O dilema das redes
Na trama, Bonnie tem dificuldade em fazer amigos. Ela é a única criança na vizinhança que ainda brinca com brinquedos enquanto todas as outras já estão usando dispositivos eletrônicos. Preocupados com a filha, os pais dela compram um tablet para ela, a Lillypad. Os outros brinquedos ficam preocupados quando o dispositivo toma a rotina de Bonnie, com Lillypad colocando várias atividades online entre ela e outras meninas para que ela se enturme. Jessie, no entanto, desconfia de que essas amizades não tem uma conexão real com Bonnie e tenta ajudar a garota de algum modo.
A narrativa analisa como essa infância vidrada em dispositivos perde a capacidade de imaginar, de criar e abstrair, que jogos, por mais que sejam divertidos, não trazem a mesma liberdade que uma brincadeira na qual você tem total liberdade. Pondera ainda que fazer um monte de amizades virtuais não vai necessariamente suprir as necessidades emocionais e de sociabilidade de uma criança, porque esses amigos nem sempre se importam de fato com você ou valorizam os mesmos interesses que você tem. A conexão tecnológica é exposta em seu paradoxo, sem ela parece que vivemos isolados, mas com ela, mesmo com vários amigos virtuais, isso não aplaca nossa solidão, podendo até nos fazer sentir pior, como acontece com Bonnie em alguns momentos.
A diferença entre a interação via redes e a brincadeira é mostrada imageticamente, com o visual mudando durante os momentos em que Bonnie ou a garota Blaze usam seus brinquedos. A realidade dá lugar a visuais coloridos e cenários que parecem pintados com giz de cera, mostrando como a brincadeira mobiliza a imaginação e permite mergulhar em espaços mais criativos.
Brinquedos inteligentes
Além de Bonnie, Jessie é o grande foco da história, já que a perspectiva de ser abandonada por Bonnie a faz lembrar de quando foi deixada por sua primeira dona e a leva a se questionar se é realmente um bom brinquedo. Jessie protagoniza alguns dos momentos mais emocionantes do filme, em especial na cena em que retorna ao local que brincava com sua antiga dona e descobre o impacto que teve na vida dela, que nada foi em vão.
As interações de Jessie com outros dispositivos eletrônicos, como o Amigo Rolinho, um aparelho educativo para ensinar crianças a usar o banheiro, rende vários momentos divertidos conforme ela descobre o nível de funções e conectividade desses dispositivos, ao mesmo tempo em que percebe que eles têm uma vida mais curta que os brinquedos, sendo trocados e esquecidos mais facilmente por conta do lançamento de aparelhos mais avançados.
O arco envolvendo um grupo de bonecos modernos do Buzz Lightyear é outro foco da comédia enquanto eles viajam pelo país em busca de se reencontrar com o “Comando Estelar”. Há algo meio sinistro nesse bando de brinquedos renegados com capacidade de se conectar à internet para conseguir informações e que por si só poderia servir como premissa para um filme de terror (a exemplo da cena em que “torturam” Woody), mas aqui, obviamente, afinal é uma produção para crianças, a narrativa explora isso mais por um aspecto cômico, já que os Buzz (Buzzes?) não sabem que são brinquedos e agem mais por ingenuidade do que malícia.
Falando em aspectos sombrios desse universo, o filme anterior usava o personagem Garfinho para mostrar que brinquedos podem sofrer algum grau de pavor existencial ao se darem conta da natureza da própria existência. O novo filme volta a essa ideia de que brinquedos podem ter depressão com a escolha da Lillypad ao perceber que falhou com Bonnie. A narrativa lida com isso de maneira cuidadosa. É algo que adultos vão perceber, mas que provavelmente vai passar batido no público infantil, mas levanta a questão do quanto a existência dos brinquedos pode ser aterrorizante.
Ainda que critique o modo como a tecnologia afeta a infância, a narrativa é eficiente em não demoniza-la, mostrando como as redes podem conectar pessoas que provavelmente nunca iriam se encontrar normalmente, como acontece com Bonnie e Blaze, ajudando duas garotas que se sentiam deslocadas a conhecerem pessoas com interesses similares que não ocupam os mesmos círculos sociais.
Apesar de ter deixado os demais brinquedos no filme anterior, Woody retorna para ajudar Jessie, Buzz e os demais. A presença dele até rende algumas piadas relativa ao desgaste do boneco, como a “calvície”, causada pelo apagamento da tinta, mas praticamente não faz diferença para a história. A impressão é que ele está presente mais pelo apelo nostálgico do que para contribuir com a história. Talvez a Disney e a Pixar temessem que os fãs poderiam se irritar se o xerife não estivesse presente, a questão é que independente do motivo, a presença de Woody tem pouco impacto e ele poderia ser removido que nada mudaria. Talvez fosse até melhor para mostrar que os demais personagens tem substância suficiente para sustentar o filme do que ficar trazendo ele de volta como muleta nostálgica.
Com uma criativa mistura de humor
e drama, Toy Story 5 cria uma
eficiente, emocionante e divertida reflexão sobre os impactos da tecnologia na
infância enquanto lembra do valor da imaginação e da brincadeira.
Nota: 8/10
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