Depois de uma competente estreia como diretor no afetuoso longa Anos 90 (2018) e de enveredar no documentário com O Método de Stutz (2022), Jonah Hill retorna à ficção com este Consequência, que tenta construir uma sátira sobre Hollywood e como o medo da suposta “cultura do cancelamento” afeta os artistas.
Turnê de desculpas
A narrativa acompanha o astro Reef Hawk (Keanu Reeves) que tenta retomar a carreira depois de um tempo afastado para tratar seu problema com drogas. Ele é acompanhado de perto pelos dois amigos, Xander (Matt Bomer) e Kyler (Cameron Diaz). Tudo está indo bem para ele, até que seu advogado Ira (Jonah Hill) alerta que um chantagista entrou em contato com ele pedindo uma alta soma de dinheiro para não liberar na internet um vídeo comprometedor de Hawk. Com medo do que pode ser, Hawk resolve listar todas as pessoas que podem ter algo contra ele e parte em busca de fazer as pazes, esperando resolver o problema.
Keanu Reeves soa como um erro de casting como o babaca ególatra Hawk. Sempre com sua aura relaxada em cena, ele nunca consegue apresentar de maneira convincente a canalhice egoísta do ator. Não ajuda que os demais personagens sejam caricaturas unidimensionais que irritam mais do que fazem rir, dos dois melhores amigos, passando pelo advogado histriônico vivido por Jonah Hill com uma prótese dental exagerada e uma barba branca tão tosca que parece que foi colada no rosto dele e o faz parecer o Papai Noel depois de usar Ozempic. Eu entendo que é uma sátira, que os personagens brincam com certas figuras comuns na indústria, como o agente sem escrúpulos ou os parças parasitas, mas mesmo algo paródico precisa ser construído em algum mínimo resquício de humanidade.
Assistindo o filme me lembrei de O Lobo de Wall Street (2013), no qual Jonah Hill atuou e parece ter aprendido muito pouco sobre como fazer personagens caricatos e moralmente desprezíveis sem deixar de dar a eles elementos suficientes para que pareçam pessoas que poderiam existir em um mundo análogo ao nosso. Digo tudo isso porque o único personagem que consegue transmitir o mínimo de verdade é o agente de astros mirins vivido por Martin Scorsese. Sim é um sujeito bizarro e um pouco patético, mas Scorsese o dota de uma autoconsciência sobre seu ridículo e vida estagnada que transmite uma vulnerabilidade muito humana.
Medo de cancelamento
O tema central do filme é como toda a questão da “cultura do cancelamento” paira sobre as celebridades que tentam ajustar a conduta por medo de linchamentos virtuais. O primeiro problema é que o filme trata isso de modo muito vago e sequer arrisca a pensar se de fato existe uma cultura de cancelamento visto que, em geral, celebridades que se dizem canceladas tem amplo palanque para reclamar de seu cancelamento, constantemente dando entrevistas em veículos de grande circulação enquanto paradoxalmente reclamam de serem silenciados.
Há uma tentativa de apontar como toda a “turnê de desculpas” que os cancelados se sujeitam não passa de uma performance vazia de sinalização de virtude e que essas pessoas não querem de fato ser melhores ou rever sua conduta, só querem retomar suas carreiras, no entanto o filme não faz nada de muito contundente ou engraçado com isso.
Embora se assuma como uma comédia não há nada de muito engraçado, já que boa parte do humor se resume aos personagens agindo de uma maneira histérica que na maioria das vezes é mais constrangedor e irritante do que efetivamente cômico. O único instante em que esbocei algum riso genuíno foi na ponta de Drew Barrymore parodiando a si mesma agindo de maneira agressivamente histérica quando Reef se recusa a participar do programa de entrevistas dela.
Talvez ciente da falta de humor e como a narrativa não dá nenhum elemento para que nos conectemos com os personagens o terço final do filme resolve encadear várias conversas mais emotivas entre Hawk, seus amigos e seu advogado. Esses momentos, no entanto, soam falsos, como que colocados ali por pura necessidade do roteiro e não por um desenvolvimento orgânico nas relações entre aquelas pessoas. É difícil embarcar nos sentimentos daqueles personagens porque nenhum desses momentos climáticos soa merecido, não houve desenvolvimento dos aspectos emocionais daqueles indivíduos para que tudo ali soe verdadeiro.
De certa forma Consequência me lembrou o desastre que é
O Cara da Piscina (2023), ambos
filmes dirigidos por atores que conduzem suas tramas como se estivessem em uma
sátira bem modernosa e iconoclasta, mas é só um produto equivocado e sem graça
que está a um sistema solar de distância de ser tão esperto quanto acha que é.
Nota: 2/10
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