Antes de falar qualquer coisa sobre Feiraguay preciso ser transparente e dizer que o diretor, Francisco Gabriel Rêgo, foi meu colega de doutorado e é um amigo próximo, então o que tenho a dizer sobre o filme não tem como ser um olhar plenamente distante ou imparcial sobre o documentário.
Feira do povo
Como o título diz, o documentário é sobre o Feiraguay, área de comércio popular na cidade de Feira de Santana, interior da Bahia. A narrativa conta a história de como o Feiraguay se tornou o marco da cidade que é hoje ao mesmo tempo em que pondera sobre o papel das feiras e áreas de comércio popular em áreas urbanas e os vários tensionamentos que emergem dentro de um espaço tão diverso.
Uma parte da narrativa é dedicada a narrar os anos de desenvolvimento até que o Feiraguay chegasse na estrutura que tem hoje, explicando como o espaço nasceu como uma “feira do rolo” em que pessoas levavam objetos usados ou coisas que desejavam para vender ou trocar. A partir daí foi crescendo em uma feira mais tradicional, depois para uma área de mercadorias trazidas do Paraguai e aos poucos foi tomando a forma que tem hoje. Um processo que não é livre de tensões, principalmente com o poder público, que durante muito tempo tratou os comerciantes de rua como figuras indesejáveis, de pouca importância ou um problema a ser eliminado.
O filme apresenta
uma reflexão de natureza histórica e antropológica sobre as feiras em cidades,
de como esses espaços nascem do esforço de classes marginalizadas de “entrarem
no jogo” do capitalismo, tentando se sustentar com o esforço do próprio
trabalho, ao mesmo em oferecem uma alternativa ao consumidor de baixa renda de
acessar bens de consumo que provavelmente não conseguiria de outra maneira. Sob
essa ótica, a feira não seria apenas um espaço de comércio, mas uma teia
complexa de relações sociais, que perpassam também pelo reforço de laços
comunitários tanto entre os trabalhadores quanto por clientes, algo dito várias
vezes pelas pessoas que o filme entrevista.
Nesse sentido, há um claro esforço do filme em construir um senso de proximidade do local, constantemente filmando com a câmera na mão, dando a sensação de que é o espectador que está transitando pelas ruas do centro comercial e conversando com as pessoas do local. Essa proximidade também se manifesta na presença do diretor em cena, que se faz ouvir várias vezes durante as conversas, que interpela os sujeitos filmados e age menos como uma mosca na parede e mais como alguém envolvido diretamente com aquele ambiente, permitindo que seus entrevistados se expressem livremente e deixando emergir as personalidades pitorescas que transitam pelo espaço. Tudo isso contribuiu para uma sensação de proximidade do espaço e das pessoas pela maneira como ele observa e lida com elas.
Tensões comerciais
Em meio a celebração do Feiraguay como um espaço marcante de Feira de Santana, o documentário também tenta dialogar com algumas polêmicas que envolveram o espaço ao longo do tempo. Uma delas é a questão dos produtos piratas ou sem nota, que durante muito tempo foram sinônimo do local e que atraíram atenção das autoridades federais por algumas ocasiões. Se por um lado soa como mais uma instância em que o poder público criminaliza os trabalhadores da feira, que estão seguindo demandas de mercado oferecendo versões mais baratas (embora de menor qualidade em muitos casos) de produtos para um público que deseja ter acesso a elas, por outro há todo o risco que envolve simplesmente deixar que mercadorias entrem no país sem serem vistoriadas ou ter sua segurança aferida por órgãos responsáveis.
A ascensão do comércio eletrônico, além da chegada de produtos trazidos da China, é outro tópico que mostra a transformação na paisagem desse tipo de comércio e revela tensões subjacentes com as comunidades de chineses que passaram a habitar também o local. O documentário conversa com comerciantes nativos que comentam o quanto esses chineses são fechados, embora narrem não terem problemas com eles, mas senti falta de que o documentário ouvisse de fato os membros da comunidade chinesa. O filme chega a entrevistar uma moça filha de um chinês com uma brasileira que narra o entrelugar que ocupa como uma pessoa multiétnica, sendo tratada como estrangeira pelos locais e como brasileira pelos chineses, com dificuldade de localizar seu pertencimento. No entanto, senti que a questão merecia a voz de um membro dessa comunidade estrangeira. Talvez a equipe do filme não tenha conseguido ninguém para falar, mas nesse caso seria melhor uma cartela de texto ou uma narração em algum momento sinalizando que foi tentado um contato e que não houve ninguém disposto a falar.
É um panorama amplo que Feiraguay tenta fazer, mas o filme
funciona pelo modo como nos faz sentir parte daquele espaço e como usa a
história do centro comercial para refletir sobre a importância das áreas de
comércio popular.
Esse texto faz parte de nossa
cobertura do XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema.
Trailer

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