Limiar coletivo
A trama acompanha Clark (Chiwetel Ejiofor), um sujeito solitário e frustrado que é dono de uma loja de móveis. Um dia ele descobre uma espécie de portal no porão de sua loja. Quando o atravessa vai parar em um espaço que parece um grande galpão ou prédio de escritórios, com cores neutras e luzes frias, e se estende infinitamente aparentemente sem propósito algum. Ele conta isso para sua terapeuta, Mary (Renate Reinsve, de Valor Sentimental), que acha que tudo é uma fantasia do paciente. Quando Clark desaparece, no entanto, Mary vai até a loja procurá-lo e acaba entrando no portal.
A ideia que é qualquer espaço urbano pode esconder uma entrada para esses espaços liminares já que a própria configuração das cidades nos EUA parece feita para grandes espaços que podem ser qualquer coisa e deixam tudo com uma aparência genérica. Espaços nos quais pessoas transitam, mas que não são habitados, como se as cidades fossem um enorme espaço de transição.
Tanto que mesmo fora das backrooms os lugares pelos quais os personagens transitam são marcados por uma padronização excessiva que os deixa sem personalidade, como o condomínio no qual Clark vai falar com uma funcionária ou o hospital que aparece nos flashbacks de Mary. O que eles encontram quando atravessam no portal é uma espécie de versão deturpada, sombria, do que existe no mundo, como se fosse uma recriação desgastada pela memória, piorada, imprecisa.
Inconsciente manifesto
É uma ideia interessante, principalmente quando parece que a escolha de Clark de se refugiar nesses espaços se dá justamente porque lá ele pode ser o que ele quiser, não precisa confrontar que foram suas escolhas, não as ações de outros que levaram à sua vida de solidão, frustração e alcoolismo. Ele acha que ali tem uma tábula rasa para escrever a própria história do jeito que bem entender. Clark só não se deu conta que suas próprias cópias sombrias vagam pelos corredores e ele não tem como barganhar ou controlar essa versão de si, sendo atacado pela manifestação física de suas piores facetas.
Quando penso que o filme vai investir nessa dimensão mais psicológica e colocar seus personagens, incluindo Mary, para confrontar seus traumas e inquietações, o filme prefere tentar expandir a mitologia desse universo em um clímax que soa mais interessado em abrir caminho para continuações e spin offs do que em desenvolver os dois personagens que apresenta. Sim, Mary de certa forma termina presa em seu próprio trauma de infância, mais uma vez colocada em um espaço do qual não pode sair e com seus traumas já absorvidos pelos backrooms com sua própria cópia torta. É, no entanto, um desfecho que não impacta como deveria porque o filme não deu muito espaço para trabalhar os problemas dela ou de Clark, usando eles como mero pretexto para explorar os espaços liminares.
Como terror também não é particularmente assustador ou tenso. O design de produção é competente em criar espaços que perturbam pelo misto entre familiaridade e estranhamento, além de uma impressão de algo que se estende infinitamente por conta de corredores sinuosos e ilusões de ótica. A despeito disso e de alguns momentos sinistros, como a sequência em que Mary é perseguida por uma versão deformada de Clark, o filme não oferece muito para nos manter na beira do assento. As cenas de câmera na mão não acrescentam muita coisa, recorrendo aos expedientes já batidos de filmes found footage tornando os sustos ou momentos de tensão fáceis de prever.
Eu queria ter gostado mais de Backrooms: Um Não-Lugar, mas a impressão
que ele deixa é de um filme tão deslumbrado com as próprias ideias que não consegue
desenvolvê-las em algo consistente.
Nota: 5/10
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