Começo do fim
A temporada começa no ponto em que o ano anterior parou, com June (Elizabeth Moss) em um trem rumo ao Alasca, uma das poucas partes dos Estados Unidos que ainda é livre de Gilead. No trem ela descobre que Serena (Yvonne Strahovski) também está indo para o mesmo destino. As ocupantes do trem descobrem quem Serena é e para protegê-la June sugere que ela pule. Enquanto isso, Luke (O.T Fagbenle) e Moira conseguem fugir do Canadá e se juntam à resistência de Gilead. O comandante Lawrence (Bradley Whitford) tenta levar adiante sua iniciativa de abrir as fronteiras e repatriar os refugiados de Gilead, mas enfrenta resistência dos outros comandantes, que o consideram liberal demais.
Como na temporada anterior a série da a impressão de mexer na personalidade dos personagens só para alongar conflitos e fazer a história render. Aqui June parece acometida com uma espécie de “síndrome de protagonista” na qual acha que só ela é capaz de resolver as coisas, só as ideias dela são boas, só o sofrimento dela importa, enfim ela passa a agir como uma babaca insuportável, inclusive arriscando as operações da resistência de maneira estúpida, como no episódio em que ela e Moira se infiltram num prostíbulo e June insiste em levar Janine (Madeline Brewer) com elas apesar de obviamente não terem meios naquele momento. A grande maioria dos conflitos de June na temporada, com Moira ou o marido, emerge essa conduta mitômana e egoísta, fazendo tudo soar artificial, só para estender o drama.
Serena por sua vez cai no mesmo ciclo de sempre de tentar voltar para Gilead, retomar sua posição e adquirir poder, não só mostrando que é estúpida e não aprendeu nada com tudo que passou, se colocando mais uma vez na mão de um comandante abusivo, como demonstrando que está além de qualquer redenção, já que sempre dobra a aposta em tentar manter Gilead, apenas tornando um pouco menos violenta para as mulheres. Isso é um problema porque a série de fato quer construir um arco de redenção para ela.
Nick (Max Minghella) continua o processo de emburrecimento iniciado na temporada anterior. Sim, ele tem um fraco por June e está disposto a arriscar qualquer coisa por ela, mas ele sempre foi um espião astuto, capaz de cobrir seus rastros e usar sua posição de poder para colocar alguém como bode expiatório. Aqui ele parece ter perdido qualquer capacidade de fazer isso. O melhor exemplo é quando ele revela ao sogro, o comandante Wharton (Josh Charles), os planos de June e da resistência de usarem o prostíbulo para assassinarem os comandantes.
Tudo bem que Nick sempre colocou a própria sobrevivência em primeiro lugar, a questão é que ele podia explicar sua movimentação ao sogro sem colocar June em risco, dizendo que estava lá para investigar a morte do soldado que June e Moira mataram e depois fabricar provas contra um outro soldado qualquer para explicar a situação para o sogro. Do jeito que está soa como uma solução forçada para criar uma cisma definitiva entre Nick e June. Entendo também que a ideia era mostrar como muitos homens não estão dispostos a abrir mão de posições de poder para beneficiar mulheres se o cargo os beneficia mais, o problema é que tudo isso é muito mal construído.
Casamento sangrento
As coisas melhoram um pouco no antepenúltimo e penúltimo episódio, que acompanham o plano de matar a maioria dos altos comandantes no casamento de Serena e Wharton. Toda a execução é conduzida com tensão e urgência, deixando claro que está em jogo ali uma vez que os remanescentes dos Estados Unidos já entenderam que não podem vencer por guerra convencional. Ver as aias assassinando os comandantes, transformando seu silêncio e invisibilidade em vantagem é verdadeiramente catártico e essa apoteose dos planos de June testa as convicções de ambos os lados.
O melhor exemplo é quando June confronta tia Lydia (Ann Dowd) com as verdades duras do que ela fez ao longo dos anos e a convoca a tomar uma posição no conflito. Se antes eu falei que o arco de redenção de Serena soava forçado por ela sempre se mostrar uma megera disposta a agarrar qualquer oportunidade de poder, Lydia sempre foi construída como uma crente verdadeira, alguém que realmente achava ter a missão de proteger as mulheres e que aquela era a melhor maneira, sendo confrontada ao longo dos anos com a possibilidade de estar errada. É por isso que o momento em que Lydia deixa as aias fugirem funciona tão bem, porque é a culminância de seu aprendizado em perceber que ela estava oprimindo mulheres e que proteger verdadeiramente mulheres significava enfrentar Gilead.
