Instinto selvagem
A trama é centrada em Taylor Parker, uma jovem mulher do interior do Texas e da rede de mentiras que ela construiu em torno de si. Ela começa a namorar Wade, um pequeno agricultor, e lhe diz que tem uma herança enorme para receber, mas que sua mãe a está impedindo de receber o que é devido. Convencendo ele e a família dele de que milhões estão à caminho, eles compram carrões e vários outros luxos, iniciando até o processo de adquirir uma fazenda de vinte milhões de dólares. Quando o dinheiro obviamente não chega, ela conta que está grávida para manter Wade interessado. O problema é que Taylor não está grávida e não pode engravidar, tendo feito uma histerectomia anos antes. Assim, ela passa a buscar meios de manter as mentiras de pé.
É um documentário true crime que segue à risca a cartilha das produções de streaming, recorrendo a entrevistas, imagens de arquivo e momentos encenados, sem oferecer nada de muito arrojado em termos de uso da linguagem audiovisual. O que mantem nosso interesse é a história de Taylor e os contorcionismos que ela faz com suas múltiplas mentiras para manter tudo de pé.
Chega a ser impressionante o comprometimento de Taylor com a trambicagem, mantendo múltiplos números de celular, usando moduladores de voz para se passar por diferentes pessoas, editando imagens de exames para passar como se fossem dela, comprando uma barriga falsa na internet para poder convencer mais da falsa gravidez. Fiquei me perguntando o quanto ela poderia ser bem sucedida na vida se tivesse o mesmo empenho para trabalhar ou estudar.
Mentiras fatais
Conforme a trama avança, porém, as ações dela se tornam mais desesperadas e extremas, culminando em um crime brutal. A narrativa é competente em mostrar os impactos das ações de Taylor na comunidade e na família da vítima, como as pessoas que eram próximas a ela foram ostracizadas na pequena cidade, mesmo sem ter envolvimento com as mentiras de Taylor e o trauma de quem foi prejudicado por ela. Há, porém, pouco empenho em entender como Taylor se tornou do jeito que é.
O filme passa rapidamente pela sua vida pregressa, apenas nos informando que ela era uma pessoa insegura e com necessidade de validação, o que faz pouco para lançar luz em seu comportamento. Afinal, muita gente é insegura e busca validação externa, mas quase ninguém faz o que Taylor fez, como mentir por dez meses a respeito de uma gravidez para manter o relacionamento com um homem não tinha as posses que ela almejava, não era exatamente atraente e que nem gostava dela tanto assim, só se mantendo com ela por um senso de responsabilidade com o filho nascituro.
Por sinal, senti falta que o documentário questionasse mais porque Wade continuou acreditando nas mentiras dela quando a família e os amigos avisavam que havia algo errado e mesmo toda a situação era extremamente suspeita (afinal, quem não suspeitaria de uma gravidez que dura dez meses?). Se ele mesmo admite que nunca disse um “eu te amo” sequer para Taylor, o que motivava sua credulidade? Do jeito que está ele soa meramente como um caipira burro e talvez seja só isso, mas mesmo se fosse o caso, entendê-lo melhor o deixaria menos caricato. O modo como o filme parece desinteressado em cavar mais a fundo nos personagens os torna muito rasos.
O interesse parece ser mais no
choque das ações de Taylor, principalmente no clímax violento da história,
situando o documentário em um campo mais voltado para o sensacionalismo do que
no da investigação da realidade. Ainda assim, Instinto Materno consegue envolver por contar uma história que
mostra como a realidade pode ser mais chocante do que muita obra de ficção.
Nota: 6/10
Trailer


Nenhum comentário:
Postar um comentário