Luta constante
A trama acompanha a história real de Christy Martin (Sydney Sweeney), principal nome do boxe feminino nos Estados Unidos. Seguimos Christy desde sua juventude, quando descobre o boxe, até o auge como boxeadora quando se afasta dos abusos do marido e treinador Jim (Ben Foster). Christy é também uma lésbica enrustida, nunca assumindo a sexualidade, sendo oprimida desde jovem pela mãe conservadora, Joyce (Merritt Wever).
É uma biografia bem quadrada que narra a jornada de ascensão e os obstáculos, com um olhar bem superficial para as questões que tenta trazer. Embora apresente a sexualidade da personagem no início e os conflitos dela com a família, tudo isso é esquecido durante boa parte da trama e só volta no final. A narrativa nunca investiga como é para Christy sufocar essa parte de si e viver, em algum grau, uma mentira sobre si mesma.
Ao falar do machismo que sofre nas mãos do marido e até da família, já Joyce toma partido de Jim quando Christy tenta confidenciar a mãe os abusos cometidos pelo marido, a trama perde a oportunidade de comentar sobre a ironia de Christy rejeitar publicamente o feminismo e dizer que não está interessada em ser uma defensora das mulheres, que se interessa apenas por defender a si mesma. Ao agir dessa forma a personagem endossa justamente a estrutura social que permite que o marido faça o que faz, a agredindo, roubando seu dinheiro e até a prostituindo no início da carreira.
É curiosa também a escolha de focar nos anos de abuso que a personagem sofreu e encerrar o filme quando ela se livra do marido, informando apenas por uma cartela de texto que ela assumiu a sexualidade e se tornou defensora dos direitos das mulheres. Ao estruturar a trama ao redor do abuso, o filme retrata Christy apenas como uma vítima, quando seria um arco de personagem mais interessante mostrar a guinada na vida dela e esse processo de emancipação e ativismo.
Oponentes vazios
O resultado é algo bem unidimensional, que pouco explora as várias camadas de Christy, uma personagem que poderia render bem mais com um texto melhor. Sweeney faz o que pode com o material, trazendo a energia e a persona pública abrasiva da lutadora, sem muito mais estofo para explorar outros cantos de sua personalidade. Ben Foster e Merritt Wever ficam presos em figuras tão unidimensionais que pendem para a caricatura.
Já na primeira cena com a mãe o filme nos mostra o conservadorismo dela e como ela reprova a conduta da filha. Todas as cenas entre Christy e Joyce ao longo do filme repetem essas mesmas ideias sem aprofundar qualquer elemento. Do mesmo modo, o machismo de Jim já é evidente desde o primeiro momento em que Christy põe os pés na academia dele e segue assim até o fim.
A rivalidade entre Christy e a boxeadora Lisa (Katy O’Brien, de Love Lies Bleeding) é apresentado como um espaço para explorar as contradições e conflitos internos da protagonista, mas Lisa aparece tão pouco que nunca rende nada interessante. Na verdade, uma vez que Christy começa a fazer sucesso ao ser agenciada pelo lendário Don King (Chad L. Coleman) até o boxe perde espaço na narrativa para focar nela como vítima do marido.
É possível ver na trajetória de
Christy Martin os elementos que poderiam render uma biografia interessante, no
entanto, o filme explora essa trajetória com escolhas equivocadas e um olhar
superficial, fazendo de Christy: Um Novo
Round uma biografia com pouco a dizer sobre sua biografada.
Nota: 5/10
Trailer


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