Falecido em 2025, o cineasta Alagoano Cacá Diegues foi um dos integrantes do Cinema Novo capitaneado por Glauber Rocha e permaneceu ativo até seus últimos anos. Dirigido por Lírio Ferreira (de Baile Perfumado) e Karen Harley (de Lixo Extraordinário), o documentário Para Vigo Me Voy! examina de maneira afetuosa a trajetória do realizador.
País do carnaval
O filme reconta a trajetória de Diegues, explicando como ele começou a produzir filmes e as produções que inspiraram o movimento do Cinema Novo, como os filmes de Nelson Pereira dos Santos. A produção transita entre imagens do cotidiano de Diegues, feitas nos seus últimos, incluindo até bastidores da continuação de Deus é Brasileiro (2003), articulando isso com imagens de arquivo do diretor em entrevistas e outras situações e com cenas de seus filmes.
É uma estrutura bem típica de documentário biográfico e não faz muito para ir além do formato. Explica de maneira didática os elementos formativos de Diegues, suas influências e pontos de vista, sendo um bom espaço para se aproximar da obra do cineasta para quem conhece pouco a seu respeito. Quem tem familiaridade com a obra talvez não encontre muita coisa nova.
Através do uso de seus filmes, a produção destaca temas caros ao cineasta, como sua conexão com o carnaval em produções como Quando o Carnaval Chegar (1972), Bye, Bye Brasil (1979) ou sua versão de Tieta (1996). O senso de movimento e inquietação do Cinema Novo é transmitido pelas cenas de correria, algo que Eryk Rocha também explorou no documentário Cinema Novo (2016). Do mesmo modo, vemos sua conexão com a cultura afro-brasileira em filmes como Ganga Zumba (1963), Xica da Silva (1972) ou Quilombo (1984).
Celebração de legado
As cenas de Diegues na velhice mostram um sujeito fisicamente fragilizado, (em dado momento ele chega a tomar uma queda), mas com uma mente ainda afiada, evidenciado pelas cenas em que ele dirige Antônio Fagundes no segundo Deus é Brasileiro. Essas cenas ainda apresentam uma afetuosa homenagem ao diretor na cena em que ele se reúne com atores, músicos e outros profissionais que trabalharam com ele em uma tocante celebração de seu legado artístico.
O filme faz uma escolha muito clara em deixar que o próprio Diegues explique e defenda sua obra, com as falas do diretor captadas para o filme ou em imagens de arquivo desempenhando essa função. É ele e seus contemporâneos que analisam seus trabalhos, já que o filme não usa uma narração ou tenta explicar ao espectador de maneira mais direta. Claro, a mão dos realizadores se faz presente em escolhas de montagem, em como eles articulam essas falas com imagens dos filmes para revelar um ponto de vista sobre a obra do diretor, mas em termos de comentários mais explícitos, o filme delega ao próprio Cacá Diegues.
A narrativa explora como alguns filmes de Diegues o tornaram alvo da censura da ditadura militar, como no lançamento de Xica da Silva. Por outro lado, se afasta de outras polêmicas, como a recepção majoritariamente negativa de sua versão de Orfeu (1999).
Assim, Para
Vigo Me Voy! serve como um competente panorama da vida e obra de Cacá
Diegues, principalmente para quem conhece pouco da obra do cineasta.
Esse texto faz
parte de nossa cobertura do XXI Panorama Coisa de Cinema.
Trailer


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