A verdade está lá fora
A trama é centrada em Margaret (Emily Blunt), que trabalha como a mulher do tempo em uma emissora em Kansas City. Um dia, depois de um breve contato com um pássaro, ela passa a falar em uma língua estranha e aparentemente ser capaz de entender os pensamentos de outras pessoas. Suas novas habilidades a direcionam para Kellner (Josh O’Connor, de Vivo ou Morto), um especialista em segurança digital que está em fuga depois de roubar material confidencial da misteriosa empresa Wardex. Kellner deseja divulgar o material ao mundo, mas Scanlon (Colin Firth), que lidera a Wardex, está disposto a tudo para deter Kellner, inclusive usando a namorada dele, Jane (Eve Hewson), como refém. Margaret e Kellner são auxiliados por Hugo (Colman Domingo), um dissidente da Wardex que acha que está na hora da humanidade conhecer os segredos que a empresa esconde.
Histórias sobre alienígenas muitas vezes operam como metáforas para como lidamos com algo que é externo a nós, seres que não vemos como iguais, como humanos, que são tão diferentes da gente que poderiam ser muito bem de outro planeta. Durante a década de 70 produções como Invasores de Corpos (1978) usavam a ideia de invasões alienígenas e mente coletiva para refletir a paranoia e medo que os Estados Unidos tinham sobre uma ameaça dos comunistas soviéticos. Ao transformar o outro em uma criatura, o discurso lhe retira a humanidade, a possibilidade de ver o outro como igual, nos autorizando a fazer com esses alienígenas algo que não faríamos com nossos semelhantes. Durante muito tempo a figura do alienígena serviu no imaginário hollywoodiano como símbolo para a ameaça externa, embora também tenha sido usado para falar de como lidamos com as diferenças.
Spielberg é um diretor que entende bem o potencial expressivo dos alienígenas para falar sobre a humanidade. Em E.T (1982) a criatura servia para mostrar como muita gente poderia tratar algo como ameaça simplesmente porque não o compreende, com o garoto Elliot precisando ajudar o alienígena a voltar para casa. Em Guerra dos Mundos (2005), Spielberg usou a narrativa de uma súbita invasão alienígena escrita por H.G Wells para falar do medo causado pelos ataques do 11 de setembro. Aqui, Spielberg usa os alienígenas como um clamor por compreensão e empatia em um contexto do crescimento da intolerância, do discurso de ódio e de líderes (como o atual presidente dos EUA) sectários, preconceituosos que colocam seus países no caminho do conflito e do isolacionismo.
Não é a toa que o olhar é tão importante no filme. As habilidades de Margaret só funcionam quando ela olha nos olhos de outra pessoa. Ao olhar para alguém, ela o enxerga completamente, em tudo que a pessoa sente e experimenta, podendo ajudar esses sujeitos a lidarem com seus problemas. Uma espécie de capacidade automática de se conectar com o outro em um nível profundo, mas que perpassa por, primeiro, ser capaz de enxergar o outro. O olhar também é o meio que o filme nos indica que alguém foi dominado por Scanlon quando ele usa um aparato alienígena, fazendo a íris da pessoa controlada se transformar. Em uma oposição direta a Margaret, Scanlon é literalmente capaz de ver o mundo pelos olhos de outra pessoa e de se colocar no lugar do outro, mas ao invés de usar isso como um instrumento de compreensão, ele usa como uma ferramenta de dominação e controle. Ele se recusa a ver o outro pelo que ele é, preferindo ver o outro como um mero veículo para a imposição de sua vontade, alguém que deve se conformar a visão de mundo dele ou ser destruído.
Scanlon representa justamente a faceta intolerante da raça humana. Que vê o que não entende como uma ameaça, como um inimigo. Que vê tecnologia ou qualquer outro recurso como uma arma para capturar ou eliminar que não concorda com ele. Alguém que não crê que a humanidade é capaz de dividir o mundo ou mesmo o universo com mais ninguém. É um vilão que, no papel, soa como um “cara malvadão do governo” genérico, com a tragédia pessoal em seu passado não sendo desenvolvida o suficiente para lhe dar mais camadas. O que evita Scanlon de cair na caricatura é o trabalho de Colin Firth que confere a ele uma vulnerabilidade conforme suas dores são expostas por Margaret e Hugo, nos deixando ver que há um ser humano ali.
