O cinema de Nolan sempre se estruturou em narrativas não lineares, então é lógico que ele se interessaria por uma das primeiras narrativas ocidentais (talvez a primeira, mas estou enferrujado em história da arte) a contar sua história fora de ordem cronológica. Seus filmes também são carregados de metalinguagem, ponderando sobre o poder das histórias e dos mitos que elas criam, muitas vezes ocultando verdades sombrias que não queremos confrontar. O poema épico escrito por Homero em uma das peças artísticas mais basilares da cultura ocidental e aqui Nolan desvela algumas noções brutais que o olhar mitificado para a jornada de Odisseu (ou Ulisses, dependendo da tradução) pode ocultar, principalmente diante de um olhar contemporâneo.
Viagem difícil
A narrativa se passa dez anos depois do fim da guerra de Troia. Boa parte dos sobreviventes já voltou, mas Odisseu (Matt Damon), o rei de Ítaca, não regressou e seu paradeiro é desconhecido. Dezenas de pretendentes ocuparam Ítaca, desejando convencer a rainha Penélope (Anne Hathaway) a casar novamente. Telêmaco (Tom Holland), filho de Odisseu, está farto do abuso desses pretendentes, em especial do ardiloso Antinoo (Robert Pattinson), e decide buscar informações do paradeiro do pai, viajando até Esparta para inquirir Menelau (Jon Bernthal). Enquanto isso, Odisseu está preso em uma ilha com Calipso (Charlize Theron), que usa flores de lótus para nublar sua memória e mantê-lo sob seu controle, mas aos poucos, com a ajuda de Athena (Zendaya), Odisseu lembra quem é e da jornada que o levou ali.
Quando as primeiras informações do filme começaram a sair, muitos temeram que Nolan fosse retirar os elementos de fantasia (como fez Wolfgang Petersen em Troia), o que provavelmente traria problemas, já que sem monstros, magia e deuses, Odisseu seria só um cara que não sabe velejar. Felizmente esses elementos estão mantidos e, em geral, o filme lida bem com as intervenções divinas, inserindo certa ambiguidade nelas, deixando em dúvida se há algo de divino nos infortúnios daqueles soldados ou se é apenas superstição.
Em outros momentos o filme é mais explícito, com o ciclope Polifemo aparecendo como uma figura grotesca ou os gigantes lestrigões parecendo inimigos impenetráveis por seu tamanho e armadura. Talvez o mais surpreendente tenha sido a solução visual para mostrar a magia de Circe (Samantha Morton) transformando os soldados de Odisseu em animais. A feiticeira usa as mãos para moldar os corpos dos homens, alterando-os de maneira grotesca e aparentemente dolorosa, enfiando a mão em suas bocas para manipular suas entranhas ou manejando seus rostos como uma artesã esculpe barro. Por outro lado, a criatura Cila decepciona ao ser apenas uma massa amorfa de tentáculos cinzentos.
Memórias de guerra
Ainda que tenha esses elementos fantasiosos, a viagem de Odisseu não apenas a de um homem submetido a infortúnios criados pelos deuses é alguém lutando contra os próprios traumas e as memórias do que fez na guerra. Continuadamente personagens sugerem que ele está tornando as coisas mais difíceis do que deveriam ser ao desafiar os presságios sobre seu retorno ou a própria natureza da conduta de seus homens, como se não quisesse voltar para casa. Aos poucos entendemos o que move esse personagem. Lógico, ele quer voltar para casa, mas sua protelação se dá por não querer encarar as consequências do que fez na guerra e o trauma que isso lhe causou. Matt Damon vende bem o cansaço de Odisseu e sua obstinação em desafiar os deuses, mas por trás disso há um homem devastado pelas próprias escolhas, decisões que talvez tenham mudado para sempre o mundo como conhece e o lar para o qual deseja voltar.
Anne Hathaway, por sua vez, faz de Penélope alguém refém dos costumes de seu tempo e que tenta navegar pela situação com o limitado poder que tem. Ela ama o marido e deseja seu retorno, mas a todo momento é forçada a fazer escolhas pragmáticas para proteger o reino e seu filho. John Leguizamo interpreta o fiel criado Eumeu, alguém cuja fragilidade física contrasta com a devoção inabalável que ele tem a seus senhores. O Antinoo de Robert Pattinson é o tipo de vilão que dá gosto de odiar, um sujeito sem honra, ardiloso, manipulador e covarde, que prefere mandar lacaios para fazer o trabalho sujo ao invés de tomar a frente, ele representa a ascensão da incivilidade e barbárie que parecem se espalhar depois da Guerra de Troia.
A conquista de Troia, mostrada em flashbacks de Odisseu e Menelau, não é algo heroico, não é o momento de triunfo da astúcia de Odisseu que comumente é narrado para nós. Nas palavras de Menelau é um gambito arriscado, no qual eles poderiam ter morrido por conta da maré. Um sacrifício pesado conforme passam dias presos no cavalo em meio à própria urina e fezes como narra o rei de Esparta. É menos um ardil inteligente e mais um truque sujo (literalmente, considerando a frase anterior) no qual Ulisses usa os costumes dos troianos contra eles mesmos.
