terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Crítica – O Morro dos Ventos Uivantes

 

Análise Crítica – O Morro dos Ventos Uivantes

Review – O Morro dos Ventos Uivantes
A primeira cena dessa nova versão de O Morro dos Ventos Uivantes dá a impressão que a diretora Emerald Fennell, de Saltburn (2023), entende o que está no cerne do texto original de Emily Bronte. A tela está preta, ouvimos uma respiração arfante e sons de gemidos. Imaginamos se tratarem de sons emitidos durante o sexo, mas a imagem se revela e nos mostra uma execução pública, uma pessoa sendo enforcada e sufocando. Assim que o sujeito morre, o público que assiste explode em júbilo, algumas pessoas começam a transar. A punção sexual e a punção de violência estão conectadas. Uma população que vive em uma época de pudores e recato desloca sua libido para a violência, a crueldade e um senso de revanchismo. A ideia que a alienação afetiva e uma vida de maus tratos e de afetos não concretizados desperta o pior nas pessoas era central no romance de Bronte e ao assistir a primeira cena pensei que o filme se manteria fiel a esse espírito.

Não é o que acontece. Ao invés de uma história sobre pessoas que viram as piores versões de si mesmas por sentimentos negados ou não concretizados, o filme aborda a história de Heathcliff e Catherine como uma tragédia de circunstâncias e não como se seus infortúnios não se dessem pelas falhas desses personagens, construídas e amplificadas pelos problemas que tiveram ao longo da vida. Quem está procurando uma adaptação fiel provavelmente irá se decepcionar aqui, no entanto, defendo que ao menos o filme é competente dentro do que se propõe.

Vidas secas

A narrativa se passa no interior da Inglaterra do final do século XVIII. Cathy (Margot Robbie) é uma jovem solitária na sombria propriedade do pai em uma área rochosa e pantanosa. As coisas mudam quando seu pai traz para casa Heathcliff (Jacob Ellordi), um jovem órfão que ele resgatou da rua e passou a tratar como filho. Alcoólatra e viciado em jogo, o pai de Cathy é uma pessoa difícil, mas ela encontra alento para todo o sofrimento na companhia de Heathcliff. Quando a situação financeira da família se deteriora, Cathy decide seduzir o rico vizinho, Edgar Linton (Shazad Latif), para se salvar da ruína de sua família. Heathcliff se magoa em ser preterido por Cathy e vai embora, anos depois ele retorna à vila como um homem bem sucedido e decide se vingar de Cathy.

Margot Robbie é muito boa em capturar a natureza voluntariosa, orgulhosa e indomável de Cathy, que não mede palavras para conseguir o que quer, inclusive agindo de maneira impertinente ou agressiva quando contrariada, como uma garota mimada, embora a trama nunca a enquadre como uma manipuladora amargurada como acontece no romance. Essa personalidade voluntariosa encontra um igual em Heathcliff, uma pessoa endurecida pelas dificuldades da vida e dos maus tratos que recebeu, guardando consigo um complexo de inferioridade por sua posição social. Ele encontra em Cathy um alento para essa dor, mas juntos eles também estimulam os piores impulsos um do outro.

Assim como Margot Robbie, Jacob Ellordi é competente em evocar a natureza bruta de Heathcliff, falando entre grunhidos e trazendo um olhar que carrega uma raiva contida e um rancor pelas injustiças que sofre. É difícil, porém, falar do trabalho dele sem mencionar como a escalação dele esvazia alguns elementos do personagem, embora essa não seja a primeira adaptação em que a escalação de Heathcliff faz isso.

No romance o personagem é várias vezes descrito como um homem de “pele escura” ou como alguém de descendência “cigana”. São falas não especificam exatamente uma etnia, mas deixam evidente que ele não é um homem branco ou não é lido como tal pelas pessoas ao seu redor. No livro, a cor de sua pele, mais do que sua origem humilde, é o elemento que motiva ele ser constantemente tratado como alguém inferior, sub-humano, colocado numa posição de inferioridade até em relação aos demais criados dos Earnshaw. Aqui toda essa tensão e preconceito da época desaparecem, reduzindo tudo a um mero preconceito de classe, simplificando as tensões e conflitos entre os personagens.

Assim como Cathy, ele é alguém cujo coração é tão desolado quanto as charnecas enevoadas ao redor da propriedade dos Earnshaw e conforme o tempo passa Heathcliff se torna tão duro quanto os ambientes rochosos que cercam a casa do Morro dos Ventos Uivantes.

Falando em paisagens, a fotografia é muito competente em reproduzir a oposição que o texto de Bronte construía em relação às propriedades dos Earnshaw e dos Linton. O Morro dos Ventos Uivantes onde Cathy cresce é uma propriedade decrépita, mal iluminada, cercada por rochas opressivas e charnecas melancólicas tomadas por nevoeiros. As coisas são poucos saturadas, com uma predominância de tons frios. A Granja Trushcross dos Linton, por outro lado, é um ambiente solar, com luzes sempre estouradas, cores quentes, em alta saturação, superfícies limpas e cercada por jardins. A primeira vez que Cathy retorna para casa depois de passar uma temporada se recuperando de um ferimento na casa dos Linton, os tons intensos de vermelho em seu vestido a fazem destoar completamente do resto do ambiente de sua família, quase como se ela fosse uma alienígena ali.

