sexta-feira, 17 de abril de 2026

Crítica – The Pitt: 2ª Temporada

 

Análise Crítica – The Pitt: 2ª Temporada

Review – The Pitt: 2ª Temporada
Depois de um excelente ano de estreia acompanhando um grupo de médicos em tempo real ao longo de um plantão, The Pitt retorna para sua segunda temporada investindo ainda mais em explorar o peso que o trabalho em emergências impõe aos profissionais. Em geral é tão bem sucedido quanto a primeira temporada, ainda que não consiga equilibrar tão bem entre seus vários personagens, incluindo algumas figuras novas. Aviso que o texto contem SPOILERS.

Feriado caótico

Se passando dez meses depois da primeira temporada, acompanhamos a equipe de emergência do hospital de Pittsburg em um plantão durante o feriado de quatro de julho, dia da independência dos Estados Unidos. O Dr. Robby (Noah Wyle) está em seu último dia no comando da emergência antes de embarcar em uma viagem de três meses de férias. Ao longo do dia ele irá acompanhar a sua substituta, a Dra. Al Hashimi (Sepideh Moafi), em um plantão cheio de casos tensos. O dia também marca o retorno de Langdon (Patrick Ball), afastado para se tratar de seu vício em drogas, enquanto Whitaker (Gerran Howell) está em seu primeiro dia como médico e não mais como residente. Mel (Taylor Dearden) está tensa em ter que depor em um processo contra o hospital e novos estudantes de medicina chegam no hospital.

Como na primeira temporada, a série sabe muito bem construir um senso de urgência e movimento constante na emergência, com a câmera transitando pelo recinto enquanto acompanhamos os personagens em diferentes casos que testam o conhecimento e o psicológico dos médicos. Os casos também mostram os elementos precários do sistema de saúde estadunidense, como o operário diabético atendido pela Dra. Mohan (Supriya Ganesh), que não consegue auxílio médico por conta de sua renda, mas não consegue custear o tratamento com os próprios ganhos, então diminui a dosagem de insulina, causando óbvios problemas à própria saúde.

A subtrama envolvendo Dana (Katherine LaNasa) examinando uma vítima de estupro e depois descobrindo que exames similares de meses atrás não foram coletados pela polícia mostra o descaso das autoridades com esse tipo de situação, principalmente depois de termos acompanhado com detalhes brutais o quanto esse exame é desgastante tanto para as vítimas quanto para os profissionais de saúde. LaNasa entrega mais uma performance poderosa como Dana, que segue como o cérebro e coração da emergência, uma enfermeira durona, pragmática, disposta a proteger os colegas, mas também cheia ternura e humanidade. Os episódios envolvendo o exame de estupro evidenciam essas facetas da personagem no modo como ela conduz todo o procedimento com segurança e profissionalismo, mas desaba em choro assim que termina.

Novo rostos

Ao lado de Dana durante boa parte da temporada está Emma (Laetitia Hollard), enfermeira em seu primeiro dia na emergência. Bem intencionada, Emma logo se vê sobrecarregada com as demandas e dificuldades da emergência e Dana a coloca sob sua asa, tentando ajudar a novata a entender como tudo funciona, percebendo que elas estão ali para além do cuidado com a saúde das pessoas, também oferecendo dignidade. Vemos isso quando Dana leva Emma para barbear e cortar o cabelo de Digby (Charles Baker), um homem em situação de rua que chega com um problema no braço. Isso fica ainda mais visível na relação de Emma com Louie, paciente alcoólatra que já tinha aparecido na temporada anterior. Se inicialmente Emma julga Louie por seu vício e exibe desconforto quando Dana a leva para limpar o cadáver dele depois de seu falecimento, ela percebe a humanidade dele na pequena cerimônia fúnebre que Dana e Robby conduzem, com Emma instintivamente segurando a mão de Louie ao ouvir Robby explicar as tragédias pessoais que deram origem ao vício dele. É como se naquele momento Emma finalmente o visse como um ser humano e que estava tudo bem se permitir por um breve momento sentir a dor de sua partida, oferecendo também algum conforto a ele.

Por outro lado, boa parte dos novos personagens não é tão interessante quanto Emma. O pior deles talvez seja o sabichão Ogilvie (Lucas Iverson). Sim, eu sei que nos fazer detestá-lo é meio que o objetivo do personagem, que sempre tenta mostrar serviço agindo como se fosse melhor e mais inteligente que os demais estudantes de medicina, mas ele é tão unidimensionalmente babaca que descamba para o caricato. O arco dele é completamente previsível, com ele obviamente cometendo um erro grave ao superestimar a própria capacidade e se chocando com as severas consequências disso, finalmente adquirindo alguma humildade. Considerando o quanto a série é hábil em dar camadas aos seus personagens, é estranho ter uma figura tão rasa.

Inicialmente pensei que a série ia fazer a Dra. Al Hashimi funcionar como antagonista de Robby com sua defesa de ferramentas de IA para preencher prontuários, ampliação da documentação dos pacientes e uma abordagem mais conservadora para tratamentos que não parece apreciar os métodos de Robby. Felizmente a série evita isso ao fazer os personagens desenvolverem um respeito mútuo a despeito das discordâncias, embora Sapideh Moafi construa Al Hashimi como alguém que parece estar sempre escondendo algo dos colegas, algo que falarei mais para frente, mas a maneira como a temporada encerra a história dela deixa a desejar.

