sexta-feira, 31 de julho de 2026

Crítica – Prazer Máximo Garantido

 

Análise Crítica – Prazer Máximo Garantido

Review – Prazer Máximo Garantido
Fui assistir a série Prazer Máximo Garantido pela Tatiana Maslany e acabei ficando pela mistura envolvente entre suspense e comédia que a série faz, misturando uma trama de conspiração com o cotidiano de uma mãe divorciada. Nem todos os seus elementos, no entanto, são bem amarrados e a série produzida pela AppleTV tem sua parcela de problemas.

Ponto de ebulição

Paula (Tatiana Maslany) é uma mulher divorciada em meio a uma batalha pela custódia da filha com o ex-marido, Karl (Jake Johnson). Ela mantem uma relação com o camboy Trevor (Brandon Flynn), mas durante uma das sessões ela vê Trevor ser agredido e sequestrado. Paula entra em contato com a polícia e a detetive Gonzalez (Dolly de Leon) avisa que é provavelmente um esquema para tirar dinheiro dela. Logo Paula começa a receber ligações de Trevor, dizendo que está devendo dinheiro e que precisa da ajuda de Paula. Ela ignora, mas conforme as ligações começam a atrapalhar seu cotidiano, decide ir tirar satisfação com Trevor. Depois de descobrir onde ele mora, Paula chega no apartamento do camboy para encontrá-lo morto, entrando acidentalmente em uma perigosa conspiração.

Tatiana Maslany é, como sempre, competente em fazer de Paula alguém em ponto de ebulição, sufocada por demandas de trabalho, da maternidade e sua única válvula de escape, o pornô de internet, se tornou mais um problema que ela tem que lidar. Ainda por cima é algo que ela precisa resolver sozinha, como boa parte de seus outros problemas, já que seu ex só cria mais dificuldades, ainda mais que sua nova esposa Mallory (Jessy Hodges) está para aceitar um emprego em outro estado e eles querem levar a filha de Paula com eles. A polícia, que deveria ajudá-la com a questão do golpe, também não resolve nada, obrigando-a a tomar a questão nas próprias mãos. É o senso de que tudo está colapsando ao seu redor e Paula age quase que por instinto tentando sobreviver que justifica as reações dela, mesmo que insensatas, já que ela só está tentando conter os problemas mais imediatos.

A impressão de alguém lidando com múltiplas tensões e demandas é amplificada pela música, sempre usando percussão ou melodias eletrônicas repetitivas, ela opera como se fosse algo martelando constantemente na mente de Paula e do espectador. A paisagem sonora é muitas vezes cheia de ruídos, como telefones tocando, chaleira apitando ou molho borbulhando. É como se sempre houvesse algo prestes a explodir ou transbordar no cotidiano da protagonista que se sente sufocada pelas múltiplas demandas com as quais precisa lidar sozinha.

Quem também se destaca é Murray Bartlett como Dennis, o sujeito por trás dos golpes de Trevor. Bartlett faz dele um inimigo engenhoso, sempre a frente dos demais e uma presença intimidadora com sua brutalidade pragmática. Sempre que ele está em cena, sentimos que os personagens de fato estão em perigo. O contraste entre a seriedade dessa trama de mistério com a banalidade do cotidiano de Paula em treinar o time de futebol da filha é responsável por parte do humor da série, embora o núcleo criminal também ofereça seus momentos de humor por conta dos bandidos pé de chinelo ao redor de Trevor, que só complicam mais as coisas e turvam a investigação da polícia, dando às autoridades a impressão de que Paula é a responsável. 

Conspiração caótica

Por outro lado, em muitos momentos os personagens agem da maneira mais estúpida possível só para alongar certos conflitos. É difícil crer que Paula não chame a polícia depois de atirar no sujeito que a estava perseguindo, provando seu exato argumento para a polícia. Do mesmo modo, quando ela consegue levar para a delegacia a única testemunha que poderia exonerá-la, Paula a deixa ir sozinha ao banheiro, lhe dando tempo de fugir. Na verdade, não faz muito sentido que a garota tenha topado ir até lá e depois desistido. Parece que tudo é construído só para Paula poder mencionar a falsa advogada que a visitou na prisão para a detetive Gonzalez. Inclusive, se a detetive estava inclinada a acreditar na versão de Paula, porque ela não checou as câmeras da delegacia para tentar identificar quem foi que Paula trouxe?

Na trama do divórcio inicialmente entendemos a motivação da Karl ao se preocupar como a bagunça criminal em que Paula se envolveu pode afetar a filha deles, mas conforme a trama avança, vai ficando mais explícito que é Mallory a verdadeira vilã dessa dinâmica, sempre convencendo Karl a tomar as decisões mais drásticas e até manipulando o processo ao conseguir um juiz misógino para julgar o caso, aumentando as chances deles obterem a custódia. O problema de tudo isso é que Mallory é uma escrota unidimensional, sempre tratando Paula mal desde o primeiro momento em que se encontram sem exatamente ter uma motivação construída de maneira convincente do por que ela quer tanto ferrar com Paula.

Conforme a série se aproxima do fim, ela depende de uma série de conveniências, como um vilão sobreviver a um tiro na cara, para conseguir amarrar os vários elementos e fazer Paula provar a inocência. Isso seria um problema menor se ao menos a história encerrasse ali, no entanto a série decide alongar as coisas deixando ganchos para uma segunda temporada de uma maneira que boa parte desses elementos soa forçado só para alongar a série. Um exemplo é a relação entre Rudy (Charlie Hall) e Geri (Kiarra Hamagami Goldberg), os dois colegas de trabalho de Paula que a auxiliam durante a investigação. Tudo parece caminhar para um enlace romântico entre Rudy e Geri até que no último minuto, quando estão prestes a ficarem juntos, Rudy revela que voltou com a namorada megera que passou a temporada reclamando e que nunca apareceu em cena, nunca foi uma personagem de fato. Isso acontece, mais para dar uma motivação a Geri para soltar a reportagem em que revela com detalhes tudo que aconteceu com eles e Paula, com potencial para prejudicar o caso de Paula, do que um desenvolvimento orgânico dos dois.

Do mesmo modo a revelação de que o atropelamento no qual Paula se envolveu no passado, algo que a trama usou para justificar as suspeitas que a polícia tinha dela, esconder mais segredos da protagonista não soa como um gancho empolgante para a segunda temporada. Esse tipo de trama de conspirações é algo que não pode se alongar muito ou corre o risco de perder a mão e virar algo excessivamente mirabolante. A série poderia ter acabado aqui e teria um desfecho digno e ao estender a história aumenta o potencial de tudo dar errado. Espero, porém, que uma eventual segunda temporada, caso aconteça, consiga provar que estou errado.

Mesmo com alguns problemas na condução da trama, a performance de Tatiana Maslany e a mistura envolvente de mistério e comédia consegue nos manter interessados em Prazer Máximo Garantido. Só espero que se houver uma segunda temporada ela seja última.

 

Nota: 6/10


Trailer

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