dos pioneiros no UFC.
A narrativa acompanha a ascensão de Kerr nos primeiros anos da modalidade,
quando ela ainda era olhada com desconfiança pela população e os lutadores não
recebiam muito, seus problemas com narcóticos e sua relação atribulada com a
esposa, Dawn (Emily Blunt).
A despeito do título e do
material de divulgação focarem bastante em Kerr como lutador, o filme acaba
sendo mais sobre o processo de sobriedade dele do que sobre lutas em si. Não
que a narrativa não apresente cenas de luta e que elas não reflitam o quão
brutal era o UFC no final dos anos 90 com bem menos regras e segurança para os
lutadores, mas a trama foca menos nisso do que na recuperação de Mark.
Estrelado por Michael Cera e
Michael Angarano, que também escreveu e dirigiu o filme, Sacramento é um típico road
movie sobre pessoas em busca de si mesmas. A narrativa usa uma viagem como
catalisador para confrontar os problemas de seus personagens, mas nunca explora
isso de maneira consistente.
Viagem atribulada
Glenn (Michael Cera) é um homem
certinho, tenso por estar prestes a ser pai e preocupado em fazer tudo
corretamente pela esposa e filha que vai nascer. Rickey (Michael Angarano) é
seu melhor amigo desde a infância, mas eles estão há algum tempo sem se falar.
Quando Rickey pede que Glenn o acompanhe em uma viagem de Los Angeles até
Sacramento para que ele espalhe as cinzas do pai lá.
Dirigido e estrelado por Aziz
Ansari, Quando o Céu Se Engana é uma
daquelas produções em que a ideia é melhor do que a execução em si. Se na série
Master of NoneAnsari conseguia fazer
um retrato simultaneamente cômico e sensível das agruras de um jovem adulto,
aqui tanto o humor quanto as críticas sociais construídas nunca ficam a altura
do potencial da premissa inicial.
Trocando as bolas
A narrativa acompanha Gabriel
(Keanu Reeves), um anjo da guarda cuja ocupação principal é proteger pessoas
que mandam mensagens de texto enquanto dirigem. Gabriel, no entanto, aspira
trabalhos mais nobres, em especial o de redimir almas perdidas e vê uma
oportunidade de fazer isso ao conhecer Arj (Aziz Ansari), um jovem aspirante a
documentarista desempregado, que vive de bicos e aceita um trabalho como
assistente pessoal do ricaço Jeff (Seth Rogen). Quando Arj é demitido e sente
que perdeu tudo, Gabriel se aproxima para ajudar Arj a perceber que sua vida é
mais significativa do que imagina. Para ensinar uma lição a Arj o anjo troca a
vida de Arj com a de Jeff para que Arj perceba que o dinheiro de Jeff não é o
que resolveria seus anseios. O problema é que Arj de fato consegue usar o dinheiro
de sua nova vida para lidar com a maioria de suas questões e não se mostra
disposto a voltar para sua antiga vida.
Adaptando um dos primeiros romances de
Stephen King A Longa Marcha é uma
daquelas produções que pode soar derivativa não pelo seu conteúdo em si, mas
pelo momento em que foi lançada. Hoje cenários distópicos nos quais jovens são
forçados a competir entre si até a morte para distrair da dureza do regime ou
vida precária não são exatamente novidade embora não fosse o caso em 1979
quando a obra de King foi publicada. O próprio Francis Lawrence, que dirige
essa adaptação, já levou aos cinemas outra saga sobre jovens em competições
mortais ao conduzir as adaptações de Jogos Vorazes. Mesmo sendo um formato que Hollywood explorou à exaustão nos
últimos anos A Longa Marcha consegue
funcionar pelo cuidado que tem com seus personagens.
Marcha da morte
A trama se passa em um Estados
Unidos distópico que foi devastado por uma guerra civil e que agora vive sob um
governo autoritário liderado pelo truculento Major (Mark Hamill). A população
vive em um estado precário e periodicamente é realizado um evento chamado “a
longa marcha” no qual cinquenta jovens são sorteados para uma disputa. Eles
precisam caminhar mantendo uma velocidade constante de três milhas por hora,
quem ficar abaixo disso ou parar será morto. Vence o último que sobrar. O
grande prêmio em dinheiro e a realização de um pedido são o que motiva a
população a se envolver nesse jogo mortal, mas alguns participantes tem
motivações diferentes. Ray Garraty (Cooper Hoffman) se voluntariou para a
competição com o desejo de se vingar do Major que executou seu pai por ser um
dissidente. Ao longo da marcha Ray forma uma amizade com outro competidor,
Peter McVries (David Jonsson, de Alien Romulus). O laço que se forma entre eles os mantem resistindo às agruras da
competição.
