Vil metal
A trama segue Patrícia (Giovanna Antonelli), uma policial civil que mata o irmão de um chefão do crime organizado durante um tiroteio. Temendo retaliação, seus companheiros sugerem que ela desapareça por um tempo e Patrícia viaja ao Pará para visitar a filha, Luiza (Alice Wegmann), que atua como médica em comunidades indígenas. Durante uma visita a uma comunidade afetada pelo garimpo ilegal da região, a aldeia é atacada por garimpeiros que matam uma garota indígena. Um dos jagunços dos garimpeiros é feridos por flechas e Luiza é levada para tratar o rapaz, que é filho do líder do garimpo, Polaco (Antonio Calloni). Agora Patrícia precisa entrar no território indígena sozinha, sem apoio das autoridades, para resgatar a filha.
O diretor Gustavo Bonafé, que dirigiu produções como Chocante (2017), conduz sequências de ação competentes, com bons momentos de tensão, a exemplo da cena em Patrícia é amarrada em uma canoa furada cheia de pedras e deixada para morrer. O filme mostra o desmatamento e a devastação causada pelo garimpo no meio ambiente, mas dá muito pouco espaço para que sintamos de fato o impacto que isso causa nas comunidades indígenas ao redor. Vemos como o garimpo existe lado a lado da corrupção das autoridades, que permitem a invasão ilegal das terras indígenas ao invés de proteger a floresta e os povos originários que vivem nela, ponderando a respeito de como o Estado é corresponsável e conivente com o garimpo.
Nativos marginalizados
Por outro lado, incomoda o tanto que a narrativa é focada nos personagens brancos a despeito de suas intenções de falar de como o garimpo e mesmo esses personagens carecem de substância. Giovanna Antonelli é ótima em exibir a confiança durona de Patrícia, mesmo que o filme não nos diga isso explicitamente, o modo como ela se porta e como fala com os garimpeiros evidencia que ela é uma investigadora eficiente que já sobreviveu a muita coisa e já está acostumada a lidar com pessoas violentas. A policial, não tem muito mais além de ser alguém focada em resgatar a filha. Alice Wegmann, por outro lado, acaba não tendo muito o que fazer como refém dos garimpeiros.
Antonio Calloni e Felipe Simas trazem uma presença intimidadora como os líderes do garimpo, funcionando como vilões embora não tenha muito mais em seus personagens do que serem sujeitos brutos e sem escrúpulos. O único personagem indígena com algum destaque é Mário (Fidelis Baniwa), mas mesmo ele está ali mais para avançar as narrativas das personagens brancas do que para oferecer uma perspectiva mais consistente da relação da população indígena com a ameaça do garimpo. O personagem se manifesta principalmente a partir das narrações que percorrem o filme e que são falas excessivamente didáticas que contam mais do que mostram. Provavelmente teria rendido um filme mais interessante se a história fosse toda a relação complicada de Mário com o garimpo e como ele se afastou do seu povo e agora buscava redenção do que ele ser um coadjuvante à margem da história de Patrícia. Do jeito que está, o filme reforça os clichês do “salvador branco” que precisa intervir para ajudar nativos que seriam incapazes de se salvarem sozinhos ou assumir o protagonismo das próprias histórias.
Apesar de alguns bons momentos de
suspense, Rio de Sangue deixa a
desejar no modo como representa as tensões causadas pelo garimpo ilegal,
deixando as populações mais afetadas pelo problema com pouca voz na trama.
Nota: 5/10
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