sexta-feira, 3 de julho de 2026

Crítica – Obsessão

 

Análise Crítica – Obsessão

Review – Obsessão
É interessante quando um filme pega um tropo conhecido e o desloca em termos de gênero narrativo e o que tem a dizer sobre ele. A premissa da “poção/feitiço” do amor já foi usada em inúmeras comédias e filmes românticos, mas em Obsessão o diretor Curry Barker desloca a história para o horror e também mudando o olhar que tem para o protagonista desse tipo de história.

Cuidado com o que deseja

Bear (Michael Johnston) é um jovem tímido que trabalha em uma loja de instrumentos musicais e é apaixonado desde a época de escola pela colega de trabalho Nikki (Inde Navarrette). Seu melhor amigo, Ian (Cooper Tomlinson), o instiga a se declarar para ela, já que Nikki parece ver Bear só como amigo. Quando chega o momento dele se declarar para ela em uma festa, Bear perde a coragem percebendo que ela não tem interesse nele. Sem esperanças, ele decide usar um artefato que comprou em uma loja esotérica, um galho que supostamente atende o desejo que você faz quando o quebra. Bear deseja que Nikki o ame mais do que qualquer coisa do mundo e ela imediatamente passa a idolatrá-lo.

Eu poderia dizer que o filme troca um tropo por outro, mudando da premissa da “poção do amor” para a premissa do “cuidado com o que deseja”, no entanto, não é tão simples. Digo isso porque o filme também altera o olhar que seria tipicamente feito sobre alguém, não transformando-o em vítima da situação e expondo a moralidade problemática de suas ações. Inicialmente o protagonista parece o típico nerd bem intencionado, mas solitário e socialmente desajeitado que tem dificuldade de se aproximar da garota extremamente atraente de quem gosta. É o sujeito que seria facilmente enquadrado como um “cara legal” que pode não ser atraente ou atender padrões típicos de masculinidade, mas sua boa natureza o tornaria um par ideal para alguém como Nikki. É o protagonista que, se estivesse em uma comédia romântica, iria aprender ao longo da narrativa que ele ama Nikki por tudo que ela é e que fazê-la se apaixonar por ele tirou a essência da garota, então ele reverteria a poção e iria conquistá-la de verdade no final. Aqui, com o enquadramento de terror, o filme parece inicialmente colocar Bear como vítima da situação, mas logo desvela facetas mais sombrias ao seu respeito.

Por conta do desejo, Nikki se torna cada vez mais fixada em Bear, não permitindo que ele se afaste dela ou agindo com agressividade contra qualquer pessoa que se coloque entre eles. Ela também se descontrola cada vez que percebe que Bear não demonstra amá-la. Nikki é o “monstro” desse filme de terror, mas não é sua presença que causa apreensão e sim sua ausência. Quando Bear está do lado dela e satisfazendo as necessidades dela, tudo está relativamente calmo, é só quando Nikki não está por perto que as coisas ficam imprevisíveis. Isso é ressaltado pelo modo com as coisas são filmadas, com Bear enquadrado com espaços vazios no enquadramento, como se Nikki pudesse entrar em cena a qualquer e os fundos desfocados, nos deixando sem visão clara dos espaços e de onde ela possa estar. Tratar Nikki como o “monstro” poderia descambar para um olhar machista que ressalta o quanto mulheres são desequilibradas e Bear é um coitado, porém o filme usa essa premissa para desvelar o que há de tacanho por trás do arquétipo do “cara legal”.

O adorável misógino

A primeira coisa que começa a minar a ideia de que Bear é um “cara legal” que se envolveu em um problema são os vislumbres da Nikki real que em alguns momentos ganha consciência e sai do controle do feitiço, imediatamente reagindo com horror e desespero ao se ver sob o controle de Bear. Mesmo diante dessas demonstrações de que talvez haja algo errado, o protagonista não se importa, já que conseguiu a garota dos sonhos, não se importando muito se Nikki de verdade quer estar com ele ou se seu corpo está sendo controlado pelo desejo.

