quarta-feira, 8 de julho de 2026

Rapsódias Revisitadas – O Sol é Para Todos

 

Análise – O Sol é Para Todos

Review – O Sol é Para Todos
Recentemente terminei de ler o romance O Sol é Para Todos de Harper Lee e resolvi assistir a adaptação para os cinemas de 1962 estrelada por Gregory Peck que nunca tinha assistido. O filme O Sol é Para Todos é bem fiel à obra premiada de Harper Lee reverbera as ponderações do texto original sobre igualdade e justiça, principalmente no contexto do sul dos Estados Unidos na época da Grande Depressão.

Velha infância

A narrativa se passa no Alabama na década de 1930, em uma pequena cidade chamada Maycomb. As crianças Scout (Mary Badham) e Jem (Philip Alford) passam suas férias brincando e especulando sobre o recluso filho dos Radley, que toda vizinhança diz ser louco e nunca é visto por ninguém. O cotidiano das crianças muda quando o pai delas, o advogado Atticus Finch (Gregory Peck), é apontado como defensor público de um rapaz negro acusado de ter estuprado uma garota branca. O julgamento faz as tensões na cidade crescerem e as crianças, que nunca viram algo parecido, tentam navegar a situação e entender o motivo da comoção.

O livro passa boa parte do terço inicial nos apresentando à cidade de Maycomb através do cotidiano da menina Scout (que narra a história em primeira pessoa) e seu irmão Jem, aos poucos nos apresentando os habitantes da cidade, a dinâmica do lugar e as questões sociais e econômicas que envolvem os moradores. É algo que dá a impressão de que a narrativa caminha a esmo, mas oferece um contexto essencial para todo o embate de raça e classe social que acontece no centro do julgamento de Tom Robinson (Brock Peters). No filme, porém, a narrativa já entra direto nos eventos envolvendo Tom, com o juiz da cidade convocando Atticus para a defesa do rapaz já nos primeiros minutos.

Isso ajuda a dar um senso maior de urgência à narrativa e a torná-la mais ágil, mas sacrifica algumas questões temáticas do romance. O texto de Harper Lee nos faz entender que Bob Ewell (James Anderson) não é apenas um caipira bruto e ignorante, mas alguém que parece satisfeito em chafurdar na miséria e arrastar toda família junto com ele, sendo visto como um pária na cidade, alguém a se evitar, mesmo entre os brancos. A posição social dos Ewell é importante para mostrar a severidade do racismo da região, já que mesmo sendo alguém que todos sabem ser um mau caráter e ninguém da cidade gostar dele, ainda assim preferem tomar seu partido por ser um homem branco contra um negro.

Ao situar a trama nas crianças, que navegam por um conflito de classe e raça talvez pela primeira vez na vida, o filme desvela aos poucos as injustiças do racismo e o lado sombrio do ser humano. É uma história sobre perda de inocência, sobre ver um lado feio do mundo que muitas vezes não temos noção que existe quando ainda somos pequenos. Por outro lado é também uma história sobre proteger a inocência, algo presente no título original no romance e do filme.

É um pecado matar um rouxinol...

A fala de Atticus para as crianças sobre ser errado matar um passarinho que não faz nada a não ser cantar simboliza a mensagem central do filme a respeito da justiça. A inocência deve ser protegida e é errado atacar alguém que não fez nada de errado. A narrativa aborda isso em duas instâncias. A primeira delas é obviamente Tom Robinson, já que durante o julgamento Atticus consegue demonstrar que Tom não poderia ter cometido o crime e que foi o próprio Bob Ewell que agrediu a filha ao perceber que ela, uma garota branca, estava interessada em um homem negro.

Tom é apenas um sujeito que estava no lugar errado e na hora errada, que tentou ser gentil com uma garota que parecia ser solitária e precisando de ajuda e foi rechaçado com ódio e acusações que destruíram sua vida. Alguém que é tratado como mentiroso e criminoso apenas pela cor da sua pele e mesmo toda argumentação consistente de Atticus não consegue ultrapassar o racismo dos demais habitantes da cidade.

Gregory Peck faz um Atticus bem fiel ao do livro, um sujeito que já vivenciou sua parcela de injustiças, mas que se mantem fiel aos seus princípios. Alguém que não compromete sua retidão moral e faz o que acredita ser certo mesmo que os demais desaprovem, como assumir a defesa de Tom Robinson. Ele traz consigo um ar de cansaço, de alguém desgastado pelas dificuldades da vida, embora, de algum modo, não tenha perdido sua ternura. Há um afeto bem verdadeiro nas interações dele com os filhos e no modo como ele tenta explicar de maneira acessível para as crianças a vileza do racismo ou a importância de sermos capazes de nos colocar no lugar dos outros. A cena em que Atticus atira em um cão raivoso que assusta o bairro serve para mostrar que ele domina bem o uso de uma arma e que sabe usar a violência para resolver as situações, no entanto, ao longo do filme, ele escolhe não recorrer a isso.

