Eternamente jovem
Na trama, Samantha (Elizabeth Moss, de O Conto da Aia) é uma atriz cuja carreira está estagnada. Ela constantemente perde papéis para atrizes mais jovens e não sabe como seguir em frente. As coisas mudam quando ela conhece Zoe (Kate Hudson), dona de um império de cosméticos e que oferece a Samantha um novo tratamento que promete rejuvenescê-la. Inicialmente as coisas dão certo, mas logo a atriz começa a experimentar efeitos colaterais severos e passa a desconfiar que Zoe tem algo a esconder.
A primeira coisa que incomoda é como a transformação de Samantha praticamente inexiste. Apesar da narrativa nos dizer que ela melhorou a aparência e todos passaram a vê-la com outros olhos a aparência de Moss é praticamente a mesma depois do tratamento, a única mudança é a ausência das erupções fruto dos problemas de pele da protagonista. É difícil comprar a ideia que esse é um tratamento transformador, quando não há transformação.
A tentativa de comentar sobre padrões estéticos e como a indústria do entretenimento trata as mulheres não vai além da constatação óbvia de que mulheres são objetificadas e a mídia impõe padrões de beleza impossíveis de alcançar. O filme transita entre o horror e o camp, não muito diferente do que A Substância fez. Se no filme de Fargeat esses momentos de camp e de comédia serviam para mostrar a cretinice e vulgaridade de Hollywood, aqui as tentativas de humor muitas vezes descambam para um constrangimento que opera mais em revelar a precariedade da produção e do texto do que em comentar algo sobre o nosso mundo. Segmentos como o de Samantha presa em um carro dirigido por IA são mais constrangedores do que engraçados.
Transformação crustácea
De maneira semelhante, as tentativas de body horror nunca tem impacto algum, se limitando a perebas na pele de Samantha ou sequências em que ele vomita. Falta criatividade para o grotesco e coisas mais explícitas nos corpos dos personagens. Mesmo quando a garota Chloe (Kaia Garber) aparece transformada em uma espécie de lagosta gigante, a cena é menos A Mosca (1986) e mais algo saído de um terror de baixo orçamento da década de 70 como A Invasão das Rãs (1972) ou A Noite dos Coelhos (1972).
Eu sei que parece algo propositalmente pensado para ser camp, mas, novamente, são elementos que deveriam ao menos divertir pela bizarrice ou exagero e que acabam sendo mais constrangedores do que efetivamente engraçados. Kate Hudson, por outro lado, diverte devorando cenário como uma celebridade dona de uma marca de bem-estar que vende tratamentos milagrosos, agindo como uma Gwyneth Paltrow no mal. O desfecho da vilã, por sinal, é um dos poucos momentos realmente divertidos. Elizabeth Moss, porém, não tem muito o que fazer como Samantha, já que a personagem existe meramente como um veículo para o filme expor suas reflexões sobre etarismo e machismo. O trabalho de Moss também peca por uma composição muito mais série que a tentativa de camp da narrativa.
Mesmo sem a comparação com A Substância, Segredo Obscuro não tem muito a oferecer além de uma reflexão sem
contundência sobre indústria da beleza e um terror corporal sem impacto.
Nota: 4/10
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