O bom pastor
O pastor Greg (Hugh Jackman) cuida de suas ovelhas com carinho, cultivando apenas a lã delas e se recusando a abatê-las. Ele lê toda noite para elas livros de mistério, que fascinam as criaturas. Quando Greg é misteriosamente assassinado e o rebanho corre risco de ser levado a um abatedouro, as ovelhas decidem investigar o crime, já que Tim (Nicholas Braun, de Succession) o aparvalhado policial da pequena cidade em que moram não parece capaz de lidar com a tarefa. A líder das ovelhas é Lily (Julia Louis-Dreyfus), a quem Greg considerava a mais inteligente, sendo ajudada pelo rebelde Tião (Bryan Cranston) e por Mimoso (Chris O’Dowd), uma ovelha que tem uma memória infalível.
A narrativa estabelece bem a relação de Greg com as ovelhas antes do crime, dando o devido peso à morte dele e o modo como ele protege seu rebanho. Apesar de aparecer pouco, o carisma de Hugh Jackman é fundamental para transmitir a conexão do pastor com seus animais e o carinho que ele tem por eles. A narrativa brinca com os lugares-comuns desses mistérios ao estilo Agatha Christie, com as ovelhas usando o conhecimento de anos de histórias de detetive para desvendar o crime.
Além de extrair humor desses clichês da narrativa policial, o filme também deriva muito da comédia de sua premissa insólita, como as reações do povo da vila ao ver as ovelhas perambulando pela cidade ou o esforço das ovelhas em aprender elementos da vida humana. O diálogo em que Tião tenta explicar o conceito de Deus para as demais ovelhas, por exemplo, é divertidíssimo. A vila é povoada por tipos excêntricos que compõem o plantel de suspeitos, do açougueiro Ham (Conleth Hill), passando pelo padre da vila, o enxerido jornalista Elliot (Nicholas Galitzine), a mau humorada dona da pousada Beth (Hong Chau) ou a misteriosa e recém chegada filha de Greg, Rebecca (Molly Gordon, de O Urso).
Família e rebanho
Em meio a todo o mistério e humor, a trama ainda encontra um inesperado espaço para o drama conforme desenvolve as relações entre ovelhas. Se alguém me dissesse que eu iria me emocionar com ovelhas de computação gráfica, eu diria que essa pessoa está maluca, mas o filme consegue fazer o espectador nos importar com esses animais e com as interações entre eles. O momento em que Tião revela que foi resgatado por Greg de um circo que fazia rinhas de animais nos faz sentir a dor do animal e o motivo dele se manter distante dos demais, com a performance vocal de Bryan Cranston nos carregando pelos sentimentos do personagem. Quando Tião finalmente passa a se considerar parte do rebanho e se arrisca para ajudar os demais, é um momento impactante por conta da construção do personagem até aquele momento.
A trama usa a relação das ovelhas, tanto entre si como com Greg, bem como a tentativa de Greg em se reaproximar da filha, para ponderar sobre família e coletividade. Mesmo que sejamos diferentes uns dos outros e pareçamos distantes, são aqueles ao nosso redor e com quem construímos laços de convivência com quem podemos contar e ter uma rede de apoio conosco faz toda a diferença. É também um filme sobre memória, considerando que as ovelhas tem o hábito de se fazerem esquecer qualquer memória dolorosa e apenas Mimoso é capaz de se lembrar das coisas. Em um diálogo entre Lily e Mimoso, as ovelhas ponderam que manter as memórias dolorosas é o que nos prepara para lidar com situações similares no futuro e que uma população sem memória pode ser facilmente ludibriada.
Não esperava encontrar toda essa
construção emotiva e discussão temática em um filme com uma premissa tão
pitoresca e o texto escrito por Craig Mazin (de Chernobyl e The Last of Us)
transita com muita fluidez entre essas várias ideias, entre o drama, a comédia
e o mistério, fazendo de As Ovelhas
Detetives um produção bem singular.
Nota: 8/10
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