terça-feira, 28 de abril de 2026

Crítica – O Diabo Veste Prada 2

 

Análise Crítica – O Diabo Veste Prada 2

Review – O Diabo Veste Prada 2
Não fiquei nem um pouco animado quando O Diabo Veste Prada 2 foi anunciado. O filme original não era algo que se prestava a continuações, ainda mais com a dimensão semiautobiográfica do livro que inspirou o filme, com a autora Lauren Weisberger baseando a história nas experiências que teve trabalhando na revista Vogue. O trailer da continuação não ajudou a me convencer, focando muito no sarcasmo e veneno da Miranda Priestly ao ponto de quase reduzi-la a uma caricatura. Temi que fosse mais uma dessas continuações tardias que não tem nada a oferecer além de um apelo nostálgico raso. Tendo assistido o filme, fico muito feliz de perceber que minhas impressões estavam erradas e a produção entrega algo que talvez seja mais relevante hoje do que o original foi no seu lançamento em 2006.

A moda do capitalismo tardio                     

A narrativa coloca Andy (Anne Hathaway) para trabalhar novamente na revista Runway depois que o jornal em que trabalhava fecha as portas. Ela é contratada para lidar com a crise de imagem da revista depois da publicação de uma reportagem elogiando uma marca que tinha métodos de produção bastante predatórios. Como Miranda Priestly (Meryl Streep) estava prestes a ser promovida a editora geral do grupo editorial que controla a Runway, ela precisa que a crise seja resolvida logo. Andy, no entanto, logo se dá conta que é preciso mais do que um jornalismo de qualidade ou responsabilidade em um ambiente de publicações digitais, métricas de engajamento e uma paisagem corporativa em constante mudança por conta de fusões, aquisições e outros movimentos dos bilionários que controlam tudo.

O roteiro escrito por Aline Brosh McKenna (uma das mentes por trás da série Crazy Ex-Girlfriend) traz uma inesperada reflexão sobre o impacto do contexto de capitalismo tardio nas indústrias criativas como a moda, o mercado editorial, a televisão e o cinema. Digo inesperada porque o primeiro filme era mais uma comédia leve sobre uma jovem lidando com uma chefa durona e não imaginaria que esse segundo tentaria fazer algum comentário social, mas fico contente que tenha feito. A cena inicial com Andy descobrindo a demissão em massa logo depois de ganhar um prêmio de jornalismo é um símbolo muito real do que acontece nesse e em outros meios onde ser bom, ser reconhecido, ser relevante não é mais garantia de sucesso. Antigamente se uma desenvolvedora fazia um game de sucesso sua existência estava assegurada ao menos até o próximo projeto sair, hoje vemos gigantes da tecnologia fecharem desenvolvedoras mesmo depois de lançarem sucessos.

É um ambiente ainda mais instável do que já fora, no qual a métrica não é mais a qualidade do que é entregue ou a arrecadação e sim fórmulas em planilhas que reduzem toda uma dimensão imaterial de um trabalho criativo e artístico em números que precisam ser maximizados, aumentando sempre a margem de lucro mesmo que isso sacrifique a própria qualidade daquilo que se produz. Não é a toa que vivemos em um período no qual presidentes de conglomerados midiáticos se referem a filmes ou séries meramente como “conteúdo”, como que removendo deles o estatuto de arte e reduzindo-os a um mero objeto de compra e venda (que eles são, mas não são só isso) como se não houve também uma dimensão criativa e artística nisso.

Isso fica evidente na cena em que o novo presidente do conglomerado Elias Clarke leva Miranda para uma reunião com um grupo de consultoria que vai informar as mudanças que serão feitas na revista e o descompasso entre Miranda e o resto da mesa é construído imageticamente, com Miranda trajando um vestido cheio de babados coloridos enquanto o resto da mesa (homens e mulheres) vestem ternos genéricos em tons dessaturados. O filme estabelece ali como Miranda, mesmo com todo seu veneno e dureza, não pertence àquele universo corporativo em que tudo são números e métricas, que há nela uma faceta criativa, imaginativa e artística que não cabe dentro dessa perspectiva planilhocrata e que o filme usa como metonímia para todo o labor criativo.

