Vida pública
A narrativa se passa em 2008 e acompanha Ella (Emma Mackey, de Sex Education), uma idealista vice-governadora cujo governador e mentor político está prestes a deixar o cargo para assumir uma posição de ministro no governo federal. Prestes a assumir como governadora, Ella enfrenta problemas no casamento, na sua carreira política e na relação distanciada que tem com o pai.
Emma Mackey traz sinceridade ao otimismo constante de Ella, que acredita que pode mudar as coisas e fazer a diferença mesmo com todos os obstáculos que se impõem a ela. O problema é que tudo que existe ao seu redor é raso e desinteressante. A narrativa tenta equilibrar um grande número de subtramas e não consegue desenvolver nenhuma delas a contento.
Algumas não funcionam porque o texto nunca consegue fazer nada interessante com elas, a exemplo do arco do irmão de Ella, Casey (Spike Fearn), que tenta voltar com a namorada com quem terminou a mais de um ano. Não tem nada ali de particularmente engraçado ou dramático, a trama poderia ser removida do filme que não faria diferença e nenhum dos personagens tem qualquer desenvolvimento além de personalidades unidimensionais, desperdiçando inclusive a talentosa Ayo Edebiri que faz a ex de Casey.
Os problemas no casamento de Ella e Ryan (Jack Lowden) tem um desenvolvimento previsível, já que desde o início é evidente que Ryan é um babaca aproveitador que vai tentar tirar vantagem do novo cargo da esposa e criar problemas com isso porque, inclusive, é burro demais até para cometer corrupção. As tensões entre Ella e seu mulherengo pai, Eddie (Woody Harrelson), também tem pouca repercussão na trama e apesar de entendermos porque ela tem problemas com o pai, a decisão final dela de se recusar a perdoá-lo não é construída de um jeito convincente, como muitos desdobramentos da trama, diga-se de passagem.
Política rasteira
A narrativa ainda tenta comentar sobre as dificuldades da atuação política e como os caminhos para realmente mudar as coisas são difíceis. Como no resto do filme, porém, tudo isso fica na superfície, com a trama recorrendo a vários lugares-comuns que remetem a um ideal que a política não serve para nada e que é melhor atuar fora dela. É o tipo de sentimento anti-política que soaria ingênuo e equivocado uma década atrás. Nos dias atuais, quando vemos que as consequências para todo o desencanto e discurso anti-política do início da década de 2010 foi a ascensão de populistas reacionários, defender esse ponto de vista soa, além de raso e equivocado, desconectado com a realidade da política no mundo. Ao invés de discutir com nuance ou cuidado, o filme joga de maneira irresponsável uma série de clichês datados.
O humor também não funciona. Em parte porque o filme não consegue transitar de maneira orgânica entre o drama e a comédia da situação. É difícil entender porque o filme escolhe enquadrar a personalidade mulherenga de Eddie, que traiu a esposa múltiplas vezes e já ficou até com amigas de Ella, como algo cômico o tempo todo. A montagem quase sempre perde o timing das situações demorando a cortar para a resposta inesperada de alguém ou falhando em dar um ritmo apropriado às situações. Assim, mesmo com um elenco experiente em comédia, com nomes como Jamie Lee Curtis, Woody Harrelson, Albert Brooks, Kumail Nanjiani ou Julie Kavner (a voz da Marge Simpson em inglês), o filme não conseguiu me fazer esboçar um sorriso sequer.
São tantas ideias, temas e
personagens que fica difícil depurar o que o filme realmente quer dizer com
tudo que põe em cena. A impressão é que estamos assistindo uma colagem
aleatória de vários momentos que não conseguem formar um todo coeso e não tem
nada a comunicar.
Nota: 3/10
Trailer


Nenhum comentário:
Postar um comentário