quinta-feira, 5 de março de 2026

Crítica – A Noiva!

 

Resenha Crítica – A Noiva!

Review – A Noiva!
Dirigido por Maggie Gyllenhaal, A Noiva! é um filme esquisito e digo isso como elogio. Nem tudo que ele tenta fazer funciona e parece ter dificuldade de organizar suas várias ideias em um pacote coeso, no entanto, há algo bastante singular na releitura que a diretora faz da história da “noiva do Frankenstein”.

Casamento sangrento

A narrativa se passa nos Estados Unidos na década de 1930. A criatura de Frankenstein (Christian Bale) vai ao país procurando a doutora Euphronius (Annette Benning), uma cientista proeminente no campo da reanimação. Ele pede ajuda para criar uma companheira e aplacar a solidão que sente há mais de um século. Junto da cientista ele escava um cadáver recém enterrado e reanima sua Noiva (Jessie Buckley), ela tem poucas memórias de sua vida pregressa e disputa o controle do seu corpo com o espírito da escritora Mary Shelley (também Jessie Buckley), autora do romance Frankenstein. Juntos Frank e sua Noiva partem para explorar a cidade, mas logo se tornam alvo das pessoas por conta de sua aparência.

A primeira coisa que chama atenção é o modo como a narrativa mistura diferentes gêneros e referências. A vida em fuga de Frank e a Noiva somada à ambientação dos anos de 1930 tem um quê de Bonnie e Clyde. O fascínio que Frank tem por filmes musicais e eventuais números de dança evocam os musicais do período. A história de máfia que envolve o passado da Noiva dialoga com filmes de gângster e, logicamente, toda a questão da criatura e da Noiva se relaciona com o horror.

É uma mistura bem peculiar de elementos que o filme constrói com fluidez e confere um clima singular à narrativa. Um espetáculo de caos e fúria, saindo de um número de dança entre Frank e a Noiva, para um tenso impasse com policiais que rendem eles, terminando em uma reação sangrenta, culminando em cenas de sexo entre o casal principal.

Christian Bale faz da criatura uma figura trágica. Um ser solitário que vaga o mundo em busca de algum senso de normalidade e espera que uma companhia lhe dê isso. Bale dá ao personagem um leve sotaque do leste europeu aludindo ao lugar onde foi criado. Há nele uma vulnerabilidade emocional, mas também uma agressividade latente pelo tratamento que recebe das pessoas.

Já Jessie Buckley traz à Noiva a confusão de alguém em busca de uma identidade. Ela é alguém cuja noção de si está fragmentada entre passado, presente e o espírito de Mary Shelley que tenta controlar seu corpo. Essa confusão se materializa também na linguagem corporal da personagem, com espasmos e tiques como se tivessem várias pessoas lutando pelo controle do corpo dela. As diferentes personalidades se mostram na voz, com a Noiva falando em um sotaque britânico quando Shelley toma o controle. Juntos eles agem como jovens desbravando o mundo e a si mesmos, principalmente a Noiva, que busca construir uma identidade própria e entender quem é.

Confronto de ideias

Como falei, o filme costura várias ideias, referências e linhas narrativas, mas nem sempre consegue costurar tudo em um todo coeso. Falei, por exemplo, da predileção de Frank por musicais e como a trama coloca os personagens em números de dança. De início pensei que isso seria uma constante, mas depois de um tempo os números musicais são abandonados. O fato de Mary Shelley ser uma personagem aponta para uma tentativa de recuperar o nome da escritora e o lugar dela na história da literatura, mas isso não necessariamente se conecta com os demais arcos da narrativa.

Há a história do chefão da máfia Lupino (Zlatko Buric, de Magnum) com quem A Noiva se envolveu em sua vida pregressa. Todo esse arco tenta falar sobre o silenciamento das mulheres e como as autoridades tratam a vida feminina como descartável, não se interessando em desvendar os crimes. Isso reverbera no detetive Jake (Peter Sarsgaard, marido de Maggie Gyllenhaal na vida real), que está no encalço de Frank e da Noiva ao lado da assistente Myrna (Penelope Cruz), que é o verdadeiro cérebro da investigação, mas por ser mulher não é levada a sério pelos outros policiais.

Em meio a tudo isso também temos Frank e sua busca por se sentir humano, algo que se desenvolve ao longo de sua relação com a Noiva, embora passe para o segundo plano uma vez que a Noiva se torna mais assertiva e o foco passa a ser ela. O arco da Noiva pondera tanto sobre a identidade individual da personagem quanto questões relacionadas ao ser mulher em nossa sociedade. A Noiva é vista como monstruosa não apenas por sua aparência, mas por não se conformar aos padrões que a sociedade espera de uma mulher e incorpora a em si a fúria das mulheres que foram subestimadas ou silenciadas. Nesse sentido, o visual da personagem ecoa os temas do filme, com o corpo dela permeado pelas manchas dos produtos químicos usados em sua reanimação simbolizando essa dimensão “maculada” dela.

São muitos arcos, ideias e temas. Nem todos são bem desenvolvidos, alguns são largados no meio do caminho enquanto outros permanecem, embora não necessariamente bem costurados no restante da trama. É tudo meio caótico e estranho, mas longe de ser ruim. Há uma visão audaciosa guiando tudo isso, mesmo que ela não saiba o que quer em alguns momentos, e uma personalidade muito marcante na visualidade e na maneira como a narrativa é conduzida. Mesmo que não consiga sustentar tudo a que se pretende, A Noiva! tem méritos suficientes para valer a experiência.

 

Nota: 7/10


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