O respeito aos costumes é algo reiterado ao longo do filme. A “regra de Zeus” de tratar bem seus hóspedes porque qualquer um, mesmo um mendigo, pode ser um deus disfarçado, funciona como um pacto civilizatório que guia os vários reinos. Mesmo diante de uma ameaça Penélope e Telêmaco não querem quebrar essa regra e eliminar os pretendentes, não apenas pelo temor da ira dos deuses, mas porque entendem que quebrar esse pacto civilizatório os levaria ao exílio.
Essa quebra da civilidade é tratada como um caminho sem volta para a barbárie. Vemos isso na conduta dos soldados de Odisseu, que queimam, pilham e matam por onde passam sem se importarem com as consequências, mesmo quando o rei os alerta dos perigos. Apesar do fim da guerra de Troia, a Grécia não parece estar em paz, já que constantemente os personagens ouvem relatos de um “povo do mar” selvagem que se aproxima, como se o conflito tivesse sido um estopim para a selvageria.
Mito derrubado
Como mencionei antes, o poder das narrativas é algo comum na filmografia de Nolan. Seus filmes exploram como narrativas moldam o modo como percebemos a realidade e como usamos narrativas para esconder ou não confrontarmos aspectos que não queremos encarar o que sejam vistos. Em Amnésia (2000) Leonard Shelby (Guy Pearce) cria uma narrativa em que é um herói em busca de vingança, quando na verdade ele já tinha se vingado e tinha se tornado um assassino usa essa narrativa para continuar tendo um senso de propósito enquanto busca novas vítimas. Os irmãos gêmeos de O Grande Truque (2006) vendem seu truque de mágica sob o pesado custo de dividirem uma vida, sacrificando muito de si mesmos ou das pessoas ao seu redor para esse fim. Cobb (Leonardo DiCaprio) se aprisiona em um labirinto na própria mente em A Origem, arriscando perder seu senso de realidade, para não encarar a dor da perda da esposa. Em Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) o Batman (Christian Bale) cria uma imagem mitificada de Harvey Dent (Aaron Eckhart) para pacificar a cidade, uma mentira que depois é destruída no filme seguinte. Oppenheimer (Cillian Murphy) passa boa parte do filme criando uma narrativa sobre si mesmo na qual é apenas um cientista testando na prática conceitos teóricos para que não precise pensar nas consequências práticas de seu invento, apenas para chegar à constatação que entregou à humanidade os meios para se destruírem. Sua inteligência não foi instrumento de triunfo, mas de ruína. É impossível comentar sobre esses elementos temáticos no filme sem mencionar algumas coisas do seu desfecho, então aviso que os parágrafos a seguir contem SPOILERS do filme.
A Odisseia usa o poema de Homero para pensar nos mitos que ela construiu. Tanto a aventura de Odisseu quanto a história de Oppenheimer (2023) são contadas como narrativas sobre pessoas que heroicamente usaram sua inteligência para por fim em uma guerra. Nos dois casos Nolan tenta ir além do olhar mitificado dessas duas figuras para pensar como o legado deles não é uma vitória da inteligência, mas da violência. Assim como o inventor da bomba atômica, o desdobramento das ações de Odisseu é um genocídio. O ardil do cavalo de Troia, que no início do filme é narrado na canção de um bardo como um momento de triunfo, é posteriormente enquadrado como uma quebra do pacto civilizatório, do fim da “regra de Zeus”. Ao dar a vitória aos gregos, Odisseu também deu a eles o entendimento de que não precisam mais respeitar os pactos coletivos. Ele pôs fim a uma era de temor aos deuses para abrir caminho para uma era em que a humanidade pode fazer o que bem entender, se abrindo para a barbárie.
Odisseu não trouxe paz, ele abriu caminho para um genocídio que trouxe ainda mais instabilidade àquele lugar. Tal como a história de Oppenheimer ele iniciou uma reação em cadeia capaz de por fogo ao mundo. Ao remover o véu mítico de Odisseu, a trama revela que o legado dele não é o de heroísmo ou vitória, mas o de barbárie. A guerra é um fracasso civilizatório, uma tragédia humanística, algo que nos rebaixa enquanto seres humanos. O arco de Odisseu é reconhecer isso e entender que não pode haver espaço para barbárie se a humanidade deseja prosperar, daí a escolha final dele. O protagonista entende que se a civilização precisa se reconstruir, isso não pode ser feito por alguém maculado pela barbárie como ele foi. O diálogo final entre ele e Penélope talvez seja didático demais em trazer a mensagem de que falhamos em aprender as devidas lições das tragédias de guerras passadas.
Nesse sentido a revelação envolvendo a aparência que Athena assume perante Odisseu é bastante simbólica em mostrar como mitos ocultam verdades que não queremos encarar. A representação mítica da sabedoria que guiava o herói ocultava a memória de um de seus momentos mais cruéis e menos sábios, um lembrete do genocídio que permitiu acontecer. Do mesmo modo a revelação de que os “povos do mar” era a própria tropa do rei de Ítaca simboliza a barbárie que Odisseu liberou no mundo.
Interpretando o clássico épico
sob um olhar contemporâneo A Odisseia reflete
como histórias de guerra constroem visões mitificadas de conflitos e como
falhamos em aprender as devidas lições desse tipo de narrativa. Se no recente Dia D Steven Spielberg nos clamou para
acreditar no melhor da humanidade, aqui Nolan nos lembra que para sermos
melhores precisamos parar de repetir os mesmos erros e aprender com o passado.
Nota: 9/10
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