Se tem um cineasta contemporâneo capaz
de entender a sensibilidade do romance Frankenstein
de Mary Shelley esse alguém é Guillermo del Toro. Seu Frankenstein, produzido em parceria com a Netflix, é uma competente
releitura do seminal texto de Shelley, se mantendo fiel ao seu espírito ao
mesmo tempo em que agrega uma visão bem particular do diretor.
Pessoas normais assustam
A narrativa é centrada em Victor
Frankenstein (Oscar Isaac), um nobre destituído que desde jovem se tornou
obcecado em ser capaz de reanimar os mortos e criar uma nova forma de vida. Sem
ser levado a sério pela comunidade científica, ele consegue financiar sua
pesquisa através do magnata comercial Harlander (Christoph Waltz). Com o
dinheiro Victor consegue montar um laboratório e começa seu processo de estudar
a reanimação. Quando ele finalmente consegue reconstruir um ser humano a partir
de partes de cadáveres e reanima seu construto, se decepciona com a Criatura
(Jacob Elordi) e decide destruir o experimento. A Criatura, no entanto,
sobrevive e passa a perseguir Victor.
Meses atrás o diretor Paul Thomas
Anderson produziu uma poderosa síntese das disputas políticas e sociais nos
Estados Unidos ao longo das últimas décadas com Uma Batalha Após a Outra. Com O
Agente Secreto o diretor Kleber Mendonça Filho faz algo semelhante para o
contexto brasileiro, uma síntese consistente, abrangente, por vezes
bem-humorada, de vários processos políticos e sociais em marcha no Brasil desde
a segunda metade do século XX.
O homem que sabia demais
A narrativa se passa em Recife em
1977 e acompanha Marcelo (Wagner Moura), um homem perseguido pela ditadura
militar brasileira que chega na cidade para reencontrar o filho enquanto espera
documentos para sair do país. Ele se abriga no edifício Ofir, lugar onde outros
“refugiados” se escondem sob a tutela de Dona Sebastiana (Tânia Maria). Ao
mesmo tempo, uma dupla de matadores de aluguel chega a Recife atrás de Marcelo.
De certa forma Balada de um Jogador é uma história de
vício e redenção similar a outras que já vimos. Por outro lado é um daqueles
filmes que importa mais o modo como ele conta a história do que a história
contada por si só.
Perdedor longe de casa
A narrativa é protagonizada por
Lorde Doyle (Colin Farrell), um jogador inveterado que vive em Macau apostando
alto nos cassinos. Ele vem numa maré de azar e suas dívidas estão se
acumulando. As coisas pioram quando a investigadora britânica Blithe (Tilda
Swinton) o encontra, trazendo consigo o passado do qual Doyle queria escapar.
Com dívidas sendo cobradas de várias direções e sem conseguir crédito em lugar
nenhum, ele acaba recorrendo à agiota Dao Ming (Fala Chen). Os dois se conectam
por serem pessoas cheias de arrependimento e em busca de redenção, mas talvez
essa conexão não seja suficiente para salvar nenhum deles.
Um bom final pode elevar uma
narrativa, pode nos fazer esquecer suas falhas, relevar seus problemas.
Analogamente um final ruim nos faz deixar um filme com um gosto ruim na boca,
esquecer seus méritos e diluir a força de suas ideias. Casa de Dinamite, novo filme da Kathryn Bigelow (responsável por
produções como A Hora Mais Escurae Guerra ao Terror) produzido pela
Netflix, sofre exatamente por conta de seu final ruim.
Perigo real e imediato
A narrativa começa com um
letreiro dizendo que no pós Guerra Fria as nações do mundo começaram a reduzir
seus arsenais nucleares com medo de que eles pudessem ser usados para dar
início a uma guerra catastrófica. Nos últimos anos, porém, os países vêm
diminuindo o ritmo do desmonte desses arsenais, indicando um movimento mais
belicista. Acompanhamos a capitã Olivia Walker (Rebecca Ferguson) responsável
pela sala de crise na Casa Branca, monitorando possíveis ameaças. Quando o
lançamento de um míssil vindo do Oceano Pacífico é detectado, todos ficam em
alerta para monitorar se é um ataque ou alguma outra coisa. Conforme a situação
se desenvolve vemos como ela se articula com outras autoridades do governo para
formular uma resposta.
Dirigido por Ron Howard, Eden conta uma intensa história real que
poderia render um cuidadoso estudo sobre civilidade, a relação do ser humano
com o mundo e os riscos da soberba humana em ser incapaz de entender sua
pequenez diante do poder da natureza. Digo poderia porque o filme nunca faz jus
ao potencial que sua história carrega.