Nesse sentido, é impossível não mencionar o trabalho de Inde Navarrette e como ela transita pelas várias nuances de Nikki. De início ela tem algo de adorável e apaixonante, nos fazendo entender porque Bear gosta dela, embora, ao mesmo tempo, no modo como ela fala e olha para ele a atriz deixa evidente que Nikki não tem muito interesse amoroso ou romântico no colega e parece incomodada com as tentativas dele em se declarar, revelando que há um olhar idealizado de Bear a respeito dela. Depois de estar sob efeito do desejo as expressões faciais dela demonstram uma artificialidade perturbadora na submissão e demonstrações de afeto de Nikki, como se ela fosse uma marionete operada por forças invisíveis e não uma pessoa agindo pela própria vontade. Esses momentos são interrompidos pelo que parecem ser lampejos de consciência de Nikki, nos quais ela retoma o controle do corpo e se afasta de Bear com gritos de horror enquanto diz que não quer nada daquilo, uma transição abrupta que Navarrette faz soar bastante genuína, amplificando o horror da situação. Por outro lado, o uso da música nessas situações, com acordes bem graves e demorados, acaba sendo excessivamente intrusivo, interferindo mais do que colaborando com as cenas.

Bear só começa a se incomodar com a conduta de Nikki quando ela começa a levar as coisas a extremos, como usar fita adesiva na porta para que ele não saia para ir trabalhar ou quando ela dá chiliques em público por perceber que ele não gosta dela com a mesma intensidade que ela gosta dele. Esse incômodo com Nikki é movido mais pelos problemas que ela traz ao cotidiano dele e menos por se preocupar pelos danos que ela pode fazer a si mesma ou pelo que o desejo está fazendo com ela. Isso fica evidente nas conversas com os amigos nas quais eles se dizem surpresos com a guinada de Nikki, em como ela se apegou a Bear apesar de anos sem interesse nele. Nesses momentos Bear se mostra incomodado com as falas dos colegas, quase se sentindo ofendido com eles estranharem que Nikki tenha se interessado por ele, afinal, ele é um “cara legal”, ele tratava ela bem, comprava coisas para ela, portanto ele “merece” que ela o note, ela deve alguma reciprocidade aos sentimentos dele, certo? Errado, errou feio, errou rude. Mulher alguma deve afeto ou sexo a um homem só porque ele supostamente a tratou bem.

Isso desvela o quanto esse tipo de personagem aparentemente adorável em sua falta traquejo social ao ponto de precisar manipular uma mulher para ficar com ele é, na verdade, tão misógino quanto os demais homens dos quais ele julga ser diferente. Se há alguma dúvida de Bear é o abusador da situação, o filme evidencia essa dinâmica na cena em que a Nikki “real” fala enquanto seu corpo está dormindo. Ela pede para que Bear fale baixo para não acordar o corpo enquanto suplica para que ele a mate, que morrer seria melhor do que continuar vivendo daquele jeito e Bear apenas questiona o porquê ser tão ruim viver com ele e Nikki responde que ela nunca esteve de fato com ele, deixando claro que a Nikki do desejo não é ela.

Nesse momento ele demonstra, para além de qualquer dúvida, que entende que a Nikki “real” não sente nada por ele, não quer ficar ali e está fazendo tudo aquilo contra a própria vontade. Ela é uma refém de Bear e ele não importa nem vê problema com isso, ele foi legal com ela (na ótica dele ao menos), portanto a merece, independente da vontade de Nikki.  A cena em que faz sexo com Nikki enquanto ela vira o rosto para o lado com um olhar distante deixa evidente a natureza abusiva da relação, que aquilo que vemos é essencialmente um estupro.

Trauma contínuo

Mesmo quando Bear desesperadamente tenta cancelar o desejo ou libertar Nikki durante o clímax, ele o faz mais por si mesmo, pelo medo de arcar com as consequências dos vários assassinatos ou do que Nikki pode fazer contra ele em sua obsessão doentia, do que por amor a Nikki e o desejo de parar o sofrimento dela. Tanto que ele inicialmente que refazer o desejo de modo a torná-la menos obcecada. Ele não se importa em tê-la como refém, desde que possa mantê-la sob controle. A narrativa constrói a ideia de que ele não sente nenhum afeto real por Nikki, ele a via apenas como um objeto, que ele não gostava dela por quem ela era, mas por uma fantasia que construiu dela e que queria que ela correspondesse a essa fantasia independente da vontade da própria Nikki. Até mesmo a decisão final de Bear é movida mais pela vontade de não ter que arcar com a responsabilidade ou as consequências do que fez do que como um ato de amor ou abnegação para libertar Nikki. O macabro desfecho reforça isso ao nos deixar com uma Nikki horrorizada e traumatizada que provavelmente irá ser culpabilizada por tudo que aconteceu, com Bear sendo tratado como uma de suas vítimas.

É um final que impacta tanto pelo senso de horror sem fim no qual Nikki é colocada quanto pelo modo como ele simbolicamente reflete situações de abuso no mundo real no qual a vítima termina com a sociedade a tratando como culpada enquanto o abusador sai como vítima.

 

Nota: 8/10


Trailer

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