segunda-feira, 29 de junho de 2026

Crítica – Anatomia do Caos

 

Análise Crítica – Anatomia do Caos

Review – Anatomia do Caos
Os anos de pandemia foram tão traumáticos que às vezes sinto que não sou a mesma pessoa que eu era antes da contaminação global de COVID-19. Aqui no Brasil, especificamente, tivemos que lidar com um governo anti-ciência que se recusava a seguir as recomendações sanitárias recomendadas e, ao invés disso, insistia em manter tudo funcionando sob a justificativa de “não prejudicar a economia” e inventava tratamentos milagrosos que não funcionavam e que não conseguiram nem evitar mortes, nem preservar a economia. O resultado foram mais de setecentos mil mortos e um atraso no início da vacinação. Em 2021 a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da COVID-19, ocorrida no âmbito do senado federal serviu para lançar luz nos desmandos, omissões e incompetência do governo federal de então e é sobre isso que trata o documentário Anatomia do Caos.

Holocausto brasileiro

O documentário acompanha os trabalhos da CPI da COVID, construindo uma linha do tempo das investigações e contextualizando os eventos pandêmicos que aconteciam no Brasil enquanto a CPI se desenrolava. A produção recorre a imagens feitas durante a CPI, além de imagens de arquivo com reportagens e falas do então presidente Jair Bolsonaro. O documentário traz também imagens de bastidores dos senadores que lideravam a CPI, como Randolfe Rodrigues, Renan Calheiros e Omar Aziz, nos dando um inédito vislumbre nas articulações de como eles debatiam o que investigar, analisavam os fatos descobertos ou se preparavam para inquirir depoentes.

Essas imagens talvez sejam a principal contribuição do filme para ampliar nosso entendimento do que aconteceu na CPI, já que o grosso das audiências que a narrativa mostra foram amplamente televisionadas e acompanhadas pela mídia. Nesse sentido, quem acompanhou a CPI à época do que estava acontecendo, como é o meu caso, terá pouca informação nova a extrair das cenas de audiências.

Isso não significa que não há valor na curadoria de imagens e na linha do tempo que o filme constrói. Ele faz um importante trabalho de resgate e organização de arquivo que observa os eventos de maneira bastante didática, preservando para a posteridade uma memória dos acontecimentos pandêmicos e como muito do caos e das mortes que ocorreram no Brasil não foram por acidente ou tragédia, mas parte de um projeto do então governo federal.

Nesse sentido, a montagem é eficiente de contrapor cenas da CPI nas quais os senadores questionam as figuras do governo e suas ações durante a pandemia com falas do presidente Bolsonaro, deixando evidente a postura anti-ciência, autoritária, irresponsável, insensível e desdenhosa do presidente, como em falas nas quais ele diz que lamenta, mas que não é coveiro ou quando ele imita alguém com falta de ar por conta da doença durante a crise de falta de oxigênio hospitalar no estado do Amazonas. As cenas da CPI lembram como esse estado serviu de cobaia para as ideias equivocadas do executivo federal, como imunidade de rebanho ou tratamento precoce, tornando o governo responsável por várias mortes no estado, revelando também a incompetência durante os dias de falta de oxigênio no Estado.

Ágio macabro

Assistir os depoimentos de figuras execráveis que defendiam tratamentos sem validade cientifica através de estudos frágeis e inconsistentes trouxe de volta memórias da época da pandemia e o sentimento de revolta com a desfaçatez e falta de escrúpulos desses indivíduos, alguns que sequer tinham qualquer atuação ou conhecimento de saúde pública, como o dono da rede de lojas Havan, um dos vários empresários aliados do então presidente que contribuiu ativamente para espalhar desinformação acerca da doença. Difícil não sentir o sangue ferver ao ouvir o testemunho de uma ex-funcionária da Prevent Senior dizendo que tinham ordens de deixar os pacientes morrerem para liberar leitos porque “óbito também é alta”. Imagino que reavivar essa revolta seja parte da intenção do documentário, já que a despeito de tudo que foi descoberto durante a CPI ninguém respondeu por nada como deixam claros os letreiros do final, alguns até se fortaleceram politicamente.

A revolta vem também com os depoimentos de pessoas que perderam familiares durante a pandemia, o mais tocante talvez seja o do homem do Rio de Janeiro que perdeu o filho e fez questão de recolocar as cruzes postas na praia para homenagear os mortos e que foram retiradas por apoiadores do presidente que negavam a realidade brutal da pandemia. Durante o filme, me perguntei se seriam realmente necessárias as imagens com falas de apoiadores do presidente durante as várias manifestações convocadas por ele, na qual indivíduos repetiam informações falsas ou platitudes vazias sobre o presidente ser o melhor para país. Quando cheguei no depoimento do homem das cruzes, no entanto, entendi que elas estavam ali para mostrar a escalada do ódio vil que tornava esses apoiadores do presidente em pessoas insensíveis ao sofrimento ao seu redor.

Por outro lado, a tentar condensar meses de CPI em cerca de noventa minutos o filme acaba passando rápido demais por vários eventos, às vezes dando a impressão de não trazer de maneira mais contundente as várias evidências de algumas acusações feitas pela comissão. Senti vontade de saber mais sobre alguns elementos contextuais que o filme traz de maneira muito breve, como o impacto da pandemia em comunidades indígenas, algo que mesmo a cobertura midiática da época falou muito pouco e seria algo que o documentário poderia expandir o nosso entendimento a respeito do que aconteceu na época, embora eu entenda que o escopo principal era a CPI.

Assim, mesmo que condensando vários eventos complexos, Anatomia do Caos faz um importante trabalho de preservar a memória do caos pandêmico vivido no Brasil e como, apesar das evidências coletadas, falhamos em punir os responsáveis pelo agravamento do contágio.

 

Nota: 6/10


Trailer


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