Presente Futuro
A narrativa é protagonizada por K (Zé Maria Pescador) um homem sem memória encontrado na periferia de uma grande cidade. Nesse futuro próximo há uma separação ainda maior entre ricos e pobres, com os ricos vivendo entre arranha-céus distantes enquanto os mais pobres vivem em favelas sem emprego e com pouco acesso ao básico, como água e comida. A população é afligida por uma doença que afeta a cognição e as pessoas precisam passar por um curso para tentarem retomar a capacidade de imaginar.
Como toda a distopia, o filme não fala sobre coisas que podem acontecer e sim sobre eventos que já estão em marcha no mundo de agora. O abismo social cada vez maior, o desemprego, a opressão contra os mais pobres e o uso da tecnologia como ferramenta de alienação. Os afetados pela misteriosa síndrome perdem o senso de si e precisam ser “ensinados” a pensar, a imaginar, novamente, recorrendo a uma inteligência artificial que supostamente os ajuda.
São ideias que refletem, com certo didatismo nos diálogos, as discussões atuais sobre o uso da IA. Afinal, se delegamos para essa ferramenta nosso raciocínio, nossa capacidade de abstração, será que perdemos nossa capacidade de pensar por nós mesmos? O que acontece conosco quando ficamos dependentes desses dispositivos que pensam por nós? O resultado é essa população jogada a margem, tratada como lixo informático, apática, incapaz sequer de lutar por mudanças porque não consegue pensar sozinha. São seres errantes, como mortos vivos.
Paraísos artificiais
Ao usar a IA que se conecta com sua mente, K recebe uma série de imagens, visões de um apocalipse vindouro, com prédios inundados, buracos negros, meteoros. A sociedade parece estar à beira do colapso. São imagens rápidas, de caráter artificial, que vendem a ideia de problemas insolúveis e não dão aos indivíduos qualquer ferramenta para entender como isso acontece ou como combater.
Soam menos como ferramentas de educação e mais como dispositivos de conformidade. Eles apresentam um apocalipse que não pode ser evitado, os indivíduos não tem o que fazer senão aceitar a ausência de solução e seguir em seus cotidianos vazios. Aqui a tecnologia não liberta, não amplia o repertório, não iguala os indivíduos, ela está à serviço do status quo.
Essas imagens vermelhas projetadas nas mentes já sem abstração dos personagens são imagens criadas por IA e é difícil não levantar questionamentos a respeito disso. Imagino que a ideia era usar imagens geradas por IA justamente para denunciar o quanto esse tipo de imagem soa bizarra, artificial, causar estranhamento no espectador. Por outro lado, ao usar a ferramenta que critica como algo com o potencial de remover nossa capacidade de imaginar, me pergunto em que medida o filme também não legitima ou endossa como viável a utilização da IA na arte. Será que designers e animadores não seriam capazes de reproduzir a estética e a bizarrice dessas imagens de IA sem o filme precisasse recorrer a IA generativa? É uma escolha que parece fazer sentido, mas, ao mesmo tempo, enfraquece a tese central do filme.
Mesmo com esses questionamentos,
penso que ao construir uma distopia que soa próxima do nosso cotidiano, Futuro Futuro indaga nossa adesão a
determinados tipos de tecnologia e que tipo de futuro estamos tentando
construir.
Nota: 6/10
Trailer


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