quinta-feira, 19 de março de 2026

Crítica – Scarpetta: Médica Legista

 

Análise Crítica – Scarpetta: Médica Legista

Já tinha ouvido falar bastante sobre os livros de Patricia Cornwell protagonizados pela legista Kay Scarpetta, mas nunca os tinha lido. Quando soube que a Prime faria uma série com a personagem e protagonizada por Nicole Kidman parecia um bom lugar para começar a conhecer a personagem. Infelizmente, Scarpetta: Médica Legista não fez muito, ao menos para mim, para torná-la interessante.

Corpo de delito

A narrativa começa com Kay Scarpetta (Nicole Kidman) voltando para assumir o posto como médica legista no estado da Virginia depois de anos ausente. Seu primeiro caso envolve um assassinato que tem semelhanças com seu primeiro grande caso vinte anos atrás. Para desvendar o que está acontecendo, a legista recruta ajuda de Pete Marino (Bobby Cannavale), policial aposentado que trabalhou com ela no passado e que hoje é seu cunhado, casado com sua irmã Dorothy (Jamie Lee Curtis). Dorothy e Pete também retornam a Virginia para ajudar Lucy (Ariana DeBose), filha de Dorothy, que recentemente perdeu a esposa, Janet (Janet Montgomery). Eles ficam temporariamente na casa de Kay, o que causa atritos com ela e com Benton (Simon Baker), marido de Kay e agente do FBI. A trama se desenvolve em duas temporalidades, a do presente e a do passado, mostrando o que aconteceu no primeiro grande caso de Kay.

A série tem um clima soturno e realista, lembrando um pouco a série Mindhunter no modo como trata o cotidiano de uma investigação, como isso afeta as pessoas e o grau de politicagem interna que os personagens tem que lidar. As semelhanças param por aí, já que Scarpetta sofre com um excesso de elementos que nem sempre são desenvolvidos a contento e outros que não funcionam.

A trama do passado é mais consistente que a do presente, apresentando seu mistério central com um senso de urgência e corrida contra o tempo, já que o assassino em série continua ativo e perde menos tempo com subtramas desinteressantes. É uma trama investigativa típica, mas bem executada o bastante para envolver.

Já o presente sofre por ter que se dividir entre a investigação do caso e uma espécie de “quadrado amoroso” entre Kay, Benton, Dorothy e Pete que acrescentam bem pouco aos personagens, considerando que a série consegue criar outras situações de tensionamento entre eles que não precisam recorrer a esse expediente que destoa do resto da série. Um deles é o modo como a família reage ao luto de Lucy, que passa seus dias falando com uma IA que reproduz a fala da esposa falecida. É um arco que podia ter algo a dizer sobre a presença de IA em nossas vidas, mas não sai do óbvio em reconhecer que não é uma maneira saudável de lidar com o luto.

Casos de família

A trama do presente tem o problema de variações bruscas de tom que tiram a trama do tom sóbrio que é construído. O melhor exemplo é a Dorothy de Jamie Lee Curtis, a irmã excêntrica e irresponsável de Kay. Curtis é tão histriônica e devora tanto o cenário que parece estar em uma produção completamente diferente do resto do elenco. Eu entendo que ela está ali para ser uma espécie de alívio cômico e fazer Kay confrontar algumas coisas sobre si que prefere evitar, mas a composição de Curtis sequer soa como pertencente ao mesmo universo. A impressão é que ela está interpretando a matriarca instável que faz O Urso e destoa dos demais.

Algumas guinadas na narrativa também soam muito mirabolantes ou excessivas, como toda a questão de uma das vítimas do presente estar envolvida em um caso de espionagem industrial com tecnologia sendo vendida para os russos e uma estação espacial sendo derrubada na Terra para encobrir o caso. É o tipo de crime maluco que a gente via nas últimas temporadas de CSI quando a série já não tinha mais para onde ir e precisava recorrer a esse tipo de história que sai do reino mais pé no chão do police procedural e entra quase na ficção científica ou no thriller de espionagem. A diferença é que aqui ainda é só a primeira temporada. Para piorar, toda essa subtrama acaba sendo só um despiste em relação ao real culpado do crime principal e acaba tendo pouca pertinência.

