quinta-feira, 16 de julho de 2026

Crítica – Christy: Um Novo Round

 

Análise Crítica – Christy: Um Novo Round

Review – Christy: Um Novo Round
Estrelado por Sidney Sweeney, Christy: Um Novo Round é aquele tipo de filme que parece todo pensado para premiações. Uma história real, com temas socialmente relevantes e uma estrela em evidência que passa por uma transformação física por sua personagem. Ingredientes comuns em filmes que aparecem em premiação, mas passou batido quando foi lançado nos Estados Unidos no ano passado, tanto na recepção da crítica quanto do público. Muito se especulou se a polêmica envolvendo uma publicidade de jeans feita por Sweeney que desembocou em discussões sobre o posicionamento político dela prejudicaram a produção. Tendo visto o filme, não sei até que ponto é possível creditar a recepção morna a elementos externos considerando que o filme em si não é grande coisa.

Luta constante

A trama acompanha a história real de Christy Martin (Sydney Sweeney), principal nome do boxe feminino nos Estados Unidos. Seguimos Christy desde sua juventude, quando descobre o boxe, até o auge como boxeadora quando se afasta dos abusos do marido e treinador Jim (Ben Foster). Christy é também uma lésbica enrustida, nunca assumindo a sexualidade, sendo oprimida desde jovem pela mãe conservadora, Joyce (Merritt Wever).

É uma biografia bem quadrada que narra a jornada de ascensão e os obstáculos, com um olhar bem superficial para as questões que tenta trazer. Embora apresente a sexualidade da personagem no início e os conflitos dela com a família, tudo isso é esquecido durante boa parte da trama e só volta no final. A narrativa nunca investiga como é para Christy sufocar essa parte de si e viver, em algum grau, uma mentira sobre si mesma.

Ao falar do machismo que sofre nas mãos do marido e até da família, já Joyce toma partido de Jim quando Christy tenta confidenciar a mãe os abusos cometidos pelo marido, a trama perde a oportunidade de comentar sobre a ironia de Christy rejeitar publicamente o feminismo e dizer que não está interessada em ser uma defensora das mulheres, que se interessa apenas por defender a si mesma. Ao agir dessa forma a personagem endossa justamente a estrutura social que permite que o marido faça o que faz, a agredindo, roubando seu dinheiro e até a prostituindo no início da carreira.

É curiosa também a escolha de focar nos anos de abuso que a personagem sofreu e encerrar o filme quando ela se livra do marido, informando apenas por uma cartela de texto que ela assumiu a sexualidade e se tornou defensora dos direitos das mulheres. Ao estruturar a trama ao redor do abuso, o filme retrata Christy apenas como uma vítima, quando seria um arco de personagem mais interessante mostrar a guinada na vida dela e esse processo de emancipação e ativismo.

Oponentes vazios

O resultado é algo bem unidimensional, que pouco explora as várias camadas de Christy, uma personagem que poderia render bem mais com um texto melhor. Sweeney faz o que pode com o material, trazendo a energia e a persona pública abrasiva da lutadora, sem muito mais estofo para explorar outros cantos de sua personalidade. Ben Foster e Merritt Wever ficam presos em figuras tão unidimensionais que pendem para a caricatura.

Já na primeira cena com a mãe o filme nos mostra o conservadorismo dela e como ela reprova a conduta da filha. Todas as cenas entre Christy e Joyce ao longo do filme repetem essas mesmas ideias sem aprofundar qualquer elemento. Do mesmo modo, o machismo de Jim já é evidente desde o primeiro momento em que Christy põe os pés na academia dele e segue assim até o fim.

A rivalidade entre Christy e a boxeadora Lisa (Katy O’Brien, de Love Lies Bleeding) é apresentado como um espaço para explorar as contradições e conflitos internos da protagonista, mas Lisa aparece tão pouco que nunca rende nada interessante. Na verdade, uma vez que Christy começa a fazer sucesso ao ser agenciada pelo lendário Don King (Chad L. Coleman) até o boxe perde espaço na narrativa para focar nela como vítima do marido.

É possível ver na trajetória de Christy Martin os elementos que poderiam render uma biografia interessante, no entanto, o filme explora essa trajetória com escolhas equivocadas e um olhar superficial, fazendo de Christy: Um Novo Round uma biografia com pouco a dizer sobre sua biografada.

 

Nota: 5/10


Trailer

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