Depois de uma envolvente primeira temporada que terminou em um gancho que me deixou ansioso pelo que viria a
seguir, a segunda temporada de Paradise chegou
para ampliar o universo da série para além do bunker e finalmente nos mostrar o estado do mundo ao redor. No
geral ela é quase tão boa quanto o primeiro ano, embora tenha sua parcela de
problemas. Aviso que o texto contém SPOILERS da temporada.Admirável mundo novo
Depois de fugir do bunker em um avião em busca de sua esposa no final da temporada anterior, reencontramos Xavier (Sterling K. Brown) ferido nos destroços da aeronave. Ele está bem distante de seu destino e é encontrado pela solitária Annie (Shailene Woodley) que passou os últimos anos vivendo em Graceland, antiga mansão de Elvis Presley que se tornou um museu dedicado a ele. Enquanto se recupera, ele conhece a história de Annie e como o mundo externo está.
Os primeiros episódios são mais dedicados a explorar esse estado do mundo, com o primeiro sendo todo dedicado a Annie. Pode ser um pouco frustrante porque coloca em segundo plano a busca de Xavier e outras tramas principais, mas é importante para dar o devido contexto daquilo que o protagonista tenta enfrentar. De certa forma há muitos elementos já manjados de histórias pós apocalípticas, com sobreviventes vivendo isolados, pessoas cedendo aos seus piores impulsos, saqueadores rodando pelos ermos, mas também pessoas dedicadas a construir algum senso de comunidade.
Se muito desse mundo externo soa banal, nos mantemos investidos pela sinceridade com a qual Woodley constrói Annie, uma personagem que fica poucos episódios, porém Woodley consegue dar a ela elementos suficientes para torná-la marcante e dar o devido peso a sua partida e o modo como isso impacta Xavier. A história do carteiro Gary (Cameron Britton), por outro lado, é aquela coleção de lugares comuns de apocalipse, com um sujeito medíocre e solitário que começa bem intencionado e depois se deixa guiar pelos piores sentimentos e senso de impunidade da situação. No instante em que começamos a ver seus flashbacks abrigando Teri (Enuka Okuma), a esposa de Xavier, no abrigo abaixo da agência postal em que trabalha se torna fácil prever a reviravolta que sua conduta irá dar. Por outro lado, o episódio focado nos flashbacks do passado Xavier e Teri reforçam ainda mais a conexão do casal ao mostrar uma relação construída no apoio mútuo conforme acompanha eles se conhecendo em um hospital.
Futuro do passado
O grande mistério da temporada novamente envolve Sinatra (Julianne Nicholson) e um projeto oculto chamado Alex que ela tem no bunker e que puxa muito da energia do local. A ideia do dispositivo ser algum meio de viagem no tempo me deixou preocupado, já que mesmo Paradise sendo uma ficção científica, sempre foi algo mais pé no chão e próximo da realidade. Felizmente conforme esses mistérios se desenvolvem a impressão é menos a de algo que permite viajar no tempo ou acessar um multiverso e mais como algo similar à Máquina da série Person of Interest, uma inteligência artificial criada para proteger a humanidade e que de alguma maneira pode entrar em contato com pessoas e interferir em eventos do nosso mundo (aqui especificamente ela parece ser capaz de se comunicar através do tempo, mandando mensagens para o passado, criando alguns paradoxos).
Essa revelação ajuda a série a não virar algo completamente diferente, ao mesmo tempo em que usa a existência desse aparato tecnológico para expandir alguns temas centrais da narrativa. Muito do primeiro era como os bilionários e poderosos diziam querer salvar o mundo, mas não estavam dispostos a romper as estruturas de poder que os beneficiavam e permitiu que as coisas chegassem àquele estado. O bunker era um exato exemplo disso, um monumento faraônico a uma ordem social defasada e desigual, que ajudam a manter as coisas como estão ao invés de reconstruir a humanidade e que corresponde ao ideal de bilionários como Sinatra, que se veem no direito de agir como CEOs do mundo.
Conforme aprendemos sobre Alex a impressão é menos que o dispositivo não foi capaz de impedir a catástrofe acontecer e mais como se ele entendesse que algo assim era inevitável para permitir que a humanidade se reconstruísse, o aproximando da inteligência artificial de Horizon Zero Dawn e sua continuação. Isso ganha força no episódio final, com a mensagem que o dispositivo passa a Sinatra para entregar a Xavier e o colapso do bunker. Durante toda a temporada personagens como Link (Thomas Doherty), Xavier e Sinatra tem estranhas visões, como se estivessem sendo guiadas por algo ou alguém até os eventos que resultam no final da temporada.
Em busca do tempo perdido
Como o episódio centrado em Jane (Nicole Brydon Bloom) mostra a eficiência de Alex em moldar o destino de alguém, não é difícil pensar que o dispositivo fez o mesmo com os demais personagens ao longo da temporada. Muito se teorizou que Link poderia ser uma versão de outro universo do filho de Sinatra que morreu na infância, no entanto penso que a explicação é um pouco mais simples (ou mais complicada, dependendo do ponto de vista). Link foi alguém cuja vida foi direcionada pela máquina (e isso meio que cria um paradoxo, visto que é a genialidade de Link que dá o pontapé inicial na criação de Alex) para aquele momento justamente por compartilhar o nome e data de nascimento com o filho morto de Sinatra. Alex sabia que bilionária não conseguiria abrir mão de seus planos e desejo de controle sem virar a página na morte do filho e Link é colocado no tabuleiro para isso.
Inclusive o arco de Sinatra ao longo da temporada ajuda a dar mais camadas para a personagem ao explorar sua vulnerabilidade. Se antes a perda do filho parecia mais um combustível para a sua megalomania, aqui parece que ela é o gatilho para tudo, como se perda colocasse nela o peso de querer fechar o mundo num bunker na ilusão de que isso a deixaria mais segura, de que impediria outras perdas e seria o melhor para todos. É simbólico, portanto, que tal como os faraós de outrora construíram impérios que hoje jazem em ruínas, algo que o presidente Bradford (James Marsden) diz a ela em um flashback, Sinatra termine enterrada por sua própria obra faraônica.
Nesse sentido, o final da
temporada propõe algo inesperadamente radical para um produto hollywoodiano mainstream. Para salvar a humanidade é
preciso primeiro por fim a atual ordem social. Não há conciliação, não há meio
termo aqui, o caminho calculado por Alex envolve a destruição completa das
estruturas de poder desiguais que serviram para gerar todas as crises que
vivemos hoje. Só com essa destruição é que Xavier recebe a chave que pode
ajudar a humanidade reconstruir. Se próximas temporadas irão manter essa toada
subversiva eu não sei, mas o impacto desse desfecho ajudou um segundo ano que
demorou a engrenar e que em muitos momentos soava derivativo em relação a outras
histórias de fim do mundo.

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