sexta-feira, 12 de junho de 2026

Crítica – Manual Prático da Vingança Lucrativa

 

Análise Crítica – Manual Prático da Vingança Lucrativa

Review – Manual Prático da Vingança Lucrativa
Uma das regras implícitas do cinema é a do “mostre, não conte”. Se algo é importante para a narrativa é melhor mostrar esse evento ou demonstrar essa emoção em cena do que ter uma voz ou diálogo explicando o que aconteceu ou como alguém se sentiu. Manual Prático da Vingança Lucrativa esquece essa regra e apresenta uma narrativa que mais conta do que mostra, tirando a força da sátira que tenta fazer.

Devorem os ricos

A trama é protagonizada por Becket (Glen Powell), um jovem que pertence à rica família Redfellow, mas cresceu longe da fortuna de sua família porque a mãe se afastou deles antes que Becket nascesse. Ainda assim, ele foi criado como se fosse membro da elite, mesmo com sua mãe ficando viúva cedo e tendo uma vida de classe média. Já adulto Becket percebe que não importa o quanto se esforce, nunca será rico apenas pelo próprio esforço. Ele então monta um plano de eliminar os demais parentes para que apenas ele reste como herdeiro da fortuna. No processo ele reencontra Julia (Margaret Qualley), uma antiga colega de escola que casou com um herdeiro qualquer e agora está à beira da falência. Ele também se apaixona por Ruth (Jessica Henwick) uma professora primária que pouco se importa com posição social.

A história é narrada pelo próprio Becket enquanto ele se confessa com um padre na prisão após aparentemente ser condenado à morte. Sua narração permeia o filme inteiro e é o que dá a liga à narrativa, que salta rapidamente do assassinato de um parente para outro sem nunca deixar nada repercutir. É uma estrutura que funcionaria melhor como minissérie, dando tempo para apresentar a personalidade de cada parente, mostrar como eles são pessoas horríveis e quando o assassinato efetivamente viesse, ele funcionasse como um momento de catarse, já que a ideia é fazer uma comédia sombria sobre como a melhor maneira de ter uma sociedade menos desigual seria matar os ricos. Não funciona justamente porque o filme tenta substituir a construção dramatúrgica pelo texto das narrações, fazendo tudo soar como uma colagem de cenas com muito pouco que lhes dê unidade.

É uma pena, já que atores como Zach Woods e Topher Grace são competentes em construir os primos de Becket como babacas pretensiosos que só tem sucesso por já terem nascido ricos. Poderiam ser figuras que adoraríamos detestar se passássemos mais tempo com eles, mas do jeito que está terminam como caricaturas desinteressantes. O filme também tem muito pouco a dizer sobre desigualdades sociais ou o abismo que separa ricos e pobres além de reconhecer o problema da acumulação de riqueza.

Crimes em família

Outro problema é que os crimes de Becket soam bastante implausíveis, principalmente pelo fato das autoridades, apesar de desconfiarem dele, não conseguem provas contra ele. É difícil crer que o FBI aceite um álibi onde é impossível identificar o rosto do sujeito em imagens de câmeras, do mesmo modo que é pedir demais da nossa suspensão de descrença para que acreditemos que Becket, um sujeito comum, consegue se infiltrar em locais de muita segurança como um aeroporto ou um spa de luxo sem ser filmado por nenhuma câmera ou deixar qualquer rastro.

Isso piora quando descobrimos que Julia tem provas dos crimes de Becket por ter colocado um detetive particular para segui-lo. Ora, qual o motivo do FBI não ter feito o mesmo principalmente depois de muitas mortes suspeitas que o beneficiam e álibis fracos para as mortes? Não faz sentido.

Se os crimes e a reação a eles não soam críveis, nada soa crível e fica difícil aderir à narrativa. A obsessão de Julia por Becket como meio de fugir da falência é outro elemento que não parece crível. Considerando que ela e o marido são membros de famílias tradicionais com acesso a pessoas em posição de poder, é difícil comprar a ideia que Becket, inicialmente um sujeito em posição social bem intermediária, seria o melhor veículo para um resgate financeiro. Eles conseguiriam mais dinheiro e mais fácil de amigos, conhecidos, poderiam se tornar influencers, criar um produto qualquer, um esquema de criptomoedas. Para pessoas como Julia, as possibilidades são amplas e o filme nunca dá uma razão para aceitar que ela não tem outros meios.

A reviravolta envolvendo a prisão de Becket é outra instância narrativa que soa forçada. Considerando que ele já era um bilionário quando o FBI o prende por um crime que não cometeu, é difícil comprar a ideia de que ele não teria um exército de advogados capazes de estraçalhar as várias provas circunstanciais da promotoria ao ponto de, no mínimo, evitar uma pena de morte. O desfecho do personagem é tratado como uma grande ironia ou quebra de expectativa, mas a verdade é que era bem óbvio que alguém tão rico se livraria de tudo de um jeito ou de outro.

Na verdade, a única coisa surpreendente no final é o uso da canção Take Me Back to Piauí do brasileiro Juca Chaves. Tenho muita curiosidade de saber como uma canção brasileira paródica da década de 70, que nem aqui é tão lembrada assim, foi parar em uma produção hollywoodiana em 2026? Talvez os responsáveis pela curadoria musical do filme tenham assistido o indicado ao Oscar Ainda Estou Aqui (2024) no qual a música foi usada recentemente e tenham gostado dela. A música entra em cena justamente para tentar contribuir para o ar de deboche e subversão do desfecho de Becket, mas não funciona pela obviedade do roteiro.

Com tantos problemas, Manual Prático da Vingança Lucrativa constrói uma sátira sem acidez e uma trama frágil, que pede muita boa vontade do espectador para desconsiderar o quanto ela faz pouco sentido.

 

Nota: 3/10


Trailer

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