É uma pena que a narrativa se perca em tantos excessos, porque nos momentos em que consegue focar realmente nos personagens chega a oferecer alguma emoção genuína. Um exemplo é a cena em que Pete está fazendo jantar e diz casualmente para Lucy que sente falta de Janet e Lucy subitamente lhe dá um abraço apertado. É como se a jovem finalmente ouvisse alguém da família reconhecer sua perda e validar seus sentimentos. Diz mais sobre a dor da personagem e a disfunção da família do que boa parte dos barracos que a trama cria. A impressão é que o bom elenco do presente não é bem aproveitado por conta do texto que se sente na obrigação de colocar grandes reviravoltas e grandes momentos de confronto familiar a todo momento.

O elenco do passado é igualmente competente e, por ter uma trama mais contida e com uma quantidade menor de subtramas, acaba se saindo melhor. Impressiona como as versões jovens de Kay (Rosy McEwan), Dorothy (Amanda Righetti, que trabalhou com Simon Baker em O Mentalista, fazendo aqui uma pequena reunião da série) e Pete (Jake Cannavale) não apenas se parecem com suas versões mais velhas, como conseguem reproduzir os mesmos maneirismos e cadência de voz, realmente parecendo que são as mesmas pessoas. No caso de Jake Cannavale isso é um pouco mais fácil considerando que ele é filho do Bobby Cannavale que faz a versão mais velha do Pete. Em alguns casos o elenco jovem é até mais convincente, em especial a Dorothy de Amanda Righetti, que consegue trazer toda a personalidade excêntrica e desbocada da irmã de Kay sem descambar para a caricatura como Curtis faz.

Crimes que não compensam

Tramas investigativas vivem ou morrem pelo seu desfecho. Uma boa resolução pode nos fazer perdoar falhas, assim como uma resolução insatisfatória nos faz ignorar os méritos. Aqui o clímax infelizmente integra a segunda categoria nas duas cronologias que a temporada apresenta. Aviso que os parágrafos a seguir contem SPOILERS do final da temporada.

Ao longo da série vemos Kay extremamente preocupada com as similaridades do caso presente com o de vinte anos atrás, temerosa que as pessoas investiguem demais o caso passado. Fica evidente que o caso guarda um segredo oculto entre ela e Pete, algo que poderia destruir a vida dos dois e muita expectativa é construída em cima do que pode ter sido, principalmente pelo como Kay hesita e recusa a se abrir com o marido. Então chegamos no penúltimo episódio e desvendamos o que aconteceu e o grande segredo é que Kay matou o assassino em legítima defesa e ocultou isso. Sim, ela adulterou a autopsia, o que certamente é uma série violação de ética médica e poderia encrencá-la, a questão é ela não precisava ter feito isso. Ela e Pete poderiam ter inventado uma série de narrativas para explicar a presença deles ali sem precisar que a médica produzisse um relatório falso para parecer que o assassino foi baleado por Pete. Depois de tanto mistério ao longo da temporada, descobrir que o grande segredo é que Kay matou um assassino que a atacou e depois estupidamente mentiu sobre isso torna tudo decepcionante.

A revelação do culpado dos assassinatos no presente soa igualmente estúpida. A narrativa apresenta para nós um sujeito que era parente do assassino de vinte anos atrás, ficou traumatizado ao testemunhar ainda criança um dos assassinatos do tio, depois teve esse trauma revivido ao ver o cadáver de uma das vítimas na cena de um dos crimes investigados por Kay no passado, afirmando que a visão do cadáver “despertou algo” nele. Aí o sujeito passou vinte anos sem fazer absolutamente nada e depois de duas décadas de algo ter despertado é que ele resolveu reproduzir os assassinatos cometidos pelo tio para chamar a atenção de Kay com o objetivo de, bem, fica meio vago se ele queria ter sua precisão como imitador reconhecida ou algo assim. Assim como a resolução da trama do passado, o desfecho do presente é bem sem graça. É o tipo da coisa que parece mais pensada para surpreender o espectador com um culpado e uma motivação que ninguém esperava, sem se preocupar com coerência.

Apesar de um bom elenco, Scarpetta: Médica Legista se perde em um excesso de subtramas, inconsistências de tom e reviravoltas decepcionantes.

 

Nota: 4/10


Trailer

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