sexta-feira, 19 de junho de 2026

Crítica – Michael

 

Análise Crítica – Michael

Review – Michael
De uns tempos pra cá Hollywood vem produzindo biografias de artistas da música que parecem mais focada em promover o catálogo musical desses artistas do que em dizer algo sobre essas pessoas. Filmes como Bohemian Rhapsody (2018), I Wanna Dance With Somebody (2022) ou Back to Black (2024), recriam clipes musicais e performances marcantes, mas não comunicam nada a respeito de quem foram os biografados. Michael, biografia de Michael Jackson, segue a mesma fórmula.

Ascensão do rei do pop

A narrativa segue Michael (Jaafar Jackson), de sua infância no Jackson 5 ao sucesso de sua carreira solo com o álbum Thriller. Ao longo dessa trajetória ele entra em atrito com o pai controlador, Joe (Colman Domingo). Apesar de apresentar um recorte específico da vida do personagem, a trama não demostra ter uma visão sobre Michael, uma tese de como ele se tornou quem ele se tornou, do jeito que se tornou.

Tudo é muito laudatório, desde a infância tratando o personagem como alguém com muita naturalidade para música e creditando todo seu sucesso a essa genialidade sem examinar muito a fundo o que inspirava suas composições ou coreografias. Mesmo os conflitos com o pai são mais informados do que analisados no modo como eles vão impactar na vida pessoal e profissional de Michael.

O resultado disso é uma biografia que soa como um longo verbete de Wikipedia, que traz informações básicas sobre a vida do cantor e sua trajetória musical, mas que falha em nos dar qualquer entendimento para além da figura midiática de Michael. Não saímos do filme com a sensação de que aprendemos algo a respeito de quem ele era como pessoa, apenas com o reforço de todo o discurso midiático ao redor dele. Isso, talvez, seja o pior aspecto da produção, já que o próprio filme mostra como Michael passou boa parte da vida tentando fugir do pai que queria reduzi-lo a um produto a ser vendido e comprado para o lucro da família e o filme faz exatamente isso.

Fan service

Muito do tempo do filme é preenchido com segmentos musicais que recriam performances e videoclipes de Michael Jackson de maneira tão fiel que me pergunto se não seria melhor ter usado imagens de arquivo. Claro, são momentos impactantes que mostram o talento de Michael e como ele cativava audiências, mas o mérito dessas cenas vem mais da própria música e encenação das performances de Michael do que de qualquer esforço do filme em como filmar, editar ou costurar essas performances em sua narrativa. São reproduções competentes, mas vazias em termos do que comunicam a respeito do biografado.

O mesmo pode ser dito da performance de Jaafar Jackson, que é muito bom em reproduzir a energia do canto e dança de Michael, mas fora dos palcos não tem muito a oferecer. Sim, ele reproduz muito bem a voz e os trejeitos de Michael Jackson, mas nunca consegue ir além dessa mimese física, não nos faz ver que existe um sujeito com vida interior por trás dessas escolhas de composição. Claro, não é apenas culpa do ator, já que o texto nunca se interessa pelo que move Michael como pessoa, em investigar como a voz infantilizada e conduta arredia do sujeito talvez sejam fruto dos anos de abuso e dependência emocional do pai, que o manteve infantilizado para melhor controlá-lo. Do mesmo modo, os problemas de autoimagem que o levaram a múltiplas cirurgias plásticas são sugeridos de modo bem passageiro, mas nunca explorados. Em parte porque o filme foge de qualquer aspecto mais polêmico da vida do biografado, preferindo o tom mais laudatório.

O resultado é uma produção desprovida de qualquer senso de drama ou conflito. Mesmo o fio condutor sendo a relação conturbada entre Michael e o pai não repercute em algo que nos faz sentir que há algo em jogo para Michael. Por mais que Joe interfira em sua carreira e tente exercer controle sobre ele, nunca sentimos que Michael pode perder alguma oportunidade, prejudicar sua carreira ou mesmo as maneiras específicas que isso afeta sua vida pessoal.

A impressão é que Michael é meramente uma coleção de segmentos musicais feitos para agradar fãs e lembrar a força expressiva da música de Michael Jackson do que um esforço de analisar sua trajetória e nos deixar imersos em seu universo interior.

 

Nota: 4/10


Trailer

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