Velhos conhecidos

Entre os veteranos quem se destaca é Langdon. Se na primeira temporada ele se comportava de maneira pedante e abrasiva por ser o talento em ascensão e protegido de Robby, aqui vemos como a experiência com vício o transformou. De início ele parece ser o mesmo canalha de sempre, mas logo percebe o quanto o hospital mudou o quanto estava fora e vê que tem que reconquistar a confiança dos colegas, demonstrando como toda a experiência o tornou mais humilde e lhe deu novas perspectivas sobre como lidar com os problemas do trabalho. Vemos isso em uma conversa entre ele e Whitaker no refeitório, com Whitaker rechaçando a tentativa de Langdon de fazer piada com ele e exigindo respeito, algo que Langdon concorda e admite a conduta inapropriada, algo que o Langdon da primeira temporada nunca faria.

A crescente amizade dele com Mel é outro destaque do personagem, com Langdon demonstrando o que aprendeu com ela sobre lidar com pessoas neurodivergentes ao tratar Mel depois que ela é agredida por paciente que fugia da polícia. Mel não é explicitamente diagnosticada com neurodivergência (a irmã dela é), mas a personagem exibe traços disso (e falo a partir da minha própria experiência como alguém no espectro do autismo) e Langdon reconhece isso. Há algo bem sincero no modo como essas duas pessoas que se sentem deslocadas do resto dos colegas acabam se apoiando mutuamente, com Langdon ajudando Mel com os problemas com a irmã e com o depoimento e Mel ajudando Langdon em sua crise de confiança como médico. Mel também protagoniza um dos momentos mais divertidos da temporada na cena pós-créditos do episódio final em que ela e Santos (Isa Briones) vão a um karaokê e cantam You Oughta Know de Alanis Morissette.

Turno da noite

Se na primeira temporada o motivo para os personagens ficarem para além de suas doze horas de plantão era um tiroteio massivo, essa segunda temporada evita a armadilha de ter que criar uma grande catástrofe todo ano. Aqui o motivo é um ataque hacker que derruba os sistemas do hospital e obriga os profissionais a fazerem tudo manualmente, demandando mais tempo na passagem do material físico para o turno da noite. Talvez a ausência de um grande clímax incomode quem preferiria algo mais bombástico, mas acho adequado não precisar recorrer a isso o tempo todo.

Ainda que os casos dos pacientes ofereçam uma boa medida de drama é nas questões pessoais que boa parte da tensão dos episódios finais emerge, em especial por conta do estado mental de Robby. É evidente que ele não está bem e que exibe tendências suicidas, com sua recusa de falar sobre isso preocupando os colegas. Noah Wyle faz Robby caminhar pela emergência como alguém que está sufocando lentamente, que não aguenta mais e está prestes a explodir, descontando tudo nas pessoas ao seu redor, a exemplo do momento em que ele menospreza o ataque de pânico de Mohan ou quando ele reclama duramente e na frente de todos com os socorristas que não posicionaram adequadamente os eletrodos em uma paciente.

A cena em que o Dr. Abbot (Shawn Hatosy) confronta Robby no episódio final mostra a conexão que os dois tem pelos múltiplos traumas que vivenciaram, mas se Abbot exibe alguma serenidade ao falar dos próprios demônios, Robby claramente está sufocado por eles. O trabalho, o desgaste emocional, o complexo de abandono, tudo culmina na crise que ele vivencia. É algo que não vai ser facilmente resolvido e a série sabe disso, encerrando de um jeito ambíguo, mas que dá alguma medida de esperança conforme vemos Robby confortar o bebê que foi abandonado no primeiro episódio (e de certa forma confortando a si mesmo e seus próprios problemas de abandono) como se finalmente percebesse que não pode lidar com tudo sozinho. Inclusive é simbólico que tudo isso aconteça justamente na mesma sala em que Robby colapsou na temporada anterior, cercado pelos corpos do tiroteio. Agora o mesmo espaço é habitado por uma nova vida, por algo que carrega em si uma promessa de renovo. Se antes Robby encontrou desespero, agora ele encontra conforto.

Alívio que também experimentado pela equipe do hospital que se reúne no terraço no fim do turno para assistir aos fogos do quatro de julho em um momento de celebração que permite dissolver um pouco das tensões do dia. Por outro lado, alguns desfechos decepcionam, em especial o da Dra. Al Hashimi. No penúltimo episódio finalmente sabemos o que ela escondia da equipe, um problema neurológico que lhe causa pequenas convulsões. É algo que ajuda a explicar os sumiços dela ao longo do dia, justificando seu comportamento defensivo e lhe dando uma faceta de vulnerabilidade que torna ainda mais admirável tudo que ela fez ao longo do dia, mesmo sabendo que isso também representa um risco considerando que ela irá chefiar o departamento de emergência e cada segundo conta.

Nesse sentido é estranha a escolha dela de simplesmente abrir seu caso para Robby, considerando o apego e preocupação que ele tem com aquele local e a conduta errática que ele exibiu ao longo do episódio. Afinal, ela esperava que reação além da que Robby teve? Clinicamente ele está correto, ainda que a linguagem escolhida por ele possa ser inadequada. É uma escolha que faz a personagem parecer burra e que não dá a redenção que a trama tenta dar para ela. Pela cena dela chorando sozinha no carro a trama parece querer indicar que até aquele momento ela estava em uma espécie de negação, achando que o agravamento de seu problema não a impediria de funcionar e que ali ela finalmente tivesse se dado conta de que estava se enganando o tempo todo. No entanto isso é mais uma interpretação minha do que algo explicitamente comunicado. Se ela não retornar para a próxima temporada, essa seria a última vez que a vemos e que não faz jus ao quanto a personagem é interessante e tem potencial.

Apesar desses problemas na condução de alguns personagens, a segunda temporada de The Pitt continua sendo um ótimo drama médico que expõe as dificuldades dos profissionais e como o trabalho afeta suas vidas.

 

Nota: 8/10


Trailer


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