Mesmo quando sabe que uma multidão raivosa irá tentar matar Tom na delegacia da cidade, ele vai sozinho e desarmado proteger seu cliente. Ele senta na porta da delegacia acreditando que será capaz de acalmar os ânimos com suas palavras, usando a razão e não a agressividade, embora saibamos que ele poderia usar a força. Como a narrativa nos mostra que isso é uma escolha consciente de Atticus de não recorrer a violência mesmo em situações que estaria autorizado a fazê-lo (como na cena em que Bob Ewell cospe em seu rosto), isso reforça a solidez de seu caráter e senso de valores.

A outra figura inocente a ser protegida é o recluso Boo Radley (Robert Duvall, em seu primeiro papel no cinema). Ao longo da história Scout e Jem parecem formar uma conexão silenciosa com Boo em suas incursões à casa dos Radley para tentar desvendar o mistério de Boo nunca ser um recluso. No final da história finalmente vemos Boo quando ele protege os filhos de Atticus da vingança de Bob Ewell e descobrimos que ele é só um jovem com limitações cognitivas. O desfecho coloca Atticus diante de um desafio moral quando o xerife Heck (Frank Overton) propõe dizer que Ewell morreu sozinho (é uma história de mais de sessenta anos, nada disso é spoiler). Por um lado, Atticus vê como um desvio moral mentir sobre o que aconteceu, mas ao olhar para Boo ele percebe que colocar diante do escrutínio da cidade um rapaz que provavelmente nem tem noção exata do que fez seria um erro e provavelmente só traria mais sofrimento. Boo vive em casa, sem sair e sem fazer nada a ninguém, só tendo interferido no ataque de Ewell a Scout e Jem por ter se afeiçoado aos dois anteriormente. Scout lembra ao pai a própria metáfora que ele fez sobre passarinhos e Atticus toma sua decisão.

Questões de adaptação

Já que assisti o filme pouco tempo depois de ler o livro e com muito dele fresco na cabeça, quero falar também de como o filme se relaciona com o livro e das escolhas de adaptação que faz. Como mencionei ao longo do texto, a trama do filme desde o início já foca na trama do julgamento de Tom Robinson e, embora esse também seja o eixo principal do romance de Harper Lee, esse foco deixa de fora outro eixo narrativo que também é bastante presente. No romance a história é narrada em primeira pessoa por Scout e um elemento constante na narrativa é como essa garota navega por essa sociedade rígida e cheia de preconceitos, sendo constantemente cobrada para ser mais “feminina”.

O filme aborda isso de maneira mais passageira, como na cena em que ela se mostra incomodada em ter que usar vestido para ir na escola, mas no livro a todo momento Scout lida com outras pessoas reclamando de sua postura mais “moleca”, de brincar com os meninos e de não querer usar vestidos. Há toda uma subtrama da tia que vai morar com eles para ajudar na educação de Scout que é deixada de lado. Não digo que isso é um problema em si, já que um filme tem um tempo relativamente limitado e ele já é longo com quase duas horas e dez minutos, então é mais uma escolha em relação ao que priorizar, tal como as recentes adaptações de Duna focam bem no aspecto religioso e deixam de lado muito da discussão tecnológica do livro de Frank Herbert.

O que é um problema nessa escolha do foco no racismo, por outro lado, é a pouca voz dos personagens negros. No romance Calpúrnia (Estelle Evans), a empregada dos Finch, é muito mais presente, conversando com Scout sobre a dinâmica racial da região e até levando os filhos do patrão para o bairro negro em que ela mora, permitindo que as crianças (e o leitor) ouçam da própria comunidade negra da cidade como eles se sentem em relação ao que está havendo. No filme, no entanto, Calpúrnia é meramente a empregada, como muito pouco a dizer. Do mesmo modo, durante o julgamento Scout e Jem assistem tudo ao lado de membros da comunidade negra e acompanham as reações deles. Isso até acontece no filme, mas o foco é a atuação de Atticus como advogado de defesa e não o modo como as crianças veem e o que elas ouvem durante o processo. Assim, enquanto o livro dava alguma voz aos personagens negros para que eles falem sobre racismo, aqui é praticamente tudo discutido pelos brancos.

Claro, a arte precisa ser analisada dentro do contexto de produção e a Hollywood dos anos 60 era um espaço de poucas oportunidades de protagonismo negro, com esse filme sendo um reflexo disso, o que não significa que isso não chame atenção quando observamos a obra a partir dos parâmetros e sensibilidades contemporâneas.

As escolhas de adaptação do filme agilizam a trama principal, embora deixem de lado alguns outros elementos temáticos, mas consegue se manter fiel ao romance em sua discussão sobre justiça, preconceito e humanismo.


Trailer

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