Destino na mesa
A narrativa se passa na Nova Iorque da década de 50 e acompanha Marty (Timothee Chalamet), um jovem que trabalha na loja de sapatos do tio, mas que sonha em se tornar uma estrela do ping pong. Ele larga o emprego, roubando dinheiro da loja financiar a viagem já que tem a certeza que vencerá o campeonato e voltará como um herói com fama e dinheiro para fazer todos os seus problemas sumirem. Os planos de Marty não dão certo e ele volta ao país com dívidas e problemas com a lei, ainda assim ele acredita que se conseguir vencer o próximo torneio, que será no Japão, ele conseguirá resolver tudo. No percurso ele tenta conseguir patrocínio do empresário Milton Rockwell (Kevin O’Leary, em um papel que certamente iria para Bob Hoskins se esse filme fosse feito nos anos 90), mas se envolve com a esposa dele, a atriz Kay Stone (Gwyneth Paltrow), que é infeliz no relacionamento e quer voltar a atuar. As coisas se complicam ainda mais quando Rachel (Odessa A’zion), uma garota com quem Marty se relacionou no passado, aparece grávida dizendo que o filho é dele.
Tudo se desenvolve como uma intensa corrida contra o tempo conforme Marty ignora as várias crises e responsabilidades ao seu redor enquanto pensa em novos esquemas para conseguir levantar o dinheiro para financiar seus sonhos de jogar ping pong. É uma estrutura que lembra muito Bom Comportamento (2017) e Joias Brutas (2019), também filmes sobre figuras marginalizadas e com bem menos poder ou influência que pensam ter, contando apenas com a lábia para manipular pessoas, ganhar tempo enquanto correm em direção a um objetivo que parece cada vez mais impossível.
Chalamet canaliza em Marty uma energia irrefreável de alguém que está sempre maquinando um esquema para conseguir o que quer. Ele não é exatamente brilhante e seu mais o prejudica do que o ajuda, muitas vezes o fazendo perder oportunidades e afastar pessoas por conta dessa postura petulante. Ele também parece não se importar com as consequências que suas ações têm nas pessoas ao seu redor, desde que ele consiga o que deseja. Ainda assim, o ator da a Marty uma vulnerabilidade, um desespero, que fazem sua petulância soar como um mecanismo de defesa e uma arma para tentar sair da realidade precária que se encontra. Sim, ele é um parasita sem vergonha, inclusive se humilhando para os poderosos quando percebe que não tem outro meio, mas há nele uma humanidade que impede que ele descambe para a caricatura ou que seja meramente um escroque irritante.
Assim como Marty, Kay e Rachel são mulheres desesperadas para sair da realidade em que se encontram. Kay tenta voltar a atuar, apesar do meio tratá-la como alguém que já passou do auge, enquanto Rachel se apega à Marty para sair do relacionamento igualmente infeliz em que se encontra. Inclusive é curioso como Rachel inicialmente parece ser só mais uma vítima dos esquemas de Marty, sendo usada por ele para conseguir sexo ou dinheiro, no entanto, mais para frente descobrimos que ela também tem uma faceta mais ardilosa, manipulando Marty a ajudá-la a sair de casa.
Ritmo de jogo
Para além das atuações, a energia do filme vem também de como ele é montado filmado. A câmera acompanha a movimentação incessante de Marty em cena como se fosse difícil acompanhar a intensidade do protagonista. A montagem confere agilidade e urgência sem nunca perder de vista o senso de coesão espacial e temporal da ação. Não importa o quanto uma cena seja repleta de cortes, nunca temos a impressão de que não temos completa noção do que está acontecendo nesses espaços.
A música é outra instancia na qual o filme constrói sua urgência. Uma presença constante que dá a sensação de movimento do protagonista, mas também a impressão de que ele está se afundando cada vez mais em seus esquemas, de que as paredes estão se fechando ao seu redor e seus prospectos pioram cada vez que um de seus esquemas dá errado. Os espaços que ele frequenta também marcam esse percurso de decadência do personagem e de como ele está sem opções. São hotéis fuleiros, literalmente caindo aos pedaços, pistas de boliche de beira de estrada frequentadas por apostadores viciados que estão em busca de dinheiro fácil.
Marty age como se estivesse acima de tudo isso e normalmente é sua vaidade ou o modo como superestima suas habilidades, a exemplo da cena no posto de gasolina em que tenta conversar com as pessoas que trapaceou ao invés de fugir de imediato, que lhe derrubam. Mesmo quando está em ambientes de luxo, figuras como Milton sempre fazem questão de rebaixá-lo e lembrá-lo de como ele não pertence a esses lugares.
O desfecho me pegou desprevenido com sua guinada otimista, já que tudo vai se construindo em uma cadência similar a de Joias Brutas, com tudo erodindo sob os pés do protagonista e ele inevitavelmente precisando enfrentar as consequências de todas as trapaças que fez e eu esperava que Marty terminasse sendo espancado em alguma sarjeta. Aqui, porém, há um vislumbre de mudança para Marty que, por um lado, vai de encontro ao senso de erosão criado ao longo do filme, mas que faz certo sentido na medida em que ele se dá conta de que seu “grande propósito” no ping pong se encerrou, encontrando um novo propósito.
Marty Supreme entrega um intenso estudo de personagem a respeito de
alguém disposto a absolutamente qualquer coisa para conseguir o que deseja,
sustentado pela energia das performances e a urgência que a direção dá aos
eventos. Por outro lado, fica a impressão que Josh Safdie já fez isso antes e possivelmente
melhor ao lado do irmão em produções anteriores.
Nota: 8/10
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