Músico de trajetória longeva, com experiência em educação e fundador da Orquestra Rumpilezz, Letieres Leite não é influente apenas na música baiana, tendo trabalhado com artistas de diferentes lugares do Brasil e do mundo. O documentário As Travessias de Letieres Leite tenta dar conta dos caminhos formativos que contribuíram para sua trajetória singular.
Caminho ancestral
O documentário parte de uma longa e inédita entrevista com o Letieres Leite, falecido em 2021, para mostrar as várias influências na produção musical e ensino do maestro, culminando em seus projetos com a orquestra Rumpilezz. Estruturalmente é bem típico de documentários sobre artistas, com entrevistas e imagens de arquivo articuladas pela montagem, mas seu grande mérito é conseguir dar conta da trajetória do biografado de maneira que saímos entendendo seu grande impacto para a música e também como diferentes vivências, do trabalho com artes plásticas às suas experiências com religiões afro brasileiras, orientaram seu trabalho musical.
A entrevista que abre o longa é relativamente extensa e por mais que o filme articule as falas de Letieres com imagens e vídeos de arquivo, ficar tanto tempo em uma única fala, ainda mais filmada com uma só câmera, sem nem a possibilidade de criar um senso de movimento cortando de uma câmera para outra dá a impressão de que esse início se alonga um pouco. Talvez isso fosse diminuído se ao invés de ter dar conta de toda essa entrevista de uma vez, o filme já articulasse com falas de outras pessoas, conectando isso com os pensamentos do maestro, é possível que fluísse melhor.
Os depoimentos de figuras do mundo musical como Lenine, Maria Bethânia ou Russo Passapusso servem tanto para exaltar a força do trabalho musical de Letieres Leite como também para demonstram a ampla influência que ele tem na música brasileira por conta de seu trabalho como arranjador. Nesse sentido o filme é bem eficiente em deixar o espectador imerso no universo da produção musical, explicando de uma maneira acessível as funções de um arranjador e como isso faz diferença na realização musical.
Por outro lado, as vezes a impressão é de um excesso de exposição e didatismo, com tudo precisando ser explicado o tempo todo e o filme não dá o devido tempo para as cenas de performances musicais respirarem, passando muito rápido por elas ou deixando-as acompanhadas por falas de entrevistados. Essas cenas seriam momentos em que o público poderia experimentar de modo mais direto o tipo de música que Letieres e os demais entrevistados comentam nas entrevistas, mas a impressão é que o filme guia demais o espectador no que ele vai extrair disso. Um dos melhores momentos, por exemplo, é uma cena em que um grupo de músicos se prepara para uma apresentação e revisa o que irão fazer no palco, não há muito contexto ou explicação, estamos ali vivendo o momento com eles, no entanto, é possível sentir como toda aquela movimentação se conecta com o modo de Letieres pensar a música sem que nada precise me explicar isso explicitamente.
Mesmo que convencional no modo
como se apropria da linguagem documental, As
Travessias de Letieres Leite funciona como uma análise da trajetória do
biografado e dos vários pontos de influência que direcionaram a música criada
por ele.
Esse texto faz parte de nossa cobertura do XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema


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