segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Crítica – Magnum

 

Análise Crítica – Magnum

Review – Magnum
Não creio que ninguém estivesse clamando por uma série ou filme do Magnum, herói da Marvel que começou como vilão e que também teve uma carreira como ator de cinema. É o tipo de coisa que faz parecer que o estúdio está raspando o tacho em meio a um desgaste de suas produções. O resultado, no entanto, é um interessante estudo de personagem que explora a faceta do herói como ator de cinema para pensar no estado atual de Hollywood e também no desgaste recente de filmes de heróis.

Super astro

A narrativa é protagonizada por Simon Williams (Yahya Abdul Mateen), um ator que há anos tenta, sem sucesso, vencer em Hollywood. Um dia ele encontra Trevor Slattery (Ben Kingsley) em um cinema e fica sabendo que estão acontecendo testes para um remake de Magnum, um antigo filme de super-herói que ele viu quando era pequeno e que o inspirou a virar ator. Agora ele e Trevor se juntam para tentar conseguir uma escalação no filme. Só há um problema, Simon tem super poderes que ele não consegue controlar e Hollywood não permite pessoas com poderes em sets de filmagem, então ele precisa manter seus poderes sob controle e ocultos para conseguir o papel.

É menos uma trama típica de super herói com um vilão a ser derrotado e mais uma reflexão sobre a máquina de moer gente que é Hollywood, na qual mesmo atores dedicados podem nunca conseguir chamar atenção porque ninguém lhes dá uma oportunidade. Claro, parte do problema da carreira de Simon não deslanchar é que ele cria muitos obstáculos para si mesmo e tende a complicar coisas simples. Um exemplo é a cena do primeiro episódio em que ele é demitido de uma série por atrasar as gravações ao fazer perguntas demais sobre o seu personagem e tentar criar uma ampla história pregressa para ele, quando ele é só um coadjuvante que está ali para mover a trama da protagonista adiante.

Trevor acaba servindo como mentor de Simon e nisso consegue mostrar outras facetas para além do tolo constantemente chapado mostrado tanto em Homem de Ferro 3 (2013) ou em Shang-Chi (2021), aparecendo aqui como artista sensível, de percepção aguda aos sentimentos dos outros e com um entendimento consistente do que um ator precisa fazer. Kingsley e Mateen tem uma boa química, fazendo a amizade entre os dois soar sincera, principalmente quando descobrimos o motivo de Trevor se aproximar de Simon e como ele passa a se importar com o jovem ator mesmo depois de perceber os poderes dele. É como se Trevor percebesse em Simon o potencial que via em si mesmo e desperdiçou, tentando ajudar Simon a não cometer os mesmos erros que ele.

A vida imita a arte

Nesse sentido, não é coincidência que eles consigam papeis no filme do Magnum como amigos que acabam sendo desleais um com o outro, numa dinâmica que reflete a situação real deles considerando as segundas intenções de Trevor. A chave para entender a dinâmica dos dois, no entanto, é na citação ao filme Perdidos na Noite (1969) que os dois assistem no primeiro episódio. Tal como no filme estrelado por Jon Voight e Dustin Hoffman, temos a história de uma amizade improvável na qual uma figura mais experiente tenta tirar vantagem da outra pessoa, apenas para se apegar a ele e no final depender da ajuda de quem tentou explorar.

Também como em Perdidos na Noite a trama é permeada por flashbacks que mostram o passado de Simon, em especial a infância ao lado do pai e como os momentos que teve com o falecido pai moldaram quem ele é no presente. Os poderes de Simon e a falta de controle sobre eles servem como metáfora para os traumas do personagem, sua insegurança, incapacidade de se abrir aos outros e desconfiança que tem com as pessoas.

Yahya Abdul Mateen traz sempre em sua linguagem corporal e olhar a expressão de alguém que se resignou na solidão e cuja postura aparentemente confiante e o modo como ele fala bastante perto das outras pessoas mascara seu nervosismo e insegurança. A cena entre Simon e Trevor na mansão do diretor não apenas sela a amizade entre os dois, como reforça a ideia de que os poderes do personagem servem de metáfora para suas inadequações e o momento em que Trevor lhe diz que seu segredo não resume quem ele é e sim a soma de todas as experiências e sentimento, cabendo ao ator ser capaz de externar esses sentimentos de maneira verdadeira através de seus personagens é uma reflexão muito arguta do que consiste o trabalho de um ator.

A série ainda expande certos elementos do universo Marvel, em especial como a mídia lida com pessoas com super poderes, dando uma explicação de como aqui não temos um monte de supers virando celebridades e fazendo filmes como em The Boys. O quarto episódio diverte ao explicar a origem da cláusula que barra pessoas com poderes em Hollywood ao mostrar a bizarra história de um sujeito que gerava portais no corpo e sem querer fez desaparecer o ator Josh Gad (interpretando a si mesmo). Esse episódio também mostra como a indústria do entretenimento eleva alguém ao status de celebridade, apenas para descartar depois.

O arco de Simon na produção do filme dentro da série, trabalhando com o excêntrico diretor Von Kovak (Zlatko Buric, de Superman) reflete sobre o lugar dos filmes de heróis na indústria atual, lembrando que aquilo que faz um filme funcionar não são os efeitos especiais ou o marketing, mas a paixão dos envolvidos e a busca por histórias interessantes e bem contadas. Uma ponderação que eu espero que a Marvel leve em consideração em suas próximas produções.


Nota: 8/10


Trailer


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