quarta-feira, 8 de abril de 2026

Crítica – Emergência Radioativa

 

Análise Crítica – Emergência Radioativa

Review – Emergência Radioativa
Eu não era nascido quando aconteceu o acidente radioativo com o césio-137 em Goiânia, mas lembro de ouvir na escola a respeito dele. Um caso que se tornou símbolo da importância do controle da circulação de elementos radioativos e como o menor dos vazamentos pode trazer riscos catastróficos. Produzida pela Netflix, a minissérie Emergência Radioativa tenta recontar essa história e como o descaso das autoridades causou consequências.

Cidade irradiada

A narrativa reconta o caso da contaminação radioativa em Goiânia, que começa quando uma dupla de sucateiros encontra a carcaça de uma máquina de raio-x em uma clínica desativada. Eles levam o material para o ferro-velho de Evenildo (Bukassa Kabengele), que compra o material por conta do valor do chumbo. Ele abre o dispositivo e encontra o cabeçote que armazenava o pó radioativo do césio, achando bonito o pó brilhante e levando ele para casa. Dias depois, a família dele começa a passar mal e a esposa de Evenildo leva o cabeçote para um posto da vigilância sanitária suspeitando que o objeto seja responsável. É nesse ponto que o físico nuclear Márcio (Johnny Massaro), que está na cidade para o aniversário do pai, é chamado por um colega da vigilância sanitária e faz a medição da radiação, alertando o secretário de saúde da gravidade da situação. As autoridades são alertadas e o físico Benny Orenstein (Paulo Gorgulho), membro da Comissão Nacional de Energia Nuclear, vem do Rio de Janeiro para liderar a força tarefa responsável para conter a contaminação e tratar os contaminados.

É difícil não olhar para a série e não pensar em Chernobyl, tanto no evento real quanto na minissérie Chernobyl produzida pela HBO, já que ambos (o evento e a minissérie) tem uma série de proximidades. Primeiramente porque são histórias sobre desastres nucleares, mas as duas minisséries usam esses eventos para pensar sobre como governos lidam com isso e, em situações como essas, estão mais preocupados com a própria imagem e o bem estar da população.

Aqui essa perspectiva se apresenta principalmente na figura do governador de Goiás vivido por Tuca Andrada, que sempre que pode orienta para omitirem informações do público sob a justificativa de evitar pânico, e também como se preocupa mais em fazer coisas que irão soar bem com o público do que fazer sentido cientifico em termos de como lidar com o problema, a exemplo de sua insistência inicial em tirar o material do estado e levá-lo para outro lugar, algo que os cientistas criticam, já que ter um caminhão cheio de radiação cruzando o país pode ser ainda mais perigoso.

A narrativa ainda aponta como a equipe formada por Márcio e os demais tratam a população humilde afetada, dando a eles pouca explicação dos procedimentos, tratando-os como crianças que precisam obedecer sem questionar. Sim, os cientistas estão certos do ponto de vista técnico, mas falta um componente humano no trato àquelas pessoas que tem uma justificada desconfiança dos poderes públicos. Os contaminados também recebem pouco suporte depois que eles saem do hospital, já que as residências deles foram isoladas pela contaminação muitas pessoas ficam sem ter para onde ir e não recebem o devido apoio do estado. Dentro do descaso do Estado vemos o modo como os hospitais militares operam quase como algo à parte do governo ao invés de parte dele quando o almirante responsável pelo hospital naval de referência em tratamento de contaminação radioativa arbitrariamente limita o número de pacientes a serem enviados para lá, mesmo tempo espaço e pessoal disponível. É algo que mostra como os militares não se veem como parte do Estado e submissos ao executivo federal, mas como se fossem um poder independente, o que não são.

Problemas do passado e presente

Nesse sentido, a série mostra como muitos dos problemas do Brasil atual, descaso das autoridades com as camadas mais humildes, rejeição da ciência quando não é conveniente, militares agindo de maneira pouco cidadã e insubordinada, já estavam presentes na época do acidente e potencializaram a crise. Os paralelos entre o passado e o presente feitos pela série, no entanto, param por aqui. Se Chernobyl usa o passado para falar diretamente sobre o presente, em especial o contexto de pós-verdade, fake news e “fatos alternativos” que emergiram durante o primeiro mandato de Trump, aqui a série aponta os problemas, mas não traz uma reflexão mais contundente a respeito deles.

Por outro lado, a condução de Fernando Coimbra (responsável por filmes como O Lobo Atrás da Porta e Os Enforcados) consegue imprimir um clima constante de tensão, conforme acompanhamos desdobramentos cada vez mais severos a respeito da contaminação, que se espalha por ônibus, fábricas de papel e periga ir para a água da cidade. Os cinco episódios nos deixam imersos na agonia de personagens que caminham no fio da navalha e estão a um tropeço de uma crise ainda maior. O elenco, especialmente Johnny Massaro e Paulo Gorgulho, ajudam a dar o devido peso e senso de catástrofe para os eventos.

Com a quantidade enorme de personagens, nem todos tem o mesmo espaço para desenvolverem algo interessante. Todo o arco de Márcio com a esposa grávida, por exemplo, parece colocado só para forçar alguma sensação de risco pessoal para o cientista quando o próprio trabalho que ele faz por si só já representaria o perigo. Outros, como a cientista vivida por Leandra Leal, ficam presos a papéis excessivamente expositivos.

Mesmo que tenha sua parcela de problemas, Emergência Radioativa é.competente na sua reconstrução da contaminação por césio, examinando os problemas e construindo a tensão do caso.

 

Nota: 7/10


Trailer

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