A força da crença
A ausência de empatia representada por Scanlon é também materializada nos noticiários que falam em um conflito iminente, fruto de atritos e ameaças não resolvidas entre diferentes países. A noção de que conflitos são causados pela nossa incapacidade de entender e dialogar com o outro aparece também em menor escala no plano sequência de Margaret caminhando pelo estúdio do noticiário e vê a equipe tentando entrevistar um especialista coreano. Ele parece irritado com as pessoas a redor, então Margaret senta e inesperadamente começa a falar coreano com ele, percebendo que muito da frustração do sujeito vinha da incompreensão de seus interlocutores, com Margaret explicando que eles não estavam traduzindo direito a fala dele.
Esse plano sequência revela tanto a habilidade de Spielberg em construir uma encenação complexa, em um espaço amplo, com muita gente se mexendo, quanto a capacidade de Emily Blunt em nos apresentar a inesperada polivalência de Margaret, caminhando por esse espaço conversando com várias pessoas e resolvendo seus problemas, inclusive em outro idioma, ao longo de cerca de cinco minutos sem cortes. De maneira semelhante, Spielberg emprega giros de câmera ao redor dos personagens ou ao redor do eixo da própria câmera para criar um senso de tensão, como se eles estivessem sendo observados de múltiplas direções, e também para ilustrar como a perspectiva dos personagens muda. Um exemplo é a cena em que Kellner mostra os vídeos da Wardex para Jane. Quando ela começa a ver os vídeos, a câmera está posicionada atrás do notebook e conforme ela compreende o que está assistindo a câmera se move por cima do notebook e gira em direção à tela do dispositivo em um movimento que desloca tanto seu eixo horizontal quanto vertical. Isso não é mera firula estilística, está ali para indicar imageticamente como toda a visão de mundo e sistema de crenças da personagem foi modificado, tirado do eixo, pelas revelações feitas por Kellner.
A presença de Jane conduz outro eixo temático do filme, o da crença. Não o da crença se aliens existem ou não, já que como eu disse a narrativa usa os alienígenas para falar de outras questões, mas a crença na humanidade. A crença que podemos ser melhores, de que somos sim capazes de lidar com as diferenças, de sermos tolerantes, de aceitarmos o outro, não importa o quanto esse outro seja distante de nós. O momento em que Scanlon tenta entrar na mente de Jane ilustra bem esse duelo de vontades, com a montagem criando um paralelismo entre a imagem de Scanlon segurando o artefato alienígena na mão e Jane segurando o crucifixo para resistir ao controle do vilão. Cada um lutando com as armas que tem, a força e a fé. Por um instante parece que a truculência de Scanlon vence quando Jane derruba o crucifixo e toma o controle dela, mas Jane expulsa o controle do vilão a pressionar a ferida que o crucifixo deixou em sua mão. É a marca de sua crença inscrita em seu corpo que a faz vencer o controle, sua fé (no divino, no namorado, etc) triunfa diante da brutalidade. Como diz Hugo em uma performance cheia de ternura e calor humano de Colman Domingo (um contraste com o inescrupuloso Joe Jackson que interpretou em Michael), é a empatia, a capacidade de ver e acreditar no outro, de cooperar e coexistir, que permitiu chegar onde chegamos.
Por isso o final em aberto. Spielberg
não quer nos impor uma conclusão, uma moral acerca do vimos, ele quer nos
conclamar a acreditar também, se iremos aceitar ou rejeitar a perspectiva que
ele oferece depende de nós. Ao deixar em aberto ele chama o espectador a
preencher a lacuna com sua própria crença. Se aquilo irá resultar em união ou
conflito fica a nosso cargo. É um pedido, não uma imposição, por empatia e compreensão.
Nota: 9/10
Trailer

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