Poder interior
A trama acompanha Adam (Nicholas Galitzine), príncipe do planeta Etérnia que foi enviado para a Terra depois que o Esqueleto (Jared Leto) toma o poder. No percurso para o nosso planeta, ele perde a Espada do Poder, único artefato que poderia levá-lo para casa, e passa o resto da vida tentando encontrá-la ao mesmo tempo em que ninguém acredita em suas histórias. Quando finalmente encontra a espada, ele é atacado pelas tropas do Esqueleto e resgatado por Teela (Camila Mendes) que o leva de volta a Etérnia onde ele precisa dominar o poder da espada e liderar os guerreiros que restaram a enfrentarem o Esqueleto.
É uma jornada de herói bem típica, com Adam precisando encontrar seu poder interior e aprender que não é a espada ou a força bruta que faz dele um herói. Mesmo se prendendo a elementos familiares, é uma história que até poderia funcionar se bem construída, mas aqui nunca envolve como deveria por uma série de fatores que vão desde o elenco a escolhas de roteiro.
Inicialmente Nicholas Galitzine até funciona como o gentil e atrapalhado Adam, que tem um coração enorme embora não seja um guerreiro hábil. Por outro lado, ele não consegue convocar a presença, o poder de He-Man quando se transforma e falta carisma a ele como herói. A culpa não é exclusivamente dele, no entanto, já a decisão de ter o mesmo ator interpretando Adam e He-Man é o que causa isso. Seria inviável em termos logísticos filmar todas as cenas como Adam ainda franzino e depois esperar que o ator ganhasse corpo para gravar as cenas como He-Man. O resultado é que Galitzine aparece em cena marombado demais para convencer da fragilidade de Adam, com músculos prestes a rasgar sua camisa rosa, mas não está grande o suficiente como He-Man, tirando completamente o impacto da transformação. E antes que alguém comente, sim, eu sei que na animação original Adam e He-Man eram praticamente idênticos, mas isso acontecia por conta da reutilização de frames de animação por conta do baixo orçamento da série, versões posteriores deixavam diferenças entre Adam e He-Man.
Camila Mendes traz a natureza resoluta de Teela, uma guerreira fiel ao seu dever e que não se deixa intimidar pelos obstáculos. Infelizmente a atriz é prejudicada por um texto que não dá a ela muito o que fazer além de ser uma guia de Adam por Etérnia e pelas lentes de contato azuis mais artificiais desde a Jessica Alba nos filmes do Quarteto Fantástico. O mesmo pode ser dito Idris Elba como Duncan/Mentor, que oferece alguns bons momentos demonstrando sua força como líder, mas muitas vezes é reduzido a um alivio cômico e cujo arco de redenção se resolve muito rápido.
Aventura risível
Jared Leto tenta fazer um Esqueleto que é ameaçador e também seja um vilão afrontoso, sarcástico, que sabe que é maligno e é feliz assim. Sua performance traz um misto de agressividade e sarcasmo na fala e alguns momentos divertidos como a cena dele vestido como um colega de trabalho de Adam. Eventualmente, porém, ele passa do ponto em muitos momentos cômicos, como na cena da gargalhada no início em que ele explica o crescente da situação. Em momentos assim ele sai do mero chiste ou piada para entrar no terreno da autoparódia. É algo que soa como um personagem paródico, tipo o Dr. Evil do Austin Powers, do que um vilão de verdade. É menos como se o filme estivesse tentando ver o humor daquela situação e mais como se estivesse fazendo uma sátira do universo do He-Man ao invés de ser um filme do He-Man.
Momentos assim são se restringem ao vilão e estão presentes o filme inteiro. Um exemplo é a fuga de Adam da prisão. O momento em que ele conversa com os demais heróis e os convence do seu plano deveria ser o instante em que o filme constrói a liderança de Adam, mostrando que seu poder não vem da espada, mas de sua empatia e capacidade de mobilizar as pessoas. Nada disso funciona porque a cena é interrompida a todo momento por piadinhas. O mesmo acontece quando eles fogem da prisão. Eles caminham pelos túneis em câmera lenta ao som de Princes of the Universe do Queen (composta originalmente para o filme Highlander) em um momento que deveria sedimentar como Adam é um herói mesmo sem poderes, mas é sabotado pela interrupção da piada em que todos começam a tossir por conta da fumaça. É algo que traz um incômodo semelhante aos filmes do Thor dirigidos pelo Taika Waititi, em especial em Thor: Ragnarok (2017).
Notas sobre o camp
É como se o filme e o diretor Travis Knight (que tem uma trajetória sólida em animações e dirigiu o filme do Bumblebee) temessem que o público não fosse capaz de se importar com esses personagens ou esse universo, de embarcar no drama ou triunfo das situações, e precisassem inserir piadinhas constantes por medo de que o público os ridicularizasse. Eu entendo que há um esforço de embarcar na cafonice oitentista do material original e construir um apelo nostálgico a partir disso enquanto reconhece o quanto certos elementos são datados, mas há uma diferença entre assumir se cafona e ridicularizar seu próprio material ao ponto em que você não permite que as batidas mais emocionais da trama funcionem porque nem isso você consegue lidar com alguma sinceridade. A Maligna de Alison Brie é a única que acerta o tom, transitando com habilidade entre a vilania e o camp, sendo cafona e bem humorada sem tirar a gravidade de sua vilã ao se conduzir com seriedade em todas as situações por mais ridículas que elas sejam.
Além de não conseguir se decidir se quer ser paródico, camp ou se levar a sério, a produção também não parece se decidir em qual é o seu público alvo. É tudo muito calcado na nostalgia pela animação dos anos oitenta, com um desejo claro de ser o mais fiel possível aos visuais dela, para atrair um público jovem ou infantil que não tem vínculo com esse material. Por outro lado é tudo muito pueril e ingênuo para funcionar para um público adulto que queira algo mais do que uma regurgitação do passado. O resultado disso é um filme que não apela para ninguém em específico. Seria melhor se focasse em um público específico, como fez Kevin Smith em sua série animada para a Netflix na qual claramente mira em um público adulto que cresceu com esses personagens e se esforça para dar mais camadas a esse universo.
Como é muito inconsistente, tanto
em termos de elenco, quanto de direção e de roteiro, Mestres do Universo entrega uma aventura burocrática que não
empolga nem diverte.
Nota: 4/10
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