Na natureza selvagem
A narrativa se passa na década de
1940. A Europa está devastada por conta da Primeira Guerra Mundial, o fascismo
está em ascensão. O médico Ritter (Jude Law) se muda com a esposa Dore (Vanessa
Kirby) para a ilha de Floriana no arquipélago de Galápagos para iniciar um novo
modo de vida em comunhão com a natureza e escrever uma nova filosofia para a
humanidade. Com o tempo, as histórias do modo de vida dele alcançam o
continente e atraem novas pessoas para ilha, como o casal Heinz (Daniel Bruhl)
e a esposa Margret (Sydney Sweeney) que vai até lá na esperança de reconstruir
a vida, ou a rica Baronesa (Ana de Armas) que chega no local esperando
construir um hotel de luxo apesar dos poucos recursos na ilha. Ritter e Dore
não ficam animados com a chegada de vizinhos e logo começam as hostilidades por
conta dos poucos recursos na ilha.
Histórias são produtos de seu
tempo, elas refletem ideais, posicionamentos e visões de mundo do período em
que são feitos. A fábula da Cinderela foi feita em um período em que o valor de
uma mulher estava atrelado à sua beleza e que a única coisa que se esperava de
uma mulher era que ela arrumasse um marido de posses para casar, melhorando a
posição de sua família. É por isso que certas histórias que permanecem no imaginário
popular são constantemente reinterpretadas, para pensar como ela seria adequada
aos valores do contexto em que se insere. A produção norueguesa A Meia-Irmã Feia faz exatamente isso ao
olhar a fábula sobre valores contemporâneos de objetificação da mulher e
padrões de beleza tacanhos.
Rivalidade feminina
A trama gira em torno de Elvira (Lea
Myren), uma jovem que sonha em se casar com o príncipe, mas cuja família não vai
bem financeiramente. Sua mãe, Rebekka (Ane Dahl Torp) se casa novamente com um
aristocrata que parece ter dinheiro e se muda para a Suécia com Elvira e a
filha mais nova, Alma (Flo Fagerli). Lá elas conhecem Agnes (Thea Sofie Loch
Næss), a bela filha do novo padrasto. Agnes age como uma garota mimada,
julgando Elvira pela aparência e menosprezando a nova irmã. É aí que a protagonista
descobre que o padrasto não tinha dinheiro e casou com Rebekka por interesse.
Ele morre pouco tempo depois, deixado a família cheia de dívidas. Como Alma
ainda é muito jovem, o plano de Rebekka é arrumar um marido rico para Elvira,
salvando a família. Ela espera conseguir no baile oferecido pelo príncipe, mas
para isso precisará fazer algo à respeito da aparência de Elvira, em especial
quando ela é ofuscada pela naturalmente bela Agnes.
Dirigido por Paul Greengrass este
O Ônibus Perdido conta a história
real de uma catástrofe natural e usa esse evento para pensar sobre as mudanças
climáticas que tem acontecido no planeta e como desastres são potencializados
por conta disso. Como de costume na filmografia de Greengrass sua estética pende
para o realismo e por fazer tudo soar o mais autêntico possível, embora sua
história tenha uma estrutura típica de filme-catástrofe.
Cortina de fogo
A narrativa se baseia na história
real dos incêndios florestais que aconteceram no interior da Califórnia em
2018, um incidente que se tornou o mais mortal incêndio florestal da história
do país. Depois que uma subestação de energia em mau estado dá início a um
incêndio, os ventos e a secura da mata facilitam que o fogo rapidamente se
espalha. Kevin (Matthew McConaughey) é um motorista de ônibus escolar que está
retornando para a garagem ao terminar seu turno, mas é chamado a ajudar no
transporte de uma escola da região que está sendo evacuada. Ele pega a
professora Mary (America Ferrera) e sua turma de crianças do ensino
fundamental. Durante a evacuação, o ônibus fica preso em uma área de incêndio e
Kevin perde o contato via rádio com a base. Agora ele e Mary precisam encontrar
um jeito de sobreviverem e levarem as crianças em segurança.
Baseado em uma história real,
este Deu Match: A Rainha dos Apps de
Namoro é mais uma daquelas histórias de empreendedorismo e superação. A
narrativa ainda tenta tocar em outros temas, como o machismo no mundo da
tecnologia ou como plataformas digitais transformam relacionamentos, no
entanto, tudo é simplório demais resultar em qualquer coisa minimamente
interessante.
Rede de pegação
A narrativa é inspirada pela
história real de Whitney Wolfe (Lily James) uma das criadoras do app Tinder.
Quando o seu ambiente de trabalho se mostra excessivamente machista, ela decide
denunciar o que acontece, mas é colocada para fora da empresa e desacreditada.
Ela então faz uma parceria com o magnata russo Andrey (Dan Stevens) para criar
o Bumble, um aplicativo de relacionamentos que forneceria um ambiente seguro
para as mulheres.