Uma pessoa é vítima de um golpe e perde todas as suas economias. Não disposta a deixar os bandidos vencerem, decide empreender uma caçada contra eles. Soa como um filme de ação no estilo Busca Implacável ou a franquia John Wick, certo? Mas e se eu dissesse que a pessoa em questão é uma idosa nonagenária? Essa é a exata premissa de Thelma, uma espécie de “história de vingança” com pessoas de idade avançada.
Revanche tardia
Thelma (June Squibb) é uma senhora de noventa e quatro anos que vive sozinha em casa depois do falecimento do marido. Seu neto, Daniel (Fred Hechinger, de Gladiador 2), a ajuda nas tarefas do cotidiano. Um dia ela recebe uma ligação de Daniel dizendo que se envolveu em um acidente de carro e foi preso, pedindo que envie dez mil dólares para pagar a fiança. Ela envia o dinheiro, mas logo descobre que nada aconteceu com Daniel e que foi vítima de um golpe. A família fica tranquila que nada de mais grave aconteceu com Thelma, que saiu sozinha de casa sem avisar para enviar o dinheiro, mas a idosa se torna focada em reaver seu dinheiro. Ela vai visitar o amigo Ben (Richard Roundtree, o eterno Shaft) na casa de repouso em que ele vive e o convence a ajudá-la, usando sua scooter para transportar os dois sem que a família de Thelma saiba.
Há uma óbvia comicidade no modo como essa senhora embarca em uma aventura para confrontar os bandidos enquanto foge dos familiares que ficam preocupados com ela. A montagem trabalha essa oposição entre a urgência com a qual a filha de Thelma, Gail (Parker Posey), age para tentar encontrá-la, e a lentidão com a qual Thelma se move na scooter de Ben, constantemente parando para conversar com pessoas na rua ou para carregar o veículo. Isso é visível na sequência em que Daniel descobre a localização da avó e corre junto com os pais para encontrá-la. O filme adota uma música tensa conforme a família se move pelo trânsito, mas a montagem alterna entre a exasperação de Gail e Thelma tranquilamente jogando conversa fora com outra idosa em um posto de gasolina, alheia à preocupação dos parentes.
Isolamento social
Embora tenha um começo promissor, o filme perde fôlego em seu segundo ato conforme Thelma e Ben perambulam em busca dos culpados e a narrativa parece não ir a lugar nenhum, repetindo muito dos mesmos temas e piadas. Ainda assim, a trama acerta ao tentar equilibrar sua comicidade com o drama ao explorar os sentimentos de pessoas nonagenárias como Thelma e Ben, evitando reduzir a protagonista a uma caricatura de idosa teimosa.
A insistência em confrontar os criminosos não é apenas pelo dinheiro, mas uma tentativa de Thelma em retomar a sua autonomia. É um sentimento comum em idosos, que aos poucos se veem na posição de serem cuidados pelos parentes e vão sentindo que são um estorvo, que vão perdendo a utilidade. Em sua jornada de revanche, Thelma tem a oportunidade de fazer algo sozinha e provar a si mesma que ainda é capaz de ter as rédeas da própria vida. June Squibb traz uma inquietação e um senso de desamparo tocante para essa mulher que chegou a um ponto na vida onde acumula perdas e tem pouco a esperar do futuro. Se sentindo sozinha não apenas pela perda de autonomia, mas pelo fato de boa parte dos seus amigos e pessoas próximas já se foram, não restando muita gente para interagir.
Se o miolo perde ritmo, o filme se recupera no final quando Thelma finalmente confronta os golpistas, descobrindo que o criminoso é um idoso igual a ela, reverberando os temas de solidão, esquecimento e irrelevância que afligem pessoas na idade dela. O confronto final diverte ao colocar Thelma para fazer o criminoso de refém enquanto tenta invadir a conta bancária dele pelo computador mesmo sendo pouco versada no universo digital, tentando navegar entre pop-ups e publicidades indesejadas para cumprir sua missão.
Embora sofra com problemas de ritmo e não consiga sustentar
plenamente sua premissa, Thelma vale
a pena pelo senso de humor e pela performance de June Squibb.
Nota: 6/10


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