Deserto particular
A narrativa acompanha Luis (Sergi López), um homem de meia idade que viaja junto com o filho pequeno Esteban (Bruno Nuñez Arjona) para uma grande rave no meio do deserto ao sul do Marrocos. Ele procura a filha que desapareceu meses atrás, mas ninguém no local reconhece as fotos que Luis leva consigo. Um grupo avisa a Luis que estão indo dali para outra festa no deserto próximo da Mauritânia e Luis decide acompanhá-los apesar dos avisos que a estrada é perigosa e que o carro dele talvez não seja capaz de atravessar.
É o início do calvário de Luis e do grupo que ele acompanha. Como a cartela inicial informa, ele vive um inferno pessoal com o sumiço da filha e tem a esperança de que essa viagem perigosa através do deserto resolva a situação. O que ele encontra no caminho é uma série de desafios e infortúnios que o levarão ao limite.
A maneira como o diretor Oliver Laxe filma essas festas e o deserto em si conferem um caráter apocalíptico às imagens. Não parece que estamos no mundo real e sim em uma distopia como Mad Max e similares. A impressão é que o mundo acabou e aquilo é tudo que restou com a música pulsante e a entrega ao transe dessa pulsação e das drogas é a única coisa que torna uma existência vazia e tormento minimamente suportável. A mixagem sonora nos apresenta essa música quase como um elemento opressivo, silenciador. Ela domina o espaço quando é toda, a pulsação intensa chega a fazer nossos corpos vibrarem enquanto assistimos, nos coloca naquele ambiente. Essa intensidade é contrastada com o vazio do deserto, cujo silêncio só quebrado por ruídos de vento, dos pneus dos carros na areia e outros indicadores de que não há muito mais naquele ambiente, como se a música eletrônica intensa fosse a única maneira de preenchê-lo.
Calvário vazio
O primeiro ato do filme estabelece toda essa lógica do calvário de Luis, da futilidade da busca por sentido em um mundo cada vez mais devastado e do quão terríveis são os conflitos armados na África saariana. Conforme o filme avança, bem, não há muito mais a ser oferecido. A narrativa apenas reitera essa ideia de que aquele é simplesmente um lugar horrível, pronto e acabou, que tentar fugir do apocalipse rumo à salvação é algo que trará grande medida de sofrimento e não será bem sucedido, martelando isso sem sutileza conforme começa a eliminar personagens em situações que existem apenas para aumentar o sofrimento dos personagens.
Isso fica evidente no momento em que alguém morre quando um dos carros escorrega em uma estrada estreita e atinge um patamar de absurdo risível no segmento do campo minado que serve de clímax para a trama. São mortes não demostram qualquer outro propósito além de chocar o espectador com a banalidade dessa violência estilizada que o filme apresenta. É tudo conduzido como se fosse um exame arrojado da banalidade do sofrimento e violência no mundo, mas que, na prática, é só uma pornomiséria vulgar que aumenta constantemente o sofrimento de seus personagens sem ter nada a dizer a respeito disso além de vivermos em um mundo desolado e implacável, embora a narrativa já tenha dito isso antes de recorrer a esses expedientes sensacionalistas.
Imagino que muita gente deve se incomodar com o fato da trama praticamente abandonar a premissa inicial e nunca resolvê-la. Pessoalmente não acho isso um problema. Me parece que a ideia é esse elemento adicionar ao calvário de Luis como uma redenção que nunca chega, uma pergunta sem resposta, um paraíso que nunca é alcançado. É quase como se o filme tentasse reproduzir a lógica de Esperando Godot, de Samuel Beckett, uma peça de teatro sobre pessoas no meio do nada esperando algo que nunca chega. Se em Beckett o resultado dessa circularidade inconclusa era uma ampla reflexão sobre a condição humana que se abria a várias interpretações, aqui ela existe apenas para reiterar a observação inane sobre a desolação e sofrimento do mundo.
Talvez meu contato com Sirât tenha sido afetado por ele ter
sido colocado em competição direta na temporada de premiações com Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi.
Um filme que também traz pessoas numa busca por alento em meio a uma vida de
desolação que só lhes traz mais sofrimento e que desenvolve uma relação
intertextual com a peça de Beckett, mas faz isso de maneira muito mais madura e
contundente, ponderando sobre trauma, reparação, vingança, justiça e
civilização. Sirât, por sua vez, é um
exercício de sofrimento cosmetizado que não vai além da obviedade.
Nota: 4/10
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