Risos na passarela

Isso significa então que esse é um filme sério? De maneira nenhuma. Boa parte dessa crítica que o filme faz à paisagem precária das indústrias criativas é feita através da comédia, apontando o ridículo ou o absurdo de certas situações ou figuras desse universo. O melhor exemplo é o bilionário Benji (Justin Theroux), que namora Emily (Emily Blunt). Benji é um sujeito tosco, barulhento e desesperado por atenção que acha que pode comprar tudo que quiser com seu dinheiro, incluindo o afeto da namorada. A composição de Theroux no modo de falar e maneirismos corporais parece conscientemente emular figuras do mundo real como Elon Musk, expondo ao ridículo a conduta desses super-ricos que agem como se fossem inovadores, mas são incapazes de ter um pensamento original e fazem tudo mais movidos por ganância e vaidade do que qualquer outra coisa. A cena em que Benji conversa com Miranda em Milão expõe como toda a filosofia de “move fast, break things” (algo como “se mova rápido, quebre coisas”) tem menos a ver com uma busca por inovação e fazer coisas diferentes e mais com ganhar dinheiro fácil e rápido sem se importar em sacrificar a identidade ou qualidade de uma marca.

Meryl Streep segue devorando o cenário como Miranda e se os trailers me deixaram preocupado que a personagem ficaria superexposta ao ponto de perder a graça, fico contente que o filme sabe usá-la muito bem, dosando suas aparições. Além do texto repleto de diálogos ácidos nos quais Miranda demostra conhecer bem as fragilidades de seus interlocutores, a personagem é beneficiada pelas inflexões precisas de Streep que sabe quando encher a pronúncia de uma palavra com desdém ou sarcasmo, evidenciando a experiência que Miranda tem em dominar as pessoas.

Ela também comunica muito com o corpo e com o olhar, com uma leve mudança na expressão já dizendo tudo a respeito do que Miranda pensa sobre alguém. Até mesmo com os olhos cobertos com óculos escuros ela consegue expressar muito sem dizer nada, a exemplo da cena em que Miranda é forçada em viajar de classe econômica e mesmo sem ver seus olhos podemos sentir a tristeza e o ultraje em seu rosto. A trama também permite que Miranda mostre outras facetas de si para além de sua persona venenosa, algo que acontecia pouco no primeiro filme.

Do mesmo modo, Anne Hathaway continua trazendo uma atitude sempre otimista para Andy, que se tornou mais capaz de defender seus próprios ideais e a si mesma nas duas décadas que separam os dois filmes, mostrando que ela aprendeu alguma coisa no tempo em que trabalhou para Miranda. Muito da comédia do filme vem justamente da oposição entre a energia e positividade de Andy com a acidez da Miranda. Hathaway também continua tendo uma boa química com o Nigel de Stanley Tucci, que parece ter se resignado a ser para sempre o número dois de Miranda e não receber o devido reconhecimento da chefa, permanecendo na revista por seu amor ao mundo da moda e por saber que não conseguiria fazer o que faz em nenhum outro lugar.

Na verdade Andy é tão otimista e tão apegada a seus ideais de girl power e da importância de mulheres se ajudarem que ela chega a perdoar de maneira muito fácil a traição que Emily comete contra ela e Miranda. Considerando a gravidade do que Emily fez, é difícil comprar a postura de Andy de “tudo bem, você só cometeu um erro” sendo que foi muito mais que isso. A personagem não faz nada para merecer o perdão e a narrativa não dá espaço para construir o arrependimento dela, então não soa conquistada a retomada da amizade entre as duas, na verdade soa até ingênuo a ideia que mulheres devem se apoiar mesmo que uma tente passar a perna na outra na maior cara de pau.

Destoa inclusive do retrato que o filme fez de Emily até aqui, sempre mostrando como ela é uma fubanga recalcada invejosa e deslumbrada que não tem nem paciência para os próprios filhos e está com o namorado só pelo que o dinheiro dele pode dar a ela. Depois de passar o filme inteiro basicamente dizendo para espectador que ela é péssima, nos minutos finais a trama decide fazer o inverso e dizer “poxa, mas ela não é uma má pessoa”. A ingenuidade da situação também soa estranha com o restante da conclusão, já que até mesmo a vitória de Andy e Miranda é tratada com certo cinismo, com Miranda dizendo que a nova dona prometeu carta branca a elas “por enquanto”, reconhecendo que tudo pode mudar e que o ambiente continua instável, evitando uma resolução mágica. O modo fácil como Andy supera a traição de Emily vai de encontro a esse realismo.

Esse pequeno tropeço do final não anula as demais qualidades de O Diabo Veste Prada 2, que não só entrega uma comédia divertida sobre os bastidores da moda, como também traz uma inesperada reflexão dos impactos do capitalismo tardio e da fubanguice dos tech bros sobre as indústrias criativas.

 

Nota: 8/10


Trailer

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