quarta-feira, 4 de março de 2026

Crítica – Embaixo da Luz de Neon

 

Análise Crítica – Embaixo da Luz de Neon

Como lidar com a perspectiva de morte iminente? O que fazer quando sabemos que temos pouco tempo neste mundo e como nos preparamos para esse fim? Não são perguntas fáceis, mas é com elas que o documentário Embaixo da Luz de Neon tenta dialogar, produzindo um retrato sensível de alguém que vê o fim se aproximar.

Vida poética 

O documentário acompanha aquele que pode ser o último ano da vida da poeta Andrea Gibson. Três anos antes ela tinha recebido um diagnóstico de câncer de ovário e depois de vários tratamentos a doença insistia em voltar. A essa altura ela já ultrapassou o prognóstico de dois anos de vida e o câncer já se tornou metástase e se espalhou para os ossos. A narrativa acompanha Andrea e a esposa, Megan Falley, em seu cotidiano.

Seria fácil construir tudo como uma narrativa sorumbática sobre a dor e sofrimento de uma paciente oncológica nos altos e baixos dos estágios finais da doença, mas Andrea, Megan e, por consequência, a narrativa não se permitem deixar o desespero tomar conta. Temos os momentos dos resultados dolorosos de exames, dos efeitos colaterais severos de medicação, do desalento no qual Andrea questiona a própria existência.

Em meio a toda essa dor, no entanto, o casal encontra momentos de felicidade, seja durante um breve recuo do câncer, seja em um jantar com amigas ou em momentos de cumplicidade nas quais as duas deitam no chão da casa ao lado dos animais de estimação e trocam confissões de mãos dadas.

Enquanto elas conversam, a montagem transita entre várias imagens de arquivo do passado recente de Andrea desde que recebeu o diagnóstico e também de momentos anteriores de sua vida. O recurso soa como um esforço de nos deixar imersos no fluxo de pensamento da personagem, ilustrando seus sentimentos, memórias e relação com o mundo, principalmente nas cenas em que ela declama suas poesias. As falas de Andrea lidam com a angústia do fim, mas celebram uma vida bem vivida, na qual ela conseguiu viver fazendo o que ama, encontrou uma companheira e se depara com seus possíveis momentos finais cercada de afeto. Uma ponderação de como a finitude da nossa existência é o que torna belo cada um dos momentos de amor ou felicidade que experimentamos, mesmo aqueles que parecem pequenos no grande esquema das coisas.

Rockstar da poesia

O documentário também analisa a trajetória artística de Andrea e como ela se tornou relevante no meio da poesia, em especial por sua apresentações de poesia falada. Explorando como a arte feita por ela se conecta com seus sentimentos, acompanhamos algumas apresentações que revelam a intensidade com a qual ela declama suas palavras e a força de suas apresentações, que movem o público de uma maneira que parece mais próxima de uma estrela da música.

Para quem não conhece a obra de Andrea, o filme oferece um bom ponto de entrada para sua obra e analisa seus impactos da arte queer e no meio da poesia como um todo. A cena da apresentação final de Andrea serve como uma celebração de sua vida e arte, uma catarse poderosa a respeito de não perder a força de vontade mesmo quando o fim se aproxima. Seria, inclusive, um bom ponto para encerrar o filme, com a apoteose da artista conseguindo entregar uma performance derradeira depois de meses com a saúde fragilizada. Sim, a cena final de Andrea e Kate conversando enquanto olham o último exame e conversam sobre os pássaros pousados na árvore serve como uma delicada reflexão final do modo como as duas encaram o relacionamento delas e o inexorável fim que acaba se colocar diante delas, mas penso que a performance da poesia funciona melhor como clímax.

Embaixo da Luz de Neon equilibra muito bem o tema delicado que trata, refletindo sobre vida, morte, amor e despedida com muita delicadeza e lirismo.

 

Nota: 9/10


Trailer


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