terça-feira, 17 de março de 2026

Crítica – One Piece: Segunda Temporada

 

Análise Crítica – One Piece: Segunda Temporada

Review – One Piece: Segunda Temporada
Depois de uma primeira temporada que fez um bom trabalho em adaptar a lógica do anime One Piece para live action, a série da Netflix chega a sua segunda temporada mais segura de si e capaz de lidar com alguns problemas de seu ano de estreia. É uma série que continua surpreendendo pelo modo como captura o espírito do anime e o adequa ao seu formato.

Mestre dos mares

A narrativa começa no ponto em que o ano anterior parou, com Luffy (Iñaki Godoy) e os demais membros do bando dos Chapéus de Palha buscando a entrada da Grand Line, a linha marítima que dá a volta no globo e guarda vários perigos para aqueles que tentam atravessá-la, mesmo os piratas. Ao longo da viagem eles passam por diferentes ilhas, lidando com perigos, encontrando novos aliados, como Vivi (Charithra Chandran), e novos inimigos na forma dos agentes da Baroque Works que caçam Vivi e os Chapéus de Palha.

A série continua oferecendo uma competente recriação do universo grandiloquente e colorido de One Piece, abraçando uma estética propositalmente cartunesca com penteados impossíveis, cabelos e roupas bem coloridas e paisagens que seriam impossíveis de existir. Pode até parecer artificial, mas a verdade é que a série não tem qualquer pretensão de parecer realista. Pelo contrário, o objetivo é ser um desenho animado com performances humanas e é muito bem sucedido nisso.

Até mesmo em elementos que dependem de muitos efeitos visuais e que temi que uma produção televisiva não conseguisse dar conta, a série consegue entregar bons resultados, como nos efeitos que criam o adorável Chopper, a pequena rena aprendiz de médico que se une ao bando de Luffy. Muito do que faz Chopper funcionar é a mescla de computação gráfica com efeitos práticos, com a versão transformada de Chopper sendo claramente uma pessoa num traje de rena gigante.

Falando em criação de universo, é interessante ver como a série usa o conhecimento de histórias futuras para já apresentar elementos que serão importantes mais adiante e que o mangá e anime não tinham como fazer porque não sabia os desdobramentos de determinados encontros. Assim, no arco que envolve Luffy e a baleia Laboon, temos um flashback que introduz Brook (Martial Batchamen) em sua forma humana. Durante o arco de Loguetown vemos Luffy encontrar Bartolomeo (Nahum Hughes), além de um vislumbre de Monkey D. Dragon (Rigo Sanchez), líder da resistência, conversando com uma silhueta que parece ser a de Sabo. São elementos que preparam terreno para histórias futuras de maneira que eventos e personagens pareçam já existir nesse universo ao invés de inseridos de qualquer jeito por retificações de cronologia. 

Trabalho em equipe

A força da série, no entanto, continua sendo o elenco principal e o modo como constroem o crescente laço entre o bando de Luffy e como eles lidam com o mundo. Iñaki Godoy segue ótimo com o idealismo ingênuo do capitão dos Chapéus de Palha, que inspira as pessoas por onde passa. A série consegue dar momentos entre cada um dos membros da tripulação, nos fazendo entender a conexão entre cada um deles e como eles passam a se importar um com o outro. Um exemplo é a dinâmica entre Zoro (Mackenyu) e Sanji (Taz Skylar), mesmo com constantes piadinhas e troca de farpas entre eles, é visível que se importam uns com os outros. Do mesmo modo, por mais que o Usopp (Jacob Romero) prefira fugir de conflitos, ele não hesita em participar de batalhas para proteger os aliados.

Entre os novos personagens posso destacar o Mr.3 interpretado por David Dastmalchian, que consegue encontrar o exato equilíbrio entre a bizarrice cartunesca e as facetas mais sinistras do agente da Baroque Works. A atriz Lera Abova é competente em construir o ar de dama fatal de Miss All Sunday/Nico Robin, trazendo uma eficiência letal para a personagem, bem como uma aura de mistério ao mesmo tempo em que dá indicações dos traumas passados dela. A Vivi de Charithra Chandran desenvolve uma química tão natural com o bando de Luffy que parece que ela sempre esteve presente no Going Merry.

A história que se destaca ao longo da temporada é a de Chopper, conseguindo convocar a emoção do passado trágico da pequena rena e como as coisas sempre caminharam para pior em sua vida mesmo com suas boas intenções. Inclusive a série é muito boa em equilibrar esses momentos de drama genuíno com um humor mais abobalhado, como a conversa de Zoro e Nami (Emily Rudd) dentro da baleia Laboon ou o modo como Luffy começa a fazer alongamento no meio do monólogo do vilão Wapol (Rob Colletti) já prevendo que terá de lutar com ele. Essa segunda temporada ainda resolve os problemas de ritmo do ano de estreia, que parecia enfiar o pé no acelerador para cobrir o maior número de elementos o mais rápido possível. Aqui a trama não transparece a mesma pressa e nunca soa como se estivéssemos vendo um resumo do anime, operando com mais confiança em sua própria cadência.

A ação segue trazendo o espírito de exagero do mangá e do anime, explorando criativamente as habilidades dos personagens, como o Mr. 5 (Camrus Johnson) que transforma as melecas do nariz em explosivos poderosos. O destaque fica por conta da luta entre Zoro e os mercenários em Whisky Peak, que começa no andar térreo de uma estalagem e vai até o topo, se estendendo depois para as ruas da vila. Com planos mais abertos e evitando uma montagem picotada, a sequência mostra toda a habilidade de Zoro em lidar com dezenas de inimigos em um embate que testa os limites do espadachim.

Aqui e ali algumas cenas de ação deixam a desejar, em especial a luta entre Zoro e Tashigi (Julia Rehwald) em Loguetown, cuja câmera estranhamente se mantem em cima de Zoro ou adota enquadramentos que não privilegiam os movimentos da luta, como tomadas áreas (que trouxeram de volta memórias ruins da primeira temporada da série do Punho de Ferro) e montagem repleta de cortes.  São escolhas que parecem feitas para ocultar a troca da atriz Julia Rehwald por uma dublê durante os momentos mais intensos da luta e acaba se destacando negativamente considerando o quanto a ação costuma operar para deixar evidente para nós que são os atores de fato fazendo essas acrobacias.

Depois de um primeiro ano bacana, fico contente que a segunda temporada de One Piece continue sendo uma aventura divertida e que consiga resolver alguns problemas de sua estreia.

 

Nota: 8/10


Trailer


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