sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Crítica – Alabama: Presos do Sistema

 

Crítica – Alabama: Presos do Sistema

Review – Alabama: Presos do Sistema
Realizar um documentário implica em estar aberto ao que a realidade vai apresentar a você, mesmo que você tenha feito planos diferentes a respeito do que deseja filmar. Alabama: Presos do Sistema é um exemplo disso. Os diretores Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman foram à mais severa prisão do estado do Alabama nos Estados Unidos para filmar um avivamento religioso feito por pastores que atuam no sistema prisional. Chegando lá, no entanto, são abordados por vários presos que denunciam maus tratos no local e os funcionários do presídio logo encerram a filmagem e colocam a equipe para fora. Os diretores então passam a investigar o que acontece no sistema prisional.

Cárcere rígido

O documentário então se desenvolve através de conversas que os documentaristas tem com presos através de celulares que os detentos conseguem trazer ilegalmente dentro da prisão e também de vídeos feitos por esses detentos documentando os maus tratos. A ação à margem da lei se dá porque as autoridades não permitem que os presos falem com imprensa ou recebam pessoas, numa prática que não é comum no sistema prisional. É um documentário de natureza expositiva e, talvez por isso, soe um pouco cansativo, já que ele nos bombardeia o tempo todo com depoimentos ou dados que estão sempre nos explicando as coisas, pegando o espectador pela mão sem dar muito espaço para reflexão.

Ao longo desses relatos o filme nos informa como os detentos ficam praticamente o tempo dentro das celas, sem banho de sol ou qualquer atividade externa, e qualquer um que questione a ordem das coisas é colocado na solitária, citando o caso de um detento que está há cinco anos na solitária por conta de seu ativismo. O tratamento desumano aos presos se estende a atos de violência física, que muitas vezes terminam com detentos sendo espancados até morte. Em um dos casos abordados, a família do detento morto consegue tirar escondida uma foto do cadáver, uma imagem chocante que mostra o rosto do sujeito completamente destruído.

Esses maus tratos se estendem para a exploração da mão de obra dos detentos, que trabalham nas atividades da prisão, como a cozinha e a lavanderia, mas também são colocados para prestar serviço ao governo estadual, trabalhando na manutenção de prédios públicos. Tudo isso sem receber por esse trabalho, em uma situação análoga à escravidão, com a narrativa ponderando como esse encarceramento em massa de setores mais pobres da população não é por acaso, mas um projeto político.

Imagens apesar de tudo

A falta de transparência e acesso que imprensa, familiares e demais setores tem em relação ao presídio e os detentos não é tratada somente como um risco aos presos, é também um problema por facilitar a corrupção dos agentes públicos que ali trabalham. Afinal, se ninguém fiscaliza nada é fácil cometer crimes impunemente. A presença constante de celulares nas mãos dos presos, algo que deveria ser proibido, é um exemplo das estruturas corruptas do local, bem como o tráfico de drogas na prisão, que tem índices extremamente altos de casos de overdose. Ou seja, toda essa opacidade no modo como a prisão é gerida, não significa necessariamente punição mais rígida para os presos, mas implica diretamente em um aumento de crimes cometidos dentro da prisão inclusive pelos agentes públicos.

Como a equipe do documentário não tem acesso ao espaço, muito do nosso contato com a realidade da prisão se dá através das imagens captadas por detentos com celulares escondidos. São imagens em baixa resolução, nem sempre bem enquadradas e na maioria dos casos filmadas com o celular na horizontal. Longe de serem representações ideais da situação ou que facilitem a compreensão do espectador, inclusive em termos de áudio, sempre com baixa qualidade e cheio de ruído, obrigando o filme a recorrer a legendas. Não cito isso para dizer que é um problema ou uma falha do filme. O documentário incorpora essas imagens muito ciente de suas imperfeições e essa característica das imagens serve para informar das condições de produção das mesmas.

Não são imagens registradas com tempo para se buscar um enquadramento ideal ou melhor iluminação. São imagens realizadas na urgência de documentar um cotidiano brutal, com visão limitada dos eventos, capturadas rapidamente por medo de ser pego, mas que servem para registrar uma realidade que não poderia ser captada de outro modo. Oferecem um contraponto a uma narrativa que não poderia ser questionada sem essas evidências. Por mais falhas, por mais limitadas que sejam, são um convite a fabular sobre o que está nas bordas dela e as condições em que vivem os detentos. São o que resistiu a uma tentativa de apagamento dessa história e, por isso, apesar de tudo, merecem ser observadas.

 

Nota: 7/10


Trailer

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