Igualmente impactante é a cena da tentativa de execução de June, Lydia e as demais aias, cuja construção da mesmo a impressão de que é o fim da linha para todas elas e que só resta um último momento de resistência antes da execução até que finalmente experimentamos alívio com a chegada de reforços liderados por Luke.
Desfecho insosso
E então chegamos ao episódio final, com June e as demais celebrando a liberação de Boston enquanto outros lidam continuam a avançar contra Gilead nos demais territórios dos Estados Unidos e a maneira como a série decide encerrar as histórias dos personagens é a pior possível.
A força motriz das ações de June sempre foi a de recuperar a filha, Hannah, então era de se imaginar que a história dela se encerraria com isso, certo? Errado. Não há qualquer resolução desse conflito. Como Hannah está com uma família em um território ainda tomado por Gilead, June não consegue chegar até ela e aceita continuar lutando até chegar lá. Faria sentido se a série fosse continuar, mas como é o final soa esquisito deixar essa ponta solta. Considerando que a última vez que viu Hannah, a filha não a reconheceu, seria interessante ver como se daria a reunião entre elas e como isso afetaria a relação com Luke. Afinal June e o marido tiveram conflitos ao longo dos últimos anos, mas agora sem a presença de Nick e com a filha de volta essa poderia ser chance dos dois.
O estado do relacionamento de June e Luke, no entanto, tem seu destino deixado em aberto, com Luke seguindo com a resistência para outras frentes de batalha contra o resto de Gilead enquanto June fica em Boston para articular a busca pelas aias desaparecidas. Eu entanto que resolver completamente a derrubada do regime tão rápido não faria sentido, tudo bem mostrar que a luta ainda continua, no entanto, ao menos a relação entre esses personagens deveria terminar com algum senso de resolução, de fim de ciclo, seja aceitando ficar juntos ou se separando em definitivo, mas tudo aqui fica aberto demais.
O final também tem vários elementos mal desenvolvidos ou explicados, como fato de tia Lydia ter retornado ao território de Gilead para ajudar na busca pelas aias. Se a motivação de Lydia é compreensível e foi construída, o modo como ela consegue fazer isso soa vago demais para ser convincente, afinal ela foi considerada uma traidora do regime e estava prestes a ser enforcada publicamente. Como é que ela simplesmente voltou para Gilead? Ela está vivendo na clandestinidade? Ela retornou a sua posição? Nada é dito.
O pior aspecto, no entanto, é o fato de Serena Joy ter um final feliz. Enquanto todos os outros envolvidos diretamente com o regime de Gilead pagam o preço pelo sangue em suas mãos, como Lawrence se sacrificando para eliminar o resto dos comandantes que foram mortos pelas aias ou Lydia retornando para Gilead em busca das aias, Serena recebe sua redenção sem ter feito nada para merecê-la. Diabos, até a Naomi Putnam/Lawrence (Ever Carradine) tem um arco mais convincente, pelo menos sacrificando algo ao colaborar com a tia Lydia e entregar sua filha de volta para Janine, mãe biológica da menina. É importante lembrar que ela não era apenas a esposa de um comandante proeminente, ela foi uma das arquitetas de toda a estrutura de opressão das mulheres em Gilead e mesmo quando experimentou essa opressão no próprio corpo continuou dobrando a aposta e tentando retornar em uma posição de poder no regime. Aqui ela termina conseguindo tudo que sempre quis, o filho e a liberdade, sem sofrer qualquer consequência.
Sim, ela vive de maneira nômade porque nenhum país quer lhe dar asilo e ela ainda é considerada uma espécie de criminosa de guerra, no entanto ela pode viver solta, em paz e sem qualquer problema. Ao longo da temporada ela não arrisca nada, não sacrifica nada, nem se esforça para qualquer transformação maior. Mesmo a atitude de entregar o paradeiro de Wharton e os demais comandantes para o ataque final é algo mais motivado por um senso de autopreservação (afinal ela já vira que Wharton era só mais um homem abusivo) do que por princípio. Não que eu queria que ela fosse executada em praça pública ou perdesse a guarda do filho, só que ela enfrentasse alguma consequência de ter idealizado um mecanismo estatal de estupro, que ficasse presa ou algo assim, não que ela cavalgasse rumo ao horizonte plenamente livre.
Assim, por mais que a investida
final contra Gilead ofereça alguns bons momentos, a temporada final de O Conto da Aia entrega um desfecho
decepcionante para uma série que começou tão bem.
Nota: 4/10
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