terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Crítica – Dinheiro Suspeito

 

Análise Crítica – Dinheiro Suspeito

Review – Dinheiro Suspeito
Sinto que desde que chamou atenção com o ótimo Narc (2002), o diretor Joe Carnahan nunca mais fez algo no mesmo nível, variando entre algumas coisas divertidas, mas pouco memoráveis, como seu reboot de Esquadrão Classe A (2010), ou péssimas, como pavoroso Shadow Force: Sentença de Morte (2025). Talvez por conta disso fui assistir esse Dinheiro Suspeito, produzido pela Netflix, esperando mais um chorume genérico de streaming, no entanto, o resultado é um sólido thriller e o melhor trabalho de Carnahan em muito tempo.

A cor do dinheiro

A narrativa é levemente baseada na história real de agentes de Narcóticos da Flórida que encontraram mais de vinte milhões de dinheiro de tráfico de drogas guardado em uma casa. Aqui a trama é protagonizada por Dane (Matt Damon), o segundo no comando de sua unidade que assume a liderança depois que sua capitã, Jackie (Lina Esco), é assassinada em uma emboscada ainda não investigada. Dane leva sua unidade a uma casa nos subúrbios depois de supostamente receber uma denúncia de que o local guardava dinheiro dos cartéis. Chegando lá, a única habitante é Desi (Sasha Calle, a Supergirl de Flash) que diz não saber nada do dinheiro. Investigando o local, descobrem ainda mais dinheiro do que a denúncia inicial sugeria e logo eles sabem que virarão alvos. Dane decide seguir o protocolo de contar o dinheiro no local e depois chamar o comando para vir pegá-los, mas o tempo para contar tanto dinheiro significa mais tempo para as coisas darem errado, seja em termos dos donos do dinheiro aparecerem, seja porque os membros da unidade podem se interessar em ficar com parte do valor.

Boa parte do filme se passa dentro da casa, com os personagens confinados com o dinheiro suspeitando uns dos outros. A narrativa é eficiente em nos dar motivos para desconfiar de cada um dos membros da unidade. Dane parece instável e a informação de que ele está atolado em dívidas médicas depois que o filho pequeno morreu de câncer, torna possível que ele tenha se corrompido. J.D (Ben Affleck) desconfia de Dane, mas o fato dele ter sido preterido por Jackie na promoção a segundo no comando apesar de ter mantido um caso com Jackie, nos faz crer que ele possa ter traído a unidade por ressentimento. O fato dele ter escondido de Dane que tem um celular descartável também é suspeito. O mesmo acontece com Mike (Steven Yeun), que mantem uma troca de mensagens com alguém oculto e não menciona nada para os colegas. Lolo (Catalina Sandino Moreno) e Numa (Teyana Taylor, de Uma Batalha Após a Outra) constantemente mencionam que talvez fosse melhor se ficassem com ao menos parte do dinheiro.

Agentes em conflito

Outro motivo da tensão funcionar tão bem é o modo como o filme gere a informação que temos acesso. Variamos entre os vários personagens, tendo acesso a partes da perspectiva deles, mas nunca suas intenções completas, sempre nos deixando incertos quanto à motivação real deles. O elenco contribui para esse senso de ambiguidade, nos convencendo da tensão que cada um carrega durante toda a situação ao mesmo tempo em que deixa evidente para o espectador que seus personagens estão escondendo algo. A tensão Dane pode ser tanto fruto de ter se metido em uma situação maior do que esperava quanto a de ter uma agenda oculta. De maneira semelhante o modo como J.D questiona cada ação de Dane pode vir de uma preocupação genuína de tirar todos dali vivos ou de querer prejudicar a operação em se beneficiar com algo. Sasha Calle também é competente na ambiguidade de Desi, uma garota que claramente sabe mais do que está dizendo, embora deixe incerto se ela é só um boi de piranha do tráfico ou se é alguém com maior conhecimento de suas operações.

Essas tensões se ampliam ainda mais na sequência em que Dane, J.D e Mike entram no blindado do agente Matty (Kyle Chandler) para transportar o dinheiro. É óbvio desde o início que alguém ali tem motivações espúrias e as tensões vão crescendo conforme esses personagens questionam uns aos outros com armas na mão. É praticamente um impasse de western no qual todos estão com suas pistolas engatilhadas esperando apenas um vacilo do adversário para saber em quem atirar. O filme dilata essa tensão ao limite e sabemos que a qualquer momento, com uma palavra errada, tudo pode irromper em violência. A tensão e ambiguidade dos personagens são salientadas pela iluminação, com fachos de luz entrando rapidamente pelas seteiras do blindado, alternando entre luz e sombra tal qual a conduta dos personagens enquanto tentamos desvendar quem ali é está mentindo.

A perseguição final, por outro lado, é o momento menos interessante do filme, já que a montagem picotada e computação gráfica pouco convincente fazem tudo soar artificial e sem coesão. Claro, é satisfatório ver os infiltrados recebendo o merecem e saber como ações de muitos personagens foram planejadas para expor as condutas dos traidores nos faz reinterpretar muito de suas ações no início, mostrando como o texto é bem amarrado, porém isso não afasta a sensação de que essas sequências de ação no final ficam abaixo do restante do filme.

 

Nota: 8/10


Trailer

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