Elementos de desenho de produção também comentam o lugar que Cathy ocupa em sua nova residência com os Linton. A parede de seu quarto, feita para reproduzir fielmente a textura de sua pele, incluindo um sinal que ela tem no rosto, indica como seu marido pensa nela. Ela é parte da casa, pertence ali como todo o resto lhe pertence. Ela é um bem. Do mesmo modo a boneca de Cathy feita por Isabella Linton (Alison Oliver) e colocada dentro de uma grande maquete da casa revela como a tutelada de Edgar vê Cathy como um brinquedo, um bibelô para lhe divertir. A coleção de vestidos com a qual Isabella presenteia Cathy é menos um gesto de gentileza com a esposa do tutor e mais como alguém que compra vestidos e acessórios para sua boneca. Ainda que seja bem acolhida pelos Linton e receba tudo de melhor, o filme evidencia como ela vista por eles mais como um objeto do que como uma pessoa.

Vingança amarga

Os problemas do filme, porém, começam quando se dá o retorno de Heathcliff e o início de sua vingança contra Cathy. Se no romance ele retorna como um sujeito tomado por ódio, amargura e ressentimento, agindo com genuína crueldade e desfaçatez para atormentar gerações da família de Cathy, tanto do lado dos Earnshaw quanto dos Linton, aqui a fúria dele é bastante suavizada.

Parte disso vem da remoção de todo o arco envolvendo o irmão de Cathy, Hindley, e o filho dele, Hareton. Ao tomar o controle da propriedade dos Earnshaw, Heathcliff submete Hareton ao mesmo grau de humilhação e degradação que Hindley fazia quando eram crianças. Era uma ação que mostrava a crueldade do personagem e como ele não tinha qualquer limite, punindo até mesmo uma criança que nunca lhe fizera nada. Como o filme só cobre cerca de metade do livro, também não temos toda crueldade à qual Heathcliff submete os descendentes dos Earnshaw e dos Linton, oprimindo-os por décadas

A sedução de Isabella e o modo como Heathcliff a degrada também são suavizados. Aqui Isabella é quase uma cúmplice dele na tentativa de humilhar os Linton, desenvolvendo uma estranha relação de dominação/submissão (sim, incluindo sexual) que o filme faz questão de nos mostrar que ela consente para que não vejamos Heathcliff como abusador. Nessa adaptação Isabella é uma adulta e não uma adolescente como no romance, o que, novamente, torna Heathcliff em uma figura ainda mais cruel no texto original.

Ainda que a interação inicial entre Heathcliff e os Linton traga certa animosidade, com ele e Cathy até se divertindo às custas da paixão ingênua que Isabella tem por Heathcliff, essas tensões logo se dissolvem quando eles voltam a confessar o que sentem um pelo outro. Assim, Heathcliff é menos um sujeito cuja rejeição o tornou um sujeito cruel e vingativo e mais uma espécie de galã rústico, cujas tentativas de vingança, como na cena em que ele tenta ditar uma carta para Isabella, soam por vezes mais desajeitas e patéticas do que efetivamente maldosas e cruéis.

Incomoda também como o filme vilaniza a criada Nelly (Hong Chau), quase que deslocando de Heathcliff para ela o papel de pessoa racializada e rancorosa pela ausência de status social. Em mais de uma ocasião Nelly sabota conscientemente a vida de Cathy, colocando ela e não as próprias falhas de caráter de Heathcliff e Cathy como obstáculo na relação deles. Isso é importante porque tira do casal principal a agência sobre os próprios infortúnios que aqui não se dão pela conduta deles e sim pela intromissão dos outros. Fazendo deles vítimas do destino e das circunstâncias e não de si mesmos. Sim, de certa forma as ações de Nelly são justificadas no contexto da trama e reverberam os temas de que pessoas menosprezadas e humilhadas reproduzem esses maus tratos nos outros, no entanto, o filme faz isso sacrificando a complexidade moral do casal de protagonistas.

Deixando de lado comparações com o material original. O filme ao menos consegue funcionar dentro desse regime de grande história de amor trágica no qual tenta operar, construindo bem o desejo contido entre Cathy e Heathcliff e como os costumes da época enchem Cathy de culpa em relação ao caso que mantem. Os trailers davam a entender que a história focaria muito no erotismo da relação entre Cathy e Heathcliff, fazendo tudo soar como uma espécie de versão vitoriana da trilogia 50 Tons de Cinza. Felizmente isso não acontece. Ainda que tenham cenas de sexo, elas servem como momentos em que todo o desejo contido dos personagens é extravasado. Elas trazem consigo o anseio que esses personagens têm um pelo outro e a tensão dos encontros secretos entre eles.

Assim, mesmo que não seja uma adaptação fidedigna do romance de Emily Bronte, levando o material para outras direções e temas, dentro do romance trágico que se propõe a ser, o filme consegue trazer a dor, a solidão e o desejo de seus personagens.

 

Nota: 